No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

17 de fevereiro de 2021
Ana Lucia Coradazzi

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O Sopro

Quando começamos a visita pela manhã, eu e a médica residente, estávamos esperando um dia parecido com os de sempre: algumas conversas difíceis, alguns pacientes melhorando e recebendo alta, outros sem perspectiva de ir para casa tão cedo. Ela me falou sobre a Ivone*, a paciente que tínhamos acabado de assumir, uma senhora perto dos seus 50 anos, já com um diagnóstico prévio de carcinoma do colo uterino, com alguns tratamentos oncológicos já realizados, e que estava hospitalizada há semanas por complicações clínicas infecciosas. Segundo a história, as coisas não vinham nada bem para a Ivone. Ela tinha ficado um bom tempo na UTI com um quadro infeccioso grave, no qual usou antibióticos e muitas outras medicações. Tinha desenvolvido um quadro cutâneo assustador, provavelmente em decorrência desses antibióticos, e seu corpo vinha definhando aos poucos a cada dia de internação. Precisava de uma sonda para se alimentar e estava com uma traqueostomia na parte anterior do pescoço, da qual uma secreção espessa e abundante não parava de sair. Vinha tendo diarreia há dias (decorrente de outra infecção). Ao contar a história, a residente parecia angustiada e comovida. Enquanto nós duas caminhávamos pelo corredor até a enfermaria, buscávamos, em nossos cérebros, algum conhecimento que pudesse ajudá-la.

Tínhamos um outro paciente para ver naquela mesma ala, um senhor com quem teríamos que ter uma conversa muito delicada sobre a função dos seus rins, que piorava vertiginosamente. Decidimos vê-lo primeiro, imaginando que o caso da Ivone nos exigiria mais tempo. Levamos cerca de meia hora com o outro paciente, e então nos preparamos para ela. Já era o final da manhã, aquele horário em que todos os pacientes acabaram de ser banhados, e o cheiro de sabonete se espalha pela enfermaria. Ivone estava sozinha, na única cama do quarto. Entramos em silêncio. Ela estava com os olhos semicerrados, e parecia não perceber nossa presença. Ficamos algum tempo aos pés da cama, observando a respiração fraca, quase imperceptível. A pele era só um resquício do que um dia deveria ter sido. Manchas e descamações se espalhavam por todo o seu corpo. Em alguns pontos do lençol, podíamos perceber os ângulos do seu corpo emagrecido, os ossos despontando aqui e ali. Mesmo com a limpeza recém-terminada pela enfermagem, a tal secreção pela traqueostomia já sujava todo o lençol. Os lábios dela estavam entreabertos, pálidos. Olhei para a residente, e ela me devolveu o olhar: “Ela está partindo”. Cheguei perto, chamei seu nome algumas vezes, mas não houve qualquer resposta. Foi nesse momento que a vimos, serenamente, dar seu último suspiro. Ivone tinha falecido. Ficamos as duas algum tempo ao lado dela, entre surpresas e comovidas. Coloquei as mãos sobre ela, a testa fria, os olhos sem vida. Sem pensar muito, fiz uma prece em silêncio. Eu não sabia quem ela era, do que gostava, o que esperava da vida, ou mesmo se acreditava em preces. Mas não há pessoa no mundo que não mereça algumas palavras de paz no momento de sua partida, e uma prece era a forma mais familiar que eu tinha para isso.

Depois de avisarmos a enfermeira para que os procedimentos de rotina fossem iniciados, conversamos um pouco sobre o momento único que tínhamos acabado de presenciar. Médicos raramente estão junto de seus pacientes em seus últimos suspiros. Estamos com eles por longos períodos antes disso, e voltamos a vê-los pouco depois de sua morte, chamados por alguém da equipe, para constatá-la. Mas aqueles segundos sagrados, aquele momento exato em que a pessoa se despede desse mundo, não fazem parte da nossa rotina. Nós duas ficamos impactadas, nós duas nos vimos imersas em sentimentos surpreendentes e incompreensíveis. Falamos sobre aquela estranha sensação de paz que nos invadiu após a partida de Ivone. Sobre a percepção estranha do tempo, como se alguns minutos das nossas vidas tivessem sido congelados. Sobre o silêncio que parecia nos envolver, mesmo com tantos sons ao nosso redor. A expansão diferente dentro do peito, e o sentimento de conexão profunda com um ser humano que nós duas mal conhecíamos. A morte nos separa e nos une ao mesmo tempo.

Fiquei pensando na morte da Ivone durante todo o restante do dia. A imagem dela me vinha à mente, o seu corpo frágil que, pensando bem, já não abrigava mais a mulher que ela tinha sido. Fiquei ruminando as sensações tão singulares que ela nos causou, no aprendizado que ela nos trouxe, mesmo sem saber, mesmo sem estar mais entre nós. Pensei no eterno dilema médico, nossa incessante (e por vezes angustiante) luta interior entre fazer algo para modificar a situação de um paciente e nos abstermos de interferir. Ali, no quarto de Ivone, não havia dilemas. Não havia angústias, não havia dúvidas, não havia dor. O que sentíamos era uma imensa, profunda e comovente reverência pela vida dela, que chegava ao seu final em nossa companhia. Era essa reverência que nos tinha feito priorizar o silêncio, escolhendo as poucas palavras que mereciam ser pronunciadas naquele momento sagrado. A mesma reverência que tinha baixado nosso tom de voz, lentificado nossos movimentos, e feito com que nenhuma outra preocupação fosse mais importante do que estar ao lado dela em seus minutos finais. A reverência que nos fez simplesmente esperar.

Rubem Alves escreveu lindamente que “A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A ‘reverência pela vida’ exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir.” A vida de Ivone desejava ir, e então se foi.

*nome fictício para preservar a privacidade da paciente

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