Todas as cores do arco-íris

Ela já é minha paciente há uns dois anos. Um câncer de mama com metástases ósseas, indo muito bem com o tratamento desde o início. Já com certa idade, Dinorah tem uma brisa serena no olhar. Sorri com delicadeza, fala com parcimônia, gesticula com moderação. Gostei do seu jeito desde a primeira vez em que se sentou na cadeira à minha frente. Dinorah é casada e mãe de três filhos, já contabiliza cinco netos em sua lista de presentes para o Natal. O esposo, com quem compartilha a vida há mais de quarenta anos, está quase sempre com ela. Um senhor simpático, educado, leitor voraz de jornais e revistas, e sempre com alguma novidade médica recém-divulgada para me trazer. As consultas com eles são sempre assim: permeadas pela maturidade e sabedoria de quem muito já viu da vida.

Uma manhã, já mais para o final da consulta, ele fez um comentário homofóbico. Homofóbico mesmo, daqueles que não deixam dúvidas sobre seu teor. Aquilo me pegou de surpresa. Fiquei meio atordoada, não sabia bem como reagir, pensei inclusive que talvez eu não tivesse entendido bem o que ele disse. O desprezo vislumbrado naquelas palavras não combinava em nada com a pessoa atenciosa e agradável que eu tinha aprendido a respeitar. Mas eu tinha entendido sim, e a postura tensa da Dinorah, empertigando a coluna vertebral e tocando de leve o braço dele, deixava claro que ela também tinha percebido a inadequação do comentário. Dinorah estava constrangida, e eu também. Por mim, por ele, por ela. Em poucos minutos, ela mesma foi encerrando a consulta. Despediram-se me deixando ali, meio aparvalhada, eu e meus demônios. Atitudes homofóbicas me agridem profundamente. Algo em mim se revolta, um bicho acordando mau-humorado e feroz. Há tempos me propus a não permitir que atitudes assim passem em branco, já vi sofrimento mais que suficiente entre pessoas LGBTQIA+ para não me calar. Eu deveria ter reagido. Deveria? Deveria ter informado a ele que esse tipo de comentário não seria admitido ali? Talvez ter lhe passado uma descompostura, como já fiz algumas vezes em outros contextos? Ruminei o incidente por um bom tempo, dolorosamente. Eu tinha aprendido a gostar dos dois, a apreciar nossas conversas, a sorver em goles suculentos o aprendizado de vida que eles generosamente partilhavam comigo. Suspirei e deixei passar o tempo. Tempo suficiente para que o incidente se diluísse na minha memória.

As consultas seguintes transcorreram sem maiores sobressaltos, e nenhuma nova menção à orientação sexual de quem quer que fosse foi feita. Eu me convenci de que a própria Dinorah tinha se encarregado de orientar o marido quanto a isso, me poupando do constrangimento de educar alguém que poderia ser meu avô. E, sinceramente, foi um alívio não precisar lidar com aquilo. O dilema ético, para mim, era claro: o que seria prioridade ali? Moralmente, eu sentia que precisava expressar com clareza um posicionamento anti-homofóbico. Isso protege as pessoas vulneráveis, pode iluminar os pensamentos sombrios de quem tem o preconceito vibrando dentro de si e nem percebe. Mas o comentário do Afonso tinha sido realmente agressivo, deixando claro que eu estava diante de um pensamento absolutamente polarizado e com pouca ou nenhuma margem para uma discussão saudável. Não era uma mente disposta a questionar e, muito menos, a ser questionada. Eu sabia que meu posicionamento poderia causar um desconforto enorme para os dois, talvez a ponto de comprometer a relação que vínhamos construindo com tanto cuidado até ali. A questão é que, a meu ver, essa relação faz parte do tratamento oncológico, é uma ferramenta de cuidado. A confiança e a sensação de conforto do paciente e familiares para com seu médico têm efeito terapêutico, aumentam a adesão aos tratamentos e reduzem sofrimento. Eu imaginava a Dinorah no futuro, precisando dos cuidados dele e dos meus. Nós dois teríamos que trabalhar como equipe para cuidar dela, tínhamos que ter um bom convívio. Fragilizar essa relação por um embate moral seria ético? Por outro lado, até que ponto o médico precisa lidar com valores que ele próprio abomina? Faz parte da ética médica negligenciar uma atitude que chega a ser criminosa em nome de sua responsabilidade em cuidar de um paciente?

Eu me lembrei de um estágio que fizemos durante a graduação num grande hospital de emergências em São Paulo. Era um hospital de periferia, cuja grande demanda no Pronto-Socorro eram ferimentos por arma de fogo ou armas brancas. A essência dos nossos pacientes era de criminosos envolvidos em tiroteios com a polícia ou em brigas entre eles mesmos. Passávamos nossos dias suturando braços, pernas e outras partes do corpo sem lhes dirigir uma pergunta sequer que pudesse identificar suas atividades ilícitas. Nós nos limitávamos a informá-los sobre o que estávamos fazendo, a perguntar se estava doendo, e a orientar os cuidados dali para frente. Ainda hoje ecoa com clareza em minha memória a voz do preceptor nos orientando: “Aqui ninguém tem história, fazemos o que precisa ser feito.” A história, os valores pessoais e os muitos crimes carregados sob suas peles não podiam nos contaminar e impedir nosso trabalho. Deveria ser assim também com os valores homofóbicos do esposo da Dinorah?

Algumas consultas mais se passaram, até que outro comentário abominável surgiu ali, à beira da mesa. Homofobia, de novo. Dinorah se incomodou mais dessa vez, dando imediatamente um tapinha no braço dele. “Afonso, para com isso.” Tive a certeza de que eles já tinham conversado sobre o assunto e ele estava “quebrando o acordo”. Ele não se deu por vencido. Olhou para mim, buscando concordância: “Mas é verdade, não é, doutora? Essa gente é tudo assim! A senhora deve saber melhor que eu.” Dessa vez vi a oportunidade que eu precisava. Sob o olhar constrangido da Dinorah, respondi que eu não via dessa forma, que para mim as pessoas merecem respeito independentemente da sua orientação sexual, e que ele por favor não fizesse mais esse tipo de comentário, porque era injusto e cruel. Confesso que meu coração acelerou nesses minutos. Pela minha mente imaginativa, passavam cenas dele se levantando abruptamente e deixando o consultório, puxando Dinorah pelas mãos para nunca mais voltar. Ou então respondendo de forma agressiva, iniciando um embate onde ninguém jamais venceria. Mas não. O que se seguiu foi silêncio. Um silêncio desconfortável e esquisito, ele claramente desconcertado, talvez com algum nível de vergonha, ou talvez apenas com raiva por ter sido contrariado. Dinorah quebrou o constrangimento falando de uma dor que vinha sentindo no pescoço, e a consulta prosseguiu. Ela parecia mais tranquila, a tensão se dissipou em seu olhar. Ele, emudecido. Algo estremeceu entre nós.

Afonso não compareceu à consulta seguinte com Dinorah. Perguntei por ele, ela deu uma desculpa qualquer. Na consulta seguinte, ficou aguardando por ela na sala de espera. Embora Dinorah não demonstrasse qualquer sinal de desconforto com isso, eu via as ausências como um posicionamento claro de que ele não se sentia mais à vontade comigo. Na terceira ocasião em que ele não entrou no consultório, perguntei para Dinorah se ele tinha ficado chateado com a questão da homofobia. Ela abriu seu sorriso doce: “Ficou, doutora, e bem-feito para ele. Já falei mil vezes que homofobia é horrível, que ele tem que aprender a ser uma pessoa melhor quanto a isso. Foi bom a senhora falar. Uma hora ele tem que evoluir.” Foi um alívio ouví-la, mas também fiquei preocupada. Afonso é o principal cuidador dela. Se não pudermos manter uma relação amistosa, como cuidaremos dela quando for necessário? Mais uma angústia para o meu coração lidar.

Mas, sendo a vida essa aventura estranha e imprevisível, eu já deveria imaginar que o tempo se encarregaria de resolver isso. Algumas semanas depois da minha conversa com Dinorah, Afonso voltou a frequentar as consultas. Nunca mais fez comentários homofóbicos – pelo menos não na minha presença -, e não tocamos mais no assunto. Aos poucos, ele voltou a me trazer artigos de jornais e nossa relação se refez, dessa vez com o acordo subliminar de que atitudes como aquelas não seriam toleradas por ali. Limites são para isso: para que as relações sobrevivam às pessoas.

Eu sempre penso nos muitos dilemas éticos e morais que médicos enfrentam todos os dias, e o incidente com Afonso foi apenas mais um. E se a Dinorah não tivesse “dado a deixa” para que eu me posicionasse, apoiando minha reação? Será que eu conseguiria fixar limites para a minha relação com seu esposo, mantendo-a funcional? Pior: e se Dinorah o apoiasse, concordando com suas atitudes homofóbicas e praticando-as também? Eu seria capaz de cuidar dela com o mesmo carinho e zelo?

É claro, não tenho essas respostas. Só sabemos o que vivemos. Mas me conforta lembrar que, do ponto de vista ético, médicos têm o direito de se recusar a acompanhar pacientes cujos valores sejam incompatíveis com os seus – exceto, é claro, em caso de risco de vida iminente ou ausência de outro profissional capacitado para oferecer assistência. Eu mesma já encaminhei uma paciente a outro colega porque me sentia desrespeitada por ela. Não falo de valores meramente diferentes, falo de valores incompatíveis. Isso não tem nenhuma relação com a religiosidade, por exemplo, ou com o estilo de vida das pessoas. Falo de uma incompatibilidade que comprometa a relação num nível mais profundo, às vezes até subliminar, a ponto de interferir no cuidado que oferecemos. O direito de não acompanhar pacientes que nos causem um desconforto muito grande não se presta simplesmente a aliviar a rotina dos médicos, e sim (principalmente) para evitar que o cuidado (direito do paciente) seja inadequado. Somos, todos, humanos nos esforçando para fazer o melhor que podemos.

É um lugar estranho esse que nós médicos habitamos. Precisamos ser humildes e tolerantes para sermos capazes de oferecer um cuidado justo a todos os que nos procuram, ignorando seus preconceitos cruéis, seus pensamentos macabros, seus desvios de caráter, seus crimes inconfessáveis. Espera-se de nós que perdoemos deslizes, ignorâncias e até violências, porque não cabe a nós julgar os outros. Nossa função é cuidar, e isso por vezes exige atitudes tão indulgentes que nos aproximam das divindades. Mas, dividindo espaço com essa “santidade” esperada dos médicos, há nossa humanidade brutal, nossos próprios valores pessoais, e nosso papel na sociedade. Espera-se de nós que sejamos humanos de bom caráter e que defendam bons princípios, que nos posicionemos contra a injustiça e o preconceito, e que estejamos sempre em defesa de uma sociedade mais justa e tolerante. É assim que nos vemos numa corda bamba: precisamos ser divinos e humanos ao mesmo tempo. Talvez estejamos esperando demais de nós mesmos.

2 respostas a “Todas as cores do arco-íris”

  1. Belíssimo texto minha linda! Você está escrevendo divinamente! Uma lição de ética e de princípios. Parece que estou vendo seu rostinho constrangido e sua indignação diante do comentário triste e inaceitável desse senhor. Você foi perfeita! O que importa é a Dona Dinorah com seus medos, suas angustias e suas dores. Espero que ela se recupere, assim como eu me recuperei e tenha muitos anos de vida, felizes e rodeada das pessoas que lhe fazem bem. Um grande abraço minha linda e cuide-se bem. Bjooos

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  2. Preciso registrar, como ingressaste na medicina e LGBTQIA+, que isso realmente me preocupa. Nessa profissão já tão marcada por tradicionalismos, essa discussão se faz muito necessário e imprescindível, até. “Limites para que as relações sobrevivam as pessoas” foi marcante e singelo na aplicação do direito ao cuidado e ao respeito.

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sobre mim

Sou Ana Coradazzi, médica oncologista clínica e paliativista. Apaixonada desde sempre pela escrita e seu impacto na vida das pessoas, decidi transformar as inúmeras experiências valiosas com pacientes oncológicos em histórias, que divido aqui com todos vocês.

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