No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

6 de dezembro de 2020
Ana Lucia Coradazzi

5 comments

Os dias mais estranhos das nossas vidas

Dias estranhos esses. São dias em que cada palavra dita pode desencadear uma crise, e cada palavra não dita também. Em poucas horas, atendendo pacientes tão diferentes quanto duas pessoas podem ser, temos ouvido de tudo um pouco (e, às vezes, pouquíssimo do que realmente importa). Desconfortáveis, presenciamos posicionamentos radicais sobre todo e qualquer assunto, muitos dos quais se opõem frontalmente aos nossos próprios posicionamentos, e até aos nossos valores mais sagrados. E nós, resignadamente, silenciamos. Não por receio ou por descaso, mas por um bem maior: manter o relacionamento minimamente funcional. Médicos precisam cuidar de todos. Temos pacientes de direita e de esquerda. Temos negacionistas, desconfiados, fanáticos pela Ciência e, claro, temos aqueles que já não têm mais qualquer ideia do que está acontecendo no mundo. Há ainda aqueles preconceituosos, depressivos, iludidos, e até alguns poucos otimistas incorrigíveis (esses, confesso, faz tempo que não encontro). Nós ouvimos suas ideias e pensamentos, às vezes travamos verdadeiros embates éticos dentro dos nossos cérebros, mas ainda assim silenciamos. Porque não adianta. Nada é mais improdutivo para a saúde de alguém do que debates que já se iniciam empatados. Dias estranhos esses em que mudar de ideia é sinal de fraqueza, ouvir o outro é sinal de subserviência e discordar é uma ofensa grave.

O consultório médico passou a ser mais próximo da psicoterapia do que da Medicina. As pessoas precisam falar, e não têm com quem. Elas precisam expressar suas inquietudes, suas ideias, seus posicionamentos em algum lugar onde se sintam seguras para isso, onde não serão ferozmente atacadas por pessoas que nem conhecem (ou até por pessoas que nem ao menos existem). Precisam de um espaço onde possam falar de si mesmas e do quanto o mundo as incomoda. Precisam deixar os sapos saírem da garganta. O câncer, a quimioterapia ou os planos para um futuro incerto abrem espaço para questionamentos sobre vírus, políticos e vacinas. Uma paciente passa todo nosso tempo de consulta explicando em detalhes como está se protegendo do vírus, do quanto é cuidadosa com sua família e como se organizou para sair de casa apenas uma vez por semana para fazer as compras do mercado, apressando-se em explicar que deixa os sapatos na porta ao retornar e corre para o chuveiro antes do abraço dos filhos. O paciente seguinte, alheio ao que acabei de escutar, me conta sobre como o mundo enlouqueceu com um vírus que mata muito pouco, o quanto ele próprio se recuperou bem da doença há pouco mais de um mês, não sentindo nada mais que uma dor de cabeça, e como acredita que é um exagero obrigar as pessoas a usar máscara o tempo todo (“eu só uso quando sou obrigado, doutora, por mim não usaria não”). Pacientes revoltados contra as políticas de saúde do governo passam longos minutos criticando o último discurso de algum ministro, enquanto outros o aplaudem incondicionalmente, convencidos de que é necessário ser firme e determinado nessa hora. Enquanto alguns esperam ardentemente pela vacinação, outros não tomarão a vacina nem por decreto. E eu, médica de todos, silencio, restrinjo meus comentários aos pontos que poderão ter impacto direto na saúde deles. Porque poucos são os que esperam de mim respostas ou orientações. A maior parte precisa, apenas, dos meus ouvidos.

Médicos hoje estão numa posição delicada. Incapazes de instituir abordagens psicoterápicas (tanto por falta de formação para isso como por falta de tempo), não temos como aliviar a angústia da solidão e da incerteza que vemos pulsar nas palavras das pessoas. Tampouco podemos ouvir sem fazer julgamentos, como os padres são capazes, porque estamos mais próximos dos homens do que dos santos. Julgamos, nos indignamos e nos surpreendemos, mas colamos firmemente nossos lábios em prol da pessoa que se senta à nossa frente. Estando tão perto assim das inconsistências do mundo, médicos ganharam um desafio adicional em sua prática: a diplomacia. Estamos aprendendo a respeitar mais os limites e pensamentos alheios, aprendendo a conviver com o diferente e com o oposto, e a nos posicionar pelo bem comum (o que inclui o nosso próprio bem). Estamos incorporando a imensa sabedoria que há em escolher as batalhas que valem a pena ser enfrentadas, e a abrir mão de nos posicionar quando os frutos não valem o esforço. A diplomacia inclui a arte de permitir que as pessoas escolham seus caminhos, principalmente quando seus caminhos divergem dos nossos. A divergência tem nos feito mais sábios e mais fortes, embora nos deixe, indubitavelmente, mais cansados. Que assim seja.

5 comentários sobre “Os dias mais estranhos das nossas vidas

  1. É pura verdade oque está acontecendo com nós médicos , estamos sendo obrigados a nos tornar psicólogos deste mundo louco que vivemos .

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  2. O texto traduz palavra por palavra aquilo que vai na alma, creio eu, de colegas jovens ou nem tanto, com pouca, mediana ou muita experiência como eu. Fico grato e se não traz alívio, traz esperança e alegria de um mundo melhor. Há de se reconhecer que uma força maior nos conduz, se não esmorecermos na busca da verdade e no amor que temos dentro de nós.

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  3. Faço minha essa ilustre reflexão, disse tudo que tenho passado no meu consultório e em todas as mídias que passaram a ser parte do consultório.

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