No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

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18 de novembro de 2019
Ana Lucia Coradazzi

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Fique em paz, querido

Eu não me lembro exatamente como eu e ele nos conhecemos, nem tampouco quem nos apresentou. Lembro que foi há muitos anos, quando eu e meu marido ainda nem éramos oficialmente casados, e minhas filhas ainda eram apenas estrelas no céu. Mas lembro que gostei dele desde sempre. Não se tratava de uma conexão do tipo “almas gêmeas” ou algo novelesco. Na verdade, não tínhamos tantas coisas assim em comum. Nossas personalidades eram diferentes, nossos talentos também, e muitas outras coisas. Mas havia algo em seu caráter, em seu humor irônico, ou talvez na sua gentileza indiscriminada, que me encantava. O fato é que nesses muitos anos de amizade foram muitas as risadas, os projetos em comum, as trocas de favores, as bobagens. Ele estava presente em momentos importantes da minha vida. Meu casamento, que ele fez questão de planejar e organizar em cada detalhe. A construção e a concepção da minha casa, que tem a essência dele até hoje. O nascimento das meninas, que ele presenciou com sua alegria genuína e generosa. Aliás, creio que generosidade era sua palavra mais definitiva. No meio dos seus defeitos, das suas fraquezas, sempre sobrava espaço para ser disponível, para oferecer seu tempo e sua atenção a alguém.

Quando ele adoeceu, com um câncer de estômago inoportuno, fui uma das primeiras a saber. Ajudei a organizar o tratamento num excelente centro oncológico, onde ele se sentia acolhido e seguro. A ideia era iniciar a quimioterapia para viabilizar a retirada cirúrgica do tumor, o que lhe permitiria uma chance de cura e de ter sua vida de volta. Fiz parte da rede de apoio que se formou em torno dele, esclarecendo dúvidas, orientando o manejo dos efeitos colaterais da quimioterapia, explicando os passos seguintes a serem percorridos. As primeiras sessões de quimioterapia pareciam estar indo bem, mas depois de algumas semanas ele começou a se sentir mais fraco. Tinha dificuldade para se alimentar, a diarreia não o abandonava, e mesmo as atividades mais simples começaram a se tornar penosas. Um dia, no meio da manhã, recebi uma mensagem dele perguntando se poderia me ligar (delicado como ele era, jamais telefonava sem se certificar de que não estaria atrapalhando). O telefonema era para me perguntar se seria possível terminar as sessões de quimioterapia em nossa cidade, pois as viagens até o serviço de referência em que ele estava sendo acompanhado estavam ficando cansativas e difíceis. Confesso que fiquei apreensiva. Não tinha certeza sobre minha capacidade de cuidar dele. Talvez tenha sido seu tom de voz, com certa angústia mal disfarçada, ou as palavras que ele escolheu para pedir esse favor. O fato é que meu coração apertado me deixou em alerta, mas não havia a menor possibilidade de não ajudá-lo no que quer que precisasse. E marcamos a consulta.

Assim que o vi, percebi que as coisas não estavam indo tão bem assim. Ele estava magro e um pouco abatido, tinha perdido parte da vivacidade que era tão característica dele. Contou sobre como estava cansado, sobre a dificuldade em se alimentar, e do quanto estava ansioso para que o tratamento acabasse logo, pois a doença estava atravancando seus projetos. Mas foi só quando ele falou sobre a mudança de planos do outro oncologista, que tinha sugerido “manter a quimioterapia mais um tempo para tentarmos evitar a cirurgia”, que compreendi o que meu peito apertado estava querendo me dizer. Não se tratava de “evitar a cirurgia”, e sim da cirurgia provavelmente não ser mais uma opção, porque a doença aparentemente tinha se espalhado para além do estômago. Conversamos por quase duas horas nesse dia, mas embora essa constatação me viesse à mente a cada cinco minutos, não tive a coragem necessária para explicar isso a ele. Me limitei a ajudá-lo com os trâmites burocráticos para dar continuidade ao tratamento, e a conversar sobre assuntos que nada tinham a ver com a doença, relembrando episódios engraçados ou pitorescos da nossa amizade, e comentando sobre como às vezes precisamos desenvolver nossa resiliência “na marra”. Ele se despediu com um grande abraço agradecido, e eu tive que lidar com meu enorme desconforto. Eu esperava mais de mim mesma. Gostaria de ter sido mais honesta, de ter aproveitado as pequenas chances durante a conversa para situá-lo dentro da sua realidade. Não deu.

Na semana seguinte ele retornou com os exames para que eu liberasse o início da quimioterapia. Estava animado porque tinha ganho dois quilos e estava se sentindo um pouco melhor. Por alguns instantes, um sopro de alívio passou por mim. Talvez eu estivesse sendo muito pessimista, ou estivesse deixando minha relação pessoal com ele atrapalhar meu julgamento. Mas o fato é que já acompanhei pacientes oncológicos em número suficiente para detectar sinais que nem mesmo sei descrever, mas que me fazem sentir sob a pele que algo está errado. Bastou levantar sua camisa para ver o acúmulo de líquido no abdome (que nós médicos chamamos de ascite), e que estava ausente quando o examinei há apenas poucos dias. Os dois quilos ganhos eram nada mais que água. O significado disso, quase que certamente, era o comprometimento do peritônio pelo câncer, ou seja, a doença parecia realmente ter avançado. Respirei fundo e decidi que desta vez eu não poderia fugir da raia. Mostrei os sinais do líquido se acumulando pelo abdome, fazendo um som característico quando o percutimos com nossos dedos, e mostrei o tremor na lateral da barriga ao dar um peteleco do outro lado, denunciando a presença da água que não deveria estar ali. Ele entendeu. Baixou os olhos (tenho certeza de que para me poupar do seu sofrimento, ele era exatamente assim) e combinamos de concluir o ciclo de quimioterapia já programado para logo em seguida fazer mais uma avaliação com tomografias.

A reavaliação nunca chegou a acontecer. Alguns dias após a quimioterapia, ele veio me ver ainda mais fraco e debilitado. Pela primeira vez, teve dificuldades para se levantar sozinho na sala de espera. Muito pálido, febril, o pulso acelerado, sentindo falta de ar a pequenos esforços, e o abdome ainda mais distendido. Não precisei de mais do que cinco minutos para indicar que ficasse internado. Meu coração, de novo, do tamanho de uma ervilha. Os dias de internação foram difíceis para todos. Logo no dia seguinte decidimos levá-lo para a UTI, onde poderia ser monitorizado de forma mais adequada. Mas um distúrbio em sua coagulação não permitia que o tumor no estômago parasse de sangrar, e não conseguíamos reverter o quadro. Logo ficou claro para nós que ele não sairia mais de lá. Conseguimos um quarto isolado dentro da UTI, onde ele podia ficar mais confortável. A equipe toda, encantada com sua generosidade e delicadeza, não media esforços para aliviar cada desconforto. Mesmo nos piores dias, quando era nítida sua frustração com tudo aquilo, ele agradecia. Agradecia por um livro, por uma massagem nos pés inchados, por uma conversa mais prolongada, por um sorriso inesperado. Agradecia quando podia chupar algumas fatias de melão caipira, dizendo que era um jantar dos deuses. Agradecia por estar sendo cuidado de um jeito como nunca imaginou que merecia. Pois é. Foi exatamente o que ele me disse numa de nossas longas conversas, ali no leito da UTI. Ele me contou, maravilhado, sobre a atenção que vinha recebendo de tanta gente. Contou sobre a mobilização que tinha sido feita na cidade para doações de sangue em seu nome, e o quanto isso o deixou emocionado. Quando eu respondi que não estava nem um pouco surpresa, porque ele era muito querido, ele sorriu, pensativo: ” Pois é… por que será que eu nunca aceitei o fato que as pessoas gostam mesmo de mim?” Essa foi a primeira ocasião em que ele me fez chorar, com as mãos entrelaçadas nas dele, sem saber o que dizer.

Alguns dias depois, com sua piora ainda mais evidente, ele parecia decidido a resolver questões pendentes. Conversou sobre assuntos práticos com a irmã, teve conversas significativas com pessoas queridas, leu textos importantes para ele. Quando perguntei como estava sendo tudo aquilo, a resposta veio pronta: “Sabe, Ana, eu não tenho medo de morrer. Isso não me angustia. O que me angustia são as questões da vida que demorei tanto para perceber. Fico pensando nas bobagens que fiz e não consertei, nas oportunidades que perdi por pura teimosia, nessas coisas que não dá mais pra consertar. Mas acho que, no geral, sou uma pessoa bacana, né?” Dessa vez, ele me fez chorar de encantamento. Era incrível vê-lo repassando sua vida a limpo e chegar a um saldo positivo sobre a própria existência. Pensei no quanto essa é a meta que todos deveríamos ter: não de sermos perfeitos, e sim de termos um saldo positivo no final. Respondi: “Você é bem mais que um cara bacana. Você é O cara.” Ele riu. Estava feliz.

Infelizmente, todas as existências, boas ou ruins, sofridas ou alegres, com saldo positivo ou negativo, chegam ao fim. Com ele não foi diferente. Depois de um dia relativamente tranquilo, ele começou a piorar rapidamente, com falta de ar até mesmo para falar, e começando a ficar um pouco confuso. Sabíamos que estava chegando a hora da partida. Quando cheguei para vê-lo à noite, a equipe toda da UTI estava reunida conversando sobre ele. Médicos e enfermeiros estavam consternados com a despedida iminente de uma pessoa tão especial. Revisamos o caso dele e as condutas que estavam sendo tomadas. Não havia mais nenhuma medida possível para aliviar seu desconforto. Respirei fundo, pedi proteção lá de cima e fui falar com ele. Foram poucas as palavras. Mais ou menos essas:

– Olá, querido… as coisas não estão muito bem, né?

– Então… não estão, meu bem… como vamos resolver isso?

Respirei fundo, nos permiti alguns segundos de silêncio e respondi, já com lágrimas nos olhos:

– Acho que não vamos resolver, querido. Acho que está chegando a hora de você descansar.

Ele olhou para o outro lado. Respirava com dificuldade. Ficamos em silêncio um tempo, eu observando sua magreza, o abdome inchado, os braços cobertos de hematomas. Há muito ele tinha deixado de ser a criatura alegre e cheia de vivacidade que eu conheci. Apertei suas mãos, e ele olhou para mim, a voz doce e serena:

– Está tudo bem, meu bem. Vai descansar você também. Muito obrigado por tudo.

Dei um beijo em sua testa e saí, chorando até onde podia. Avisei sua irmã e ela prontamente foi vê-lo. Conversaram por um bom tempo. Pouco mais de uma hora após a partida dela, ele chamou o médico. O sofrimento tinha se intensificado, e ele foi então sedado para que pudesse ter conforto em seus últimos momentos. Partiu pouco tempo depois, levando com ele uma generosidade que dificilmente encontrarei de novo em alguém, e deixando uma saudade que não cabe dentro de nós.

Fique em paz, querido. Você fez bonito por aqui.

“O que cada pessoa leva dentro? Sonhos que podem parecer bobagem para os outros, mas que são sagrados para ela. Traumas que ainda não foram superados e que doem a cada vez que são lembrados. Vergonhas inconfessas. Feridas que custaram a cicatrizar e que basta um cutucãozinho para reabrirem. Desejos que não merecem ser ridicularizados. Necessidade de ser amado e aceito. Uma parte da infância que nunca se perdeu.”

(Martha Medeiros, em Simples Assim)

1 de novembro de 2019

10 de outubro de 2019
Ana Lucia Coradazzi

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A Torcida de Branco

Hoje foi uma daquelas manhãs cheias de delicadezas, permeadas dos mistérios envolvendo as relações entre os médicos e seus pacientes… Dona Filomena*, aos 62 anos, veio me ver depois de um período turbulento da sua vida, que envolveu o diagnóstico de câncer de intestino, uma cirurgia de emergência, resultados de exames que não batiam uns com os outros, novos exames para confirmar os primeiros, várias consultas com diversos médicos diferentes. Quando a conheci, há cerca de 5 meses, ela estava no meio do caos. Precisamos de algumas semanas até conseguirmos organizar tudo e definir nossas estratégias, que acabaram se resumindo ao seu acompanhamento a cada três meses com tomografias e exames de sangue. Esse era seu primeiro retorno após termos “colocado ordem na casa”. Dona Filomena veio esfuziante. Maquiada, com um sorriso de orelha a orelha, acompanhada de uma amiga querida e cheia de planos para o futuro. Entre uma risada e outra, ela me falou da aposentadoria que está prestes a acontecer e que vai permitir que ela faça várias coisas que gostaria. Contou dos cursos de terceira idade que tinha começado a frequentar, e do quanto estava se sentindo motivada com os novos rumos que sua vida vinha tomando. Contou como tinha conhecido uma senhora na internet e engatado um namoro que a estava deixando muito feliz, e falou animadamente sobre os planos delas de passarem o próximo Reveillon juntas, e sobre a viagem já programada para o ano que vem. Eu olhava para ela e sentia meu coração leve, invadido por uma alegria tão grande que só poderia ser chamada de “torcida”. Isso mesmo, torcida. Aquele sentimento de estar genuinamente feliz pelas conquistas do outro, aquela sensação de ter contribuído para que o outro chegasse lá. O mérito era todo dela, mas a alegria do momento era compartilhada.

Lembrei do depoimento de uma médica de família que li em algum lugar um tempo atrás. Ela falava sobre como era gratificante assistir a trajetória dos pacientes se recuperando, mudando suas vidas, tomando as rédeas de seu destino. Ela dizia, em seu texto, que era o tipo de médica que vibrava quando o paciente ex-presidiário com hipertensão arterial conseguia um emprego, a dona-de-casa com diabetes descompensado passava a frequentar a academia de ginástica, ou a mãe solteira com transtorno de ansiedade conseguia concluir a faculdade. E falava do quanto esse sentimento transformava sua própria vida em algo mais valioso e significativo. Eu me identifiquei imediatamente com as palavras dela. Faço parte da torcida de branco, e provavelmente ficaria sentada logo nas primeiras fileiras da arquibancada.

É claro que alguém poderia concluir que é muito fácil se sentir feliz pelos outros quando tudo dá certo, que a torcida é quase que obrigatória quando a cura ou os desfechos favoráveis estão no caminho dos pacientes. Posso até ouvir, na minha cabeça, esse mesmo alguém murmurando, com certa amargura nas palavras: “Queria ver a ‘torcida’ ser a mesma se a paciente estivesse morrendo”. Pois é… não é fácil mesmo se manter fiel ao time quando o placar está desfavorável. Não é à toa que nós, médicos, muitas vezes não conseguimos lidar com essa situação. Às vezes simplesmente fugimos, evitamos passar visita naquele quarto, achamos desculpas para encurtar as conversas, mudamos de assunto, deixamos a arquibancada vazia. Outras vezes, nos deixamos iludir, negando uma realidade que não poderá ser mudada. Torcer por que?

Mas quando olhamos com atenção, quando deixamos a delicadeza tomar conta dos nossos olhos, passamos a enxergar os motivos. Vemos a dor insuportável de um paciente sendo aliviada, e torcemos para que ele se mantenha confortável pelo maior tempo possível (de preferência para sempre). Vemos a mãe conseguindo comparecer ao casamento da filha, de lencinho na cabeça e cadeira de rodas, e torcemos para que aquele momento torne suas vidas mais significativas. Assistimos ao senhor magricela conseguindo comer um prato inteiro de sopa rala e sorrindo de satisfação, e torcemos para que ele possa saborear pelo menos mais alguns pratos daquele antes de terminar seus dias. Torcemos por muitas coisas, grandes e pequenas, quase sempre envolvendo a melhora da vida dos nossos pacientes, mesmo que mínima. Mas, às vezes, não temos como fazer nem mesmo isso por eles. Sentimos nossa impotência diante de uma doença irreversível para a qual não temos mais tratamentos eficazes, e percebemos a vida dessas pessoas escorrendo pelos nossos dedos. Presenciamos seu sofrimento e sua angústia, seus olhos sem a luminosidade de antes, sua voz que não consegue nos chamar. É aí, nesses momentos, que torcemos em silêncio para que a vida simplesmente termine em paz.  E essa é nossa torcida mais profunda e reverente. É justamente quando o time está perdendo que a torcida faz a maior diferença.

*nome fictício para preservar a privacidade da paciente