No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

12 de setembro de 2020
Ana Lucia Coradazzi

9 comments

A luz que nunca faz sombra

A enfermaria parecia tranquila naquela manhã. Eu podia ouvir as enfermeiras conversando na sala de medicação, mas o tom de voz baixo não me permitia entender sobre o que falavam. O médico responsável estava sentado em frente ao computador, fazendo as prescrições do dia, compenetrado, e me sorriu num “bom dia” cordial. Eu estava lá para saber notícias da Gabriela*, minha paciente que, aos quarenta e poucos anos, estava vivenciando a fase final de sua vida, na Unidade de Cuidados Paliativos. Troquei algumas palavras com o colega para saber da evolução dela nas últimas horas. As notícias, como eu esperava, não eram as melhores. Gabriela tinha um câncer do apêndice cecal, uma raridade oncológica que costuma ser implacável quando em estágio avançado. E era essa implacabilidade que eu vinha vendo no corpo dela nos últimos meses. O extenso comprometimento do abdome, obstruindo seu intestino, não permitia que ela se alimentasse, causando vômitos e náuseas constantes. Nenhum dos tratamentos que tínhamos à mão, como a quimioterapia e uma tentativa cirúrgica de desobstrução, tinha surtido qualquer efeito. E, depois de semanas muito duras, Gabriela tinha concordado com a internação, para que ficasse mais confortável.

Era essa Gabriela, extremamente emagrecida, cujo corpo estava tão combalido pela doença que ela nem ao menos conseguia se virar sozinha na cama, que eu estava indo ver naquela manhã. Durante o curto caminho até a porta do quarto, fiz minha pequena prece, que me ajuda a encontrar as palavras nos momentos mais desafiadores e orienta meus gestos quando minhas mãos não sabem o que fazer. Ela estava de olhos fechados, a mãe em pé ao lado da cama, em silêncio. Sua respiração era leve e tranquila. Os dedos finos e emagrecidos repousavam sobre o abdome, mostrando que ela ainda conseguia resguardar seu próprio corpo. Conversei um pouco com a mãe, perguntei como elas estavam, mas nem precisava ter perguntado. O rosto cansado dela revelava o quanto tudo aquilo estava sendo difícil. Gabriela se mantinha de olhos fechados. Toquei em suas mãos, ela abriu levemente os olhos, e me disse um “oi” tão baixinho que mal dava para ouvir. Disse que estava tudo bem. Que não tinha dor. Que estava cansada. E que “não, não tinha nada mais que pudéssemos fazer para ajudar, obrigada.”

Era ela sendo ela mesma. Meses atrás, quando a conheci, minha impressão dela tinha sido a de uma mulher forte e sensata, dessas que tomam qualquer tipo de decisão por si mesmas, sempre após pesar os prós e contras, e sempre levando em consideração seus próprios valores. Gabriela sempre tinha participado das decisões envolvendo seu tratamento de forma ativa. Perguntava, de forma direta e até desconcertante, quais as possibilidades e quais os riscos, em qualquer situação. Deixava claro o que esperava de mim. Quando nossas opções de tratamento se esgotaram, lembro dela me olhando nos olhos, categórica: “Então é isso, certo? Agora é esperar.” E lembro da força que precisei fazer naquele dia para resistir à tentação de iludí-la com palavras de encorajamento. “É, Gabi. Agora é cuidar de você, pelo tempo que você tiver.”

Às vezes, as palavras que saem da boca de um médico são tão difíceis de serem ouvidas quanto de serem ditas. Nós muitas vezes nos perdemos em meio aos termos técnicos que nos protegem da angústia e do sofrimento, e nos permitem uma fuga estratégica diante de situações que, convenhamos, são de dissolver o mais rude dos corações. É uma verdadeira batalha interna proferir palavras que, em última instância, revelam nossa impotência diante da finitude. Dizê-las assim, olhando nos olhos de alguém como a Gabi, sabendo da sua força e da sua coragem, exigiu muito mais do que uma prece. Os olhos dela exigiram toda a compaixão que eu pude resgatar de dentro de mim. Exigiram a lembrança de que ninguém merece o sofrimento adicional de ter sua autonomia roubada por mentiras pretensamente piedosas. Os olhos dela me obrigaram a lidar com o enorme desconforto de trazer sombra à sua existência. As sombras, infelizmente, fazem parte da vida.

Ali, ao lado dela, na fase final de sua vida, eu não enxergava mais brilho nos seus olhos. Não ouvia mais o som claro da sua voz, não via mais as atitudes determinadas, nem sequer podia reconhecer sua personalidade. Mas, estranhamente, ainda havia luz ali. Em meio à evidente tristeza de toda a situação, daquela partida que nos parecia tão precoce, havia luz. Uma luz serena e até mesmo confortável, e a estranha sensação de que estava, mesmo, tudo bem. Fiquei um tempo com elas, minhas mãos sobre as da Gabi, observando o subir e descer do abdome, deixando o silêncio fazer sua morada. Deixando a luz dela nos envolver.

Algumas horas depois, conversando com o esposo dela, ele nos falou sobre como as semanas vinham sendo difíceis, e como vê-la indo embora era doloroso. Contou sobre a sensação de todo o universo estar contra eles, sobre a sensação opressora de impotência. Falou sobre como não se sentia no direito de expressar seu próprio sofrimento, diante de alguém que estava numa situação tão mais difícil que a sua, e contou sobre sua admiração por ela, que o ajudava a lidar com tudo aquilo de uma forma um pouco mais serena. Em meio a toda a sua dor, ele ainda encontrou palavras para nos agradecer, falando sobre como nosso apoio aliviava seus momentos mais duros. E, no final da conversa, disse uma das frases mais lindas que já ouvi em toda a minha vida: que nós, médicos, temos uma luz que nunca faz sombra.

Talvez ele e a Gabriela nunca venham a ter consciência do quanto cativaram meu coração e trouxeram luz à minha vida. Com sua postura corajosa e resiliente diante do sofrimento que a doença lhes trouxe, eles ainda foram capazes de enxergar o mundo com generosidade e gratidão, percebendo o quanto o respeito à sua autonomia lhes foi valioso. Eles puderam preservar a grandeza das pessoas que são, mesmo diante da incapacidade de colocar ordem no caos. Sem nem se darem conta, me ensinaram que não tenho o poder de levar sombras à vida das pessoas quando elas têm luz dentro de si. Eles, sim, têm uma luz que não se deixa sombrear.

 

*nome fictício para preservar a identidade da paciente

9 comentários sobre “A luz que nunca faz sombra

  1. Dra Ana Lúcia e sua capacidade e sensibilidade de me levar às lágrimas. Mais um texto lindo que nos leva a refletir sobre o que somos e o que deixaremos.
    Certamente a Gabriela só deixou boas lembranças aos que ficaram.
    Obrigada por compartilhar.

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  2. E eu posso categoricamente lhe dizer que vc é LUZ Dra.
    Apenas no seu olhar encontramos o alento..mesmo sem dizer uma palavra….
    Texto lindo..emocionante…profundo…Chorei…bjs qdo.

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  3. Maravilhoso como sempre, a maneira como é colocada cada situação vivida…
    Sempre muito distinta, perspicaz, sútil, delicada e evolutiva…
    Obrigada por em poucos momentos Deus ter me permitido conhecê-la !
    Deus a abençoe cada dia mais

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  4. Comovente

    Obter o Outlook para Android

    ________________________________

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  5. Comovente me fez crescer

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