No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

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3 de outubro de 2021
Ana Lucia Coradazzi

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E que os anjos digam amém

Uma bênção logo na primeira consulta. E em todas as consultas que se seguiram depois. Era assim que nossas conversas terminavam: as mãos dele sobre minha cabeça, ele de olhos fechados por alguns segundos, murmurando as palavras abençoadas que trariam coisas boas para minha vida. Eu, com as mãos cruzadas na frente do corpo, fechava os olhos e sorria, esperando que ele terminasse. Ele então devolvia o sorriso e saía, seguido da esposa, que pegava minhas mãos e, quase sempre emocionada, se despedia também. Esse era nosso ritual durante os meses em que cuidei do S. Mariano. Foram meses difíceis do ponto de vista oncológico, com muitos desafios relacionados ao tratamento e os efeitos colaterais atrelados a ele. Mas, se as demandas técnicas eram muitas, eu não podia dizer o mesmo das demandas emocionais. S. Mariano e D. Cilene traziam uma paz dentro de si que, para mim, era um sopro de alívio no meio de tantas consultas complicadas. As mãos dele sobre a minha cabeça eram apenas o presságio de uma bênção ainda maior: a de tê-los comigo durante parte da minha vida.

S. Mariano já tinha 80 anos quando recebeu o diagnóstico de câncer no reto, já com metástases no fígado. Era um idoso saudável até então, ativo, animado, independente. Embora soubéssemos que a doença seria um grande desafio, ele não titubeou por um momento sequer. Ia para a quimioterapia como quem vai a uma reunião com amigos. Fez amizade com as enfermeiras, com os radioterapeutas, com as recepcionistas. Tinha essa maravilhosa mania de deixar um rastro de alegria por onde passava. Não, isso não é um exagero: alegria devia ser seu primeiro nome. Mesmo quando não tínhamos boas notícias, S. Mariano sorria, e então dizia algo como: “Doutora, se Deus quer que meu caminho seja esse, que eu possa caminhar feliz por entre as pedras.” E foram muitas pedras. Tivemos que lidar com alguns efeitos adversos bem chatos da quimioterapia, como a diarreia, a fraqueza e a falta de apetite. A cirurgia também não foi fácil, com uma infecção no pós-operatório e a dificuldade de cicatrização. Mas quando eu perguntava se ele achava que estava valendo a pena, a resposta era imediata: “Lógico que está!” (e sim, a resposta era seguida de uma bênção ainda mais fervorosa sobre mim).

Depois de um ano de tantas pedras sendo retiradas do caminho, a doença resolveu assumir o controle. As lesões do fígado aumentaram rapidamente, o abdome começou a se mostrar inchado, e logo entendemos que o tempo estava ficando escasso. Ele começou a ficar mais fraco, o andar mais inseguro e, apesar do sorriso que não lhe abandonava o rosto, eu podia sentir que sua energia estava indo embora. Eu olhava para ele e meu coração se entristecia. Não que ele estivesse em sofrimento ou desespero, porque essas coisas não chegaram a fazer parte da vida dele, nem mesmo no final. Me entristecia a ideia de não tê-lo mais abençoando meus dias com suas palavras, seu olhar e suas mãos carinhosas. Eu queria que ele ficasse, mas precisava deixá-lo partir quando fosse a hora. Era o meu coração brigando consigo mesmo. Algumas vezes eu ficava imaginando como seria difícil esse momento. Muitas vezes ele tinha me dito que não estava no mundo para ser um fardo para os outros, que estava aqui para ser luz. Agora eu ficava pensando em como seria quando o câncer o subjugasse, tornando-o tão fraco que ele não poderia tomar conta de si mesmo sozinho. Ou quando o intestino ficasse obstruído a ponto de precisarmos interná-lo e discutir a necessidade de sonda e outras pequenas torturas que às vezes precisamos impor aos nossos pacientes, em nome de aliviar um sofrimento ainda maior causado pela doença. Pensava em como seria vê-lo internado em seus últimos dias, talvez confuso, talvez com indicação de ser sedado, sendo o “fardo” que ele não desejava ser. Secretamente, enquanto eu recebia uma de suas últimas bênçãos, pedi que a bênção voltasse para ele. E assim foi.

Dois dias antes de sua partida, numa sexta-feira à noite, recebi uma mensagem da nora, explicando que estava preocupada porque o abdome estava mais inchado e ele parecia muito fraco. Ela me mandou a foto, e era fácil perceber o líquido se acumulando por toda a barriga. Mas na mesma foto eu podia ver o rosto dele, abatido mas tranquilo. Orientei as medicações e, como ele mesmo pediu, combinamos que eu iria vê-lo no consultório na segunda. Não deu. No domingo, depois de uma tarde tranquila, registrada num video em que ele dá risada de um amigo que lhe aperta os peitos como uma buzina, S. Mariano subitamente piorou e foi levado às pressas ao Pronto-Socorro, falecendo pouco tempo depois. Nada de internações prolongadas, sondas, dependência, agonia. A última frase dele, para a nora, foi “Não se preocupe, Pretinha, eu não estou sentindo nenhuma dor.” Ele foi embora assim, como se os anjos tivessem vindo em missão especial para buscá-lo.

Hoje, pouco mais de um mês da despedida dele, eu me pego procurando seu nome na agenda de pacientes do dia, como eu fazia enquanto ele estava entre nós. Vê-lo na agenda me enchia de alegria. Significava que meu dia não seria tão difícil assim ou, se fosse, ficaria tudo bem. A serenidade dele e a generosidade traduzida pela sua fé tinham um poder maior sobre mim do que ele poderia imaginar (e do que eu mesma poderia). Ele buscava minha ajuda, mas quem recebia auxílio era eu. Hoje ele não está mais aqui, mas está. Por duas vezes, depois de consultas particularmente difíceis, pude sentir suas mãos sobre mim. Numa delas, quase pude ouví-lo sussurrando: “Deus abençoe seu trabalho, menina.” Chorei ao contar isso para minha secretária, que me confessou tê-lo por perto também, até hoje: ela, como eu, recebia bênçãos e sorrisos sem moderação. S. Mariano tinha toda razão. Ele veio para ser luz, e luz a gente leva para onde quer que haja escuridão. Esteja em paz, querido. Que os anjos digam amém.

9 de setembro de 2021
Ana Lucia Coradazzi

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De Mãos Dadas

Depois de 4 anos de trabalho dedicado, reflexões compartilhadas, leituras valiosas e muitas conversas com pacientes oncológicos e seus familiares, ficou pronto o livro De Mãos Dadas – o olhar da slow medicine para os pacientes oncológicos. Esse é um livro especial por muitos motivos. Ele foi concebido para ajudar as pessoas (pacientes, familiares e profissionais de saúde que atual junto à oncologia) a enxergar a vivência do diagnóstico de câncer por uma perspectiva mais sensata, mais respeitosa, mais compassiva e mais justa. Esse olhar, baseado nos princípios essenciais da Slow Medicine, traduz a Oncologia Sem Pressa.

Não se trata de uma revolução no tratamento, ou uma nova especialidade médica, ou algo “psicodélico”. De Mãos Dadas apenas nos lembra de como a medicina (em especial a oncologia) nunca deveria ter deixado de ser: centrada nas necessidades e valores do paciente, e não direcionada apenas à doença.

O livro descreve, em oito “Estações”, as vivências que pacientes, familiares e profissionais da saúde costumam experimentar, principalmente quando estamos falando do câncer em suas fases mais avançadas. É um livro duro, na medida em que não se furta a falar sobre os tabus que costumam permear nossas vidas (e embaçar nossa visão em relação à doença). Mas, ao mesmo tempo, mostra um caminho mais amoroso e sereno para que possamos (todos) lidar com a doença de um jeito menos traumático e mais compatível com o que é sagrado em nossas vidas.

De Mãos Dadas também é especial porque conta histórias reais de pacientes que passaram pela minha vida, ilustrando com suas histórias essas vivências tão desafiadoras. Ouvi-los traz um aprendizado que não tem preço: eles falam da vida apesar da doença.

Por fim, é um livro (muito) especial porque representa o primeiro livro sobre Slow Medicine originalmente publicado em Língua Portuguesa, e o primeiro no mundo a falar sobre Oncologia Sem Pressa. Não, não é pouca coisa, mas é só o começo.


O lançamento oficial será realizado em 16/09/2021, às 20 h, pelo canal do YouTube da Ophicina de Cuidados Paliativos (clique aqui).

O livro já está à venda pelo site da Ophicina (clique aqui se quiser comprar já), e os livros comprados pelo site deles até o dia do lançamento serão entregues autografados (😊).

8 de julho de 2021
Ana Lucia Coradazzi

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Sobre as perdas de cada dia

Karina chegou pela primeira vez ao consultório acompanhada do marido, Cláudio, e dos seus inseparáveis sapatos de salto alto. Perto dos 50 anos, ela tinha no olhar o brilho das garotas de 20 e a serenidade das mulheres de 60. Veio para conversarmos sobre o câncer da mama, mas a conversa foi muito além. Falamos dos filhos (as minhas e os dela), da campanha de vacinação contra a covid-19, de vinhos, da praia. Gostei dela desde os primeiros minutos, e conforme a conhecia melhor meu carinho por ela só aumentava. Karina era tranquila e determinada ao mesmo tempo. Não gostava de rodeios, não gostava de meias palavras. Cláudio, sempre com ela, era mais cerimonioso e cheio de dedos. Escolhia as palavras com cuidado e frequentemente se mantinha em silêncio. Era assim que eles pareciam funcionar: ela assertiva e resiliente, ele emocional e cauteloso.

O tratamento foi iniciado, e com ele vieram as perdas. Os cabelos, longos e bem cuidados, deram lugar a um couro cabeludo lisinho. Os cílios caíram. Ela perdeu peso. Sentia-se cansada e sem apetite. Abandonou os saltos altos (“Pelo menos por enquanto”) e a maquiagem impecável, adotando só um protetor solar e máscara para os cílios. Mas Karina continuava tranquila. A cada perda, ela via um ganho. Comprou um lenço para cada dia da semana, para variar o visual. Usava óculos escuros, que a deixavam com ares de atriz de cinema. As sapatilhas confortáveis logo ganharam seu apreço, e os quilos a menos eram considerados mais que bem vindos por ela. Até que foi Cláudio que saiu da sua vida.

Quando ela me contou do divórcio, a separação já tinha acontecido há mais de um mês. Com a voz serena e do seu jeito assertivo de sempre, Karina me contou da noite em que, após o jantar, ele se sentou ao lado dela e disse que para ele o fardo era pesado demais. Contou como ele se mostrou constrangido ao assumir que não suportava vê-la daquele jeito, e que não podia imaginar como seria quando a cirurgia da mama fosse feita. Cláudio chorou e pediu perdão a ela, disse que era um covarde mesmo, e que ela não merecia um covarde ao seu lado. Disse que há semanas vinha se torturando com a imagem da futura cirurgia, que passava um longo tempo na internet pesquisando sobre isso, e que cada vez mais se sentia aterrorizado. Karina ouviu tudo em silêncio. A uma certa altura da conversa, se levantou e pegou um copo de água para ele. Depois de um silêncio que lhe pareceu durar horas, perguntou o que ele pretendia fazer, e o ouviu descrever seus planos de se mudar para a casa de um amigo provisoriamente, e conversar com o advogado deles sobre os trâmites legais do divórcio. Mais um silêncio, e só uma lágrima escorreu dos olhos dela. Era isso. Fim.

Eu ouvia Karina falar com meu coração aos pulos. Uma mistura de tristeza, revolta, compaixão, e sabe-se lá mais que sentimento invadiu a minha alma. Se Cláudio estivesse na sala de espera, acho que eu teria ido até ele para deixar claro o tamanho da sua falta de caráter. Mas algo no olhar dela me fez interromper o turbilhão de emoções. Um olhar tranquilo, cheio de paz, até feliz. Perguntei como ela estava se sentindo.

– Livre, doutora. Não nasci para ser fonte de sofrimento para ninguém. Eu sou alegria, sou coragem, sou gratidão, sou cheia de planos. Não tem espaço para lamentos na minha vida.

Eu olhava para ela e sentia essa alegria, essa coragem, essa gratidão que vinham nas suas palavras. Perguntei se não tinha sentido mágoa ou dor em nenhum momento. Doeu. Uma dor aguda e rápida, como arrancar um esparadrapo, e que às vezes ainda voltava. Já mágoa, essa não. A mágoa, disse ela, só aparece quando a gente permite. Simples assim. Karina disse que entendia a vida como uma sucessão de ciclos. Um ciclo precisa se encerrar para que outro se inicie. O corpo é assim, a vida é assim, e os nossos relacionamentos também.

Antes de ir embora, me sorriu com toda a sua alma. Não tinha sinais de mágoa por ali. Na verdade, acho até que vi alívio, talvez compaixão pelo (agora ex) marido e pelas inúmeras pessoas que se perdem pela vida, incapazes de enxergar beleza quando a beleza está oculta. Por aqueles de nós que insistem em reformar o que não precisa de reforma, porque já está perfeito do jeito que está. Por aqueles que se deixam encantar pela perfeição, sem se dar conta de que o encanto está na ausência dela. O sorriso dela era por todos nós, quando permitimos que o mundo seja do jeito que é, e não do jeito que o vemos.

13 de abril de 2021
Ana Lucia Coradazzi

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Eu vejo com meus olhinhos…

“Eu vejo com meus olhinhos… um objeto verde!” Assim começava uma das brincadeiras que mais divertiam a Lorena, minha filha caçula, até muito pouco tempo atrás. Primeiro, vinha a cara de sapeca. Depois, os olhinhos revirando em todas as direções, buscando um objeto que fosse difícil de ser “adivinhado”. E então vinha a frase: “Eu vejo com meus olhinhos…”, e eu tinha que encontrar, dentro do meu campo de visão, qual era o tal objeto que os olhinhos dela tinham escolhido. Ela gargalhava ao me ver, perplexa, tentando adivinhar qual era o objeto verde, ou pontudo, ou fofinho, ou melequento, que aqueles belos olhinhos tinham captado. Às vezes, ficávamos muito tempo perdidas na brincadeira, e a parte mais gostosa era simplesmente olhar para ela e imaginar o que se passava ali dentro.

Foi disso que me lembrei quando vi Dona Alzira ali, sentada à minha frente no consultório, a máscara encobrindo quase todo o rosto, mas deixando de fora os dois pequenos olhinhos pretos, que corriam de lá pra cá, daqui pra lá. Com seus mais de oitenta anos, tinha a altura da Lorena. Era pequena e magrinha como ela também. Pouco mais de um mês antes, Dona Alzira tinha acordado sem conseguir falar. Tentou chamar a filha, não conseguiu. Tentou sair da cama sozinha e caiu, ruidosamente, no tapete. Só então percebeu que não estava conseguindo mover todo o lado direito do seu corpo. A filha veio correndo e, imaginando que fosse um derrame, chamou o SAMU. Algumas horas depois, o médico veio para lhes dar a notícia de que ela estava com um nódulo no cérebro, que provavelmente era uma metástase de algum tumor. Dois dias depois, Dona Alzira foi operada para a retirada do tal nódulo, confirmando o diagnóstico do médico. Ela tinha um câncer no pulmão, até então sem nenhum sintoma, que tinha resolvido se espalhar pelo seu corpo e se instalar na porção anterior do cérebro dela, causando um tremendo estrago. E foi assim que ela tinha vindo parar ali, à minha frente, no consultório.

Mesmo com a retirada do nódulo, Dona Alzira não estava muito melhor. Movimentava muito pouco o braço e a perna direitos, e embora estivesse lúcida e compreendesse o que eu dizia, ela não conseguia se expressar – o que chamamos, tecnicamente, de afasia de expressão. Ela apontava objetos com a mão esquerda, emitia alguns sons e até palavras inteiras, mas que não correspondiam ao que ela gostaria realmente de dizer. Na maior parte do tempo, era a filha que traduzia, do jeito que dava, as respostas às minhas perguntas. E foram muitas perguntas. Como foi a cirurgia? Como ela estava se sentindo agora? Ela tem algum outro problema de saúde? toma alguma medicação? Qual? Ela fuma? Fumava antes? Onde vocês moram? Como ela era antes disso tudo acontecer? Quem mais ajuda nos cuidados do dia-a-dia? Conforme eu ia conhecendo a história dela, mais eu me perdia nos seus olhinhos pretos. A filha respondia às perguntas, mas eu procurava neles as respostas. Dona Alzira olhava para mim, para a filha, para a porta, para a enfermeira, para o teto. Prestava atenção nas palavras da filha e, se a resposta lhe parecia incorreta, mudava rapidamente a direção do olhar, tentando mostrar que o caminho era outro. Foi assim quando perguntei se ela tinha dor de cabeça e a filha disse que não: Dona Alzira arregalou os olhos e olhou insistentemente para mim: “Tenho sim, tenho dor de cabeça”, os olhinhos diziam. Também foi assim quando perguntei se tomava mais alguma medicação além das já relatadas: olhinhos revirando para a bolsa e para a filha: “Sim, tem o remédio da artrose!”. Pergunta após pergunta, resposta após resposta, fomos as três nos entendendo. No final da consulta, já não estava tão difícil para mim entender o que os olhinhos de Dona Alzira me diziam.

Quando a filha saiu para conversar com a assistente social e fiquei algum tempo a sós com ela, nós permanecemos em silêncio. Eu olhava para ela e entendia que estava sorrindo. Ficava imaginando tudo o que aqueles olhinhos já tinham visto na vida, e o quanto vinham se espantando com o mundo confuso e diferente que Dona Alzira vinha frequentando nas últimas semanas. Imaginei a dificuldade de ter sido levada às pressas ao hospital, sem conseguir dizer o que estava sentindo, dependendo completamente de pessoas estranhas e que falavam termos técnicos e difíceis de entender. Pensei no tamanho da fragilidade de ser submetida a uma cirurgia no cérebro sem conseguir expressar o que achava sobre tudo aquilo, sem direito a um palpite ou uma pergunta. Aqueles olhinhos devem ter se assustado um bocado… e ainda assim estavam ali, sorrindo por trás da máscara, mostrando que estavam, finalmente, tranquilos. Naqueles poucos minutos sozinhas, quem viu (muito) com os olhinhos fui eu.