No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

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13 de abril de 2021
Ana Lucia Coradazzi

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Eu vejo com meus olhinhos…

“Eu vejo com meus olhinhos… um objeto verde!” Assim começava uma das brincadeiras que mais divertiam a Lorena, minha filha caçula, até muito pouco tempo atrás. Primeiro, vinha a cara de sapeca. Depois, os olhinhos revirando em todas as direções, buscando um objeto que fosse difícil de ser “adivinhado”. E então vinha a frase: “Eu vejo com meus olhinhos…”, e eu tinha que encontrar, dentro do meu campo de visão, qual era o tal objeto que os olhinhos dela tinham escolhido. Ela gargalhava ao me ver, perplexa, tentando adivinhar qual era o objeto verde, ou pontudo, ou fofinho, ou melequento, que aqueles belos olhinhos tinham captado. Às vezes, ficávamos muito tempo perdidas na brincadeira, e a parte mais gostosa era simplesmente olhar para ela e imaginar o que se passava ali dentro.

Foi disso que me lembrei quando vi Dona Alzira ali, sentada à minha frente no consultório, a máscara encobrindo quase todo o rosto, mas deixando de fora os dois pequenos olhinhos pretos, que corriam de lá pra cá, daqui pra lá. Com seus mais de oitenta anos, tinha a altura da Lorena. Era pequena e magrinha como ela também. Pouco mais de um mês antes, Dona Alzira tinha acordado sem conseguir falar. Tentou chamar a filha, não conseguiu. Tentou sair da cama sozinha e caiu, ruidosamente, no tapete. Só então percebeu que não estava conseguindo mover todo o lado direito do seu corpo. A filha veio correndo e, imaginando que fosse um derrame, chamou o SAMU. Algumas horas depois, o médico veio para lhes dar a notícia de que ela estava com um nódulo no cérebro, que provavelmente era uma metástase de algum tumor. Dois dias depois, Dona Alzira foi operada para a retirada do tal nódulo, confirmando o diagnóstico do médico. Ela tinha um câncer no pulmão, até então sem nenhum sintoma, que tinha resolvido se espalhar pelo seu corpo e se instalar na porção anterior do cérebro dela, causando um tremendo estrago. E foi assim que ela tinha vindo parar ali, à minha frente, no consultório.

Mesmo com a retirada do nódulo, Dona Alzira não estava muito melhor. Movimentava muito pouco o braço e a perna direitos, e embora estivesse lúcida e compreendesse o que eu dizia, ela não conseguia se expressar – o que chamamos, tecnicamente, de afasia de expressão. Ela apontava objetos com a mão esquerda, emitia alguns sons e até palavras inteiras, mas que não correspondiam ao que ela gostaria realmente de dizer. Na maior parte do tempo, era a filha que traduzia, do jeito que dava, as respostas às minhas perguntas. E foram muitas perguntas. Como foi a cirurgia? Como ela estava se sentindo agora? Ela tem algum outro problema de saúde? toma alguma medicação? Qual? Ela fuma? Fumava antes? Onde vocês moram? Como ela era antes disso tudo acontecer? Quem mais ajuda nos cuidados do dia-a-dia? Conforme eu ia conhecendo a história dela, mais eu me perdia nos seus olhinhos pretos. A filha respondia às perguntas, mas eu procurava neles as respostas. Dona Alzira olhava para mim, para a filha, para a porta, para a enfermeira, para o teto. Prestava atenção nas palavras da filha e, se a resposta lhe parecia incorreta, mudava rapidamente a direção do olhar, tentando mostrar que o caminho era outro. Foi assim quando perguntei se ela tinha dor de cabeça e a filha disse que não: Dona Alzira arregalou os olhos e olhou insistentemente para mim: “Tenho sim, tenho dor de cabeça”, os olhinhos diziam. Também foi assim quando perguntei se tomava mais alguma medicação além das já relatadas: olhinhos revirando para a bolsa e para a filha: “Sim, tem o remédio da artrose!”. Pergunta após pergunta, resposta após resposta, fomos as três nos entendendo. No final da consulta, já não estava tão difícil para mim entender o que os olhinhos de Dona Alzira me diziam.

Quando a filha saiu para conversar com a assistente social e fiquei algum tempo a sós com ela, nós permanecemos em silêncio. Eu olhava para ela e entendia que estava sorrindo. Ficava imaginando tudo o que aqueles olhinhos já tinham visto na vida, e o quanto vinham se espantando com o mundo confuso e diferente que Dona Alzira vinha frequentando nas últimas semanas. Imaginei a dificuldade de ter sido levada às pressas ao hospital, sem conseguir dizer o que estava sentindo, dependendo completamente de pessoas estranhas e que falavam termos técnicos e difíceis de entender. Pensei no tamanho da fragilidade de ser submetida a uma cirurgia no cérebro sem conseguir expressar o que achava sobre tudo aquilo, sem direito a um palpite ou uma pergunta. Aqueles olhinhos devem ter se assustado um bocado… e ainda assim estavam ali, sorrindo por trás da máscara, mostrando que estavam, finalmente, tranquilos. Naqueles poucos minutos sozinhas, quem viu (muito) com os olhinhos fui eu.

17 de fevereiro de 2021
Ana Lucia Coradazzi

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O Sopro

Quando começamos a visita pela manhã, eu e a médica residente, estávamos esperando um dia parecido com os de sempre: algumas conversas difíceis, alguns pacientes melhorando e recebendo alta, outros sem perspectiva de ir para casa tão cedo. Ela me falou sobre a Ivone*, a paciente que tínhamos acabado de assumir, uma senhora perto dos seus 50 anos, já com um diagnóstico prévio de carcinoma do colo uterino, com alguns tratamentos oncológicos já realizados, e que estava hospitalizada há semanas por complicações clínicas infecciosas. Segundo a história, as coisas não vinham nada bem para a Ivone. Ela tinha ficado um bom tempo na UTI com um quadro infeccioso grave, no qual usou antibióticos e muitas outras medicações. Tinha desenvolvido um quadro cutâneo assustador, provavelmente em decorrência desses antibióticos, e seu corpo vinha definhando aos poucos a cada dia de internação. Precisava de uma sonda para se alimentar e estava com uma traqueostomia na parte anterior do pescoço, da qual uma secreção espessa e abundante não parava de sair. Vinha tendo diarreia há dias (decorrente de outra infecção). Ao contar a história, a residente parecia angustiada e comovida. Enquanto nós duas caminhávamos pelo corredor até a enfermaria, buscávamos, em nossos cérebros, algum conhecimento que pudesse ajudá-la.

Tínhamos um outro paciente para ver naquela mesma ala, um senhor com quem teríamos que ter uma conversa muito delicada sobre a função dos seus rins, que piorava vertiginosamente. Decidimos vê-lo primeiro, imaginando que o caso da Ivone nos exigiria mais tempo. Levamos cerca de meia hora com o outro paciente, e então nos preparamos para ela. Já era o final da manhã, aquele horário em que todos os pacientes acabaram de ser banhados, e o cheiro de sabonete se espalha pela enfermaria. Ivone estava sozinha, na única cama do quarto. Entramos em silêncio. Ela estava com os olhos semicerrados, e parecia não perceber nossa presença. Ficamos algum tempo aos pés da cama, observando a respiração fraca, quase imperceptível. A pele era só um resquício do que um dia deveria ter sido. Manchas e descamações se espalhavam por todo o seu corpo. Em alguns pontos do lençol, podíamos perceber os ângulos do seu corpo emagrecido, os ossos despontando aqui e ali. Mesmo com a limpeza recém-terminada pela enfermagem, a tal secreção pela traqueostomia já sujava todo o lençol. Os lábios dela estavam entreabertos, pálidos. Olhei para a residente, e ela me devolveu o olhar: “Ela está partindo”. Cheguei perto, chamei seu nome algumas vezes, mas não houve qualquer resposta. Foi nesse momento que a vimos, serenamente, dar seu último suspiro. Ivone tinha falecido. Ficamos as duas algum tempo ao lado dela, entre surpresas e comovidas. Coloquei as mãos sobre ela, a testa fria, os olhos sem vida. Sem pensar muito, fiz uma prece em silêncio. Eu não sabia quem ela era, do que gostava, o que esperava da vida, ou mesmo se acreditava em preces. Mas não há pessoa no mundo que não mereça algumas palavras de paz no momento de sua partida, e uma prece era a forma mais familiar que eu tinha para isso.

Depois de avisarmos a enfermeira para que os procedimentos de rotina fossem iniciados, conversamos um pouco sobre o momento único que tínhamos acabado de presenciar. Médicos raramente estão junto de seus pacientes em seus últimos suspiros. Estamos com eles por longos períodos antes disso, e voltamos a vê-los pouco depois de sua morte, chamados por alguém da equipe, para constatá-la. Mas aqueles segundos sagrados, aquele momento exato em que a pessoa se despede desse mundo, não fazem parte da nossa rotina. Nós duas ficamos impactadas, nós duas nos vimos imersas em sentimentos surpreendentes e incompreensíveis. Falamos sobre aquela estranha sensação de paz que nos invadiu após a partida de Ivone. Sobre a percepção estranha do tempo, como se alguns minutos das nossas vidas tivessem sido congelados. Sobre o silêncio que parecia nos envolver, mesmo com tantos sons ao nosso redor. A expansão diferente dentro do peito, e o sentimento de conexão profunda com um ser humano que nós duas mal conhecíamos. A morte nos separa e nos une ao mesmo tempo.

Fiquei pensando na morte da Ivone durante todo o restante do dia. A imagem dela me vinha à mente, o seu corpo frágil que, pensando bem, já não abrigava mais a mulher que ela tinha sido. Fiquei ruminando as sensações tão singulares que ela nos causou, no aprendizado que ela nos trouxe, mesmo sem saber, mesmo sem estar mais entre nós. Pensei no eterno dilema médico, nossa incessante (e por vezes angustiante) luta interior entre fazer algo para modificar a situação de um paciente e nos abstermos de interferir. Ali, no quarto de Ivone, não havia dilemas. Não havia angústias, não havia dúvidas, não havia dor. O que sentíamos era uma imensa, profunda e comovente reverência pela vida dela, que chegava ao seu final em nossa companhia. Era essa reverência que nos tinha feito priorizar o silêncio, escolhendo as poucas palavras que mereciam ser pronunciadas naquele momento sagrado. A mesma reverência que tinha baixado nosso tom de voz, lentificado nossos movimentos, e feito com que nenhuma outra preocupação fosse mais importante do que estar ao lado dela em seus minutos finais. A reverência que nos fez simplesmente esperar.

Rubem Alves escreveu lindamente que “A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A ‘reverência pela vida’ exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir.” A vida de Ivone desejava ir, e então se foi.

*nome fictício para preservar a privacidade da paciente

28 de janeiro de 2021
Ana Lucia Coradazzi

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Os últimos humanos do planeta

Quando Seu Raimundo* se foi, um grande pedaço do meu coração foi com ele. Eu sei, a morte de um paciente sempre mexe de alguma forma conosco. Os meses, anos ou até décadas de convívio, sempre permeados de trocas de sentimentos íntimos, de medos, de receios, de alegrias, de frustrações, nos entrelaçam às vidas deles de um jeito único. Quando se vão, levam parte de nós, e deixam saudade e aprendizado. Às vezes, deixam até alívio (porque cuidar deles nem sempre é tarefa fácil). Mas a partida de Seu Raimundo me levou algo maior, mais profundo, e deixou uma cratera na minha crença na Humanidade.

Seu Raimundo tinha perto de 80 anos. Chegou sorridente ao consultório, acompanhado da filha e da esposa, com seu diagnóstico de câncer avançado no pâncreas, como se nem estivesse doente. Mesmo com as notícias não muito animadoras que eu tinha para lhe dar, o sorriso não ia embora, e nem sua insistência em agradecer por qualquer coisa. Seu Raimundo dizia que a gente deve agradecer não por cada dia de vida, mas por cada minuto dela. Falava e sorria, sorria e falava. Encantador. Mas a doença não era nada encantadora. Mal tínhamos iniciado a quimioterapia, e ele começou a piorar. Líquido se acumulando no abdome e nas pernas, falta de apetite, perda de peso, início de uma dor que ele não tinha. Quando os olhos dele amarelaram, ficou claro que o papel do tratamento tinha deixado de existir, e os exames confirmaram a doença em franca progressão. Conversamos bastante nesses dias. Eu explicava o motivo do mal-estar e dos inchaços, falava sobre a refratariedade do câncer e, por fim, sobre a possibilidade sensata de interrompermos definitivamente a quimioterapia e priorizarmos a qualidade de vida dele. Seu Raimundo, o mesmo de sempre, sorria (um pouco mais triste, é verdade), e agradecia. “Pelo menos ainda estamos por aqui, né, minha doutora?”

Eu o via toda semana. Controlava a dor, as náuseas, a fadiga. Prescrevia diuréticos, suspendia os diuréticos, e íamos caminhando. Eu, cada vez mais encantada com sua generosidade. Mesmo enfraquecido como ele estava, ofereceu a uma outra paciente que fosse atendida antes dele porque ela estava com pressa de receber a quimioterapia do dia. Mesmo sem conseguir comer quase nada, me trouxe bombons para “adoçar meu dia”. Nossa proximidade aumentava, assim como a doença progredia, e logo ficou claro que não teríamos mais do que algumas poucas semanas. Não chegamos a conversar sobre tempo, nem mesmo sobre morte. Isso estava inserido nos silêncios que se seguiam às nossas falas, e ficava implícito quando ele dizia “Obrigado por tudo, doutora”, sempre como se aquela fosse nossa despedida.

E então chegou a época da vacinação contra a covid-19. As pessoas, entre animadas, esperançosas e ansiosas, se mobilizavam para receber a vacina. Muitas delas, para nosso espanto (e decepção), buscavam formas de furar a fila, valendo-se de sua influência política, social ou financeira. Víamos prefeitos (e seus afiliados) recebendo a vacina antes dos profissionais da saúde que estavam todos os dias se expondo ao risco de infecção. Víamos colegas médicos forjando relatórios para que amigos se “enquadrassem” nos grupos de risco e pudessem receber o imunizante. Víamos os próprios colegas médicos passando à frente dos que estavam muito mais expostos que eles, sem o menor constrangimento. E, claro, assistíamos às inúmeras tentativas de pessoas tentando comprar vacinas “para ajudar a desafogar os serviços públicos”, fingindo não entender que o manejo de uma pandemia é algo que só se resolve com estratégias comunitárias justas, e não com o aumento das desigualdades entre as pessoas. Era um festival de individualismo, egoísmo e falta de espírito comunitário. A catástrofe humana no noticiário da TV.

Foi em meio a tudo isso que recebi Seu Raimundo para mais uma consulta. A filha, animada com a chegada das vacinas, já iniciou nossa conversa perguntando se, quando liberassem o imunizante para idosos com comorbidades, seu pai poderia recebê-lo. Olhei para Seu Raimundo a tempo de vê-lo balançando negativamente a cabeça, os olhos parecendo levemente desolados, mas com o sorriso de sempre nos lábios. Respondi para a filha que sim, que ele poderia ser vacinado, e em seguida perguntei a ele por que não parecia muito disposto a isso. Seu Raimundo suspirou, meio sem pressa, parecendo escolher as palavras. “Não é isso não, doutora… é que acho que a vacina tem que ser dada pra quem vai se beneficiar dela. Não vou ter tempo pra isso. Prefiro deixar pra quem precisa.”

Acho que não me lembro, em minha vida de oncologista, de uma situação que tenha me causado tamanho impacto no coração. Aliás, eu não tinha mais um coração dentro do peito: eu tinha o mundo. Eu olhava para ele e via a grandeza infinita de um ser humano quando se compreende como parte de algo muito maior, quando se desloca de si mesmo para habitar o mundo inteiro. A capacidade de enxergar quando a necessidade do outro é maior que a sua, que o bem de todos é maior que o bem de um, e que estamos todos irreversivelmente conectados é algo raro nos dias de hoje, mas reconhecer que essa capacidade ainda existe alentou meu coração. Vivemos num país (ou num mundo?) onde impera a máxima do “Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro”, e nos iludimos acreditando que podemos nos salvar sozinhos. É justamente a capacidade de construirmos o mundo juntos que nos diferencia enquanto espécie, e é a capacidade de compartilhar que evitou nossa extinção até os dias de hoje. Na verdade, achei que seres humanos de verdade, que carregam em si esse forte sentimento de “pertencer”, que se dispõem ao sacrifício pessoal pelo bem comum, já estavam extintos. Não estão. Eles estão por aí, às vezes meio escondidos, talvez um tanto chocados com o nada sutil individualismo que tem nos atropelado. Mas ainda existem, e Seu Raimundo era prova disso. Quando ele se foi, pouco tempo depois, o mundo ficou pior.

Mas me consola saber que outros Raimundos seguem pelo planeta, espalhando sua generosidade, e que podemos resgatá-la de dentro de nós quando nos perdermos pelo caminho. Isso aquece minha crença de que esse será o traço que nos reerguerá enquanto Humanidade. Se Darwin estivesse vivo, talvez concordasse comigo que, entre as características que selecionarão os humanos mais fortes para dar continuidade à espécie no futuro, a generosidade, a compaixão, a resiliência e o espírito de comunidade provavelmente prevalecerão sobre o egocentrismo, a indignidade e a desonestidade. Se assim não for, talvez devêssemos mesmo nos conformar em termos falido enquanto espécie e pedir pra sair. O mundo ficaria melhor sem nós.

*nome fictício para preservar a privacidade do paciente

6 de dezembro de 2020
Ana Lucia Coradazzi

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Os dias mais estranhos das nossas vidas

Dias estranhos esses. São dias em que cada palavra dita pode desencadear uma crise, e cada palavra não dita também. Em poucas horas, atendendo pacientes tão diferentes quanto duas pessoas podem ser, temos ouvido de tudo um pouco (e, às vezes, pouquíssimo do que realmente importa). Desconfortáveis, presenciamos posicionamentos radicais sobre todo e qualquer assunto, muitos dos quais se opõem frontalmente aos nossos próprios posicionamentos, e até aos nossos valores mais sagrados. E nós, resignadamente, silenciamos. Não por receio ou por descaso, mas por um bem maior: manter o relacionamento minimamente funcional. Médicos precisam cuidar de todos. Temos pacientes de direita e de esquerda. Temos negacionistas, desconfiados, fanáticos pela Ciência e, claro, temos aqueles que já não têm mais qualquer ideia do que está acontecendo no mundo. Há ainda aqueles preconceituosos, depressivos, iludidos, e até alguns poucos otimistas incorrigíveis (esses, confesso, faz tempo que não encontro). Nós ouvimos suas ideias e pensamentos, às vezes travamos verdadeiros embates éticos dentro dos nossos cérebros, mas ainda assim silenciamos. Porque não adianta. Nada é mais improdutivo para a saúde de alguém do que debates que já se iniciam empatados. Dias estranhos esses em que mudar de ideia é sinal de fraqueza, ouvir o outro é sinal de subserviência e discordar é uma ofensa grave.

O consultório médico passou a ser mais próximo da psicoterapia do que da Medicina. As pessoas precisam falar, e não têm com quem. Elas precisam expressar suas inquietudes, suas ideias, seus posicionamentos em algum lugar onde se sintam seguras para isso, onde não serão ferozmente atacadas por pessoas que nem conhecem (ou até por pessoas que nem ao menos existem). Precisam de um espaço onde possam falar de si mesmas e do quanto o mundo as incomoda. Precisam deixar os sapos saírem da garganta. O câncer, a quimioterapia ou os planos para um futuro incerto abrem espaço para questionamentos sobre vírus, políticos e vacinas. Uma paciente passa todo nosso tempo de consulta explicando em detalhes como está se protegendo do vírus, do quanto é cuidadosa com sua família e como se organizou para sair de casa apenas uma vez por semana para fazer as compras do mercado, apressando-se em explicar que deixa os sapatos na porta ao retornar e corre para o chuveiro antes do abraço dos filhos. O paciente seguinte, alheio ao que acabei de escutar, me conta sobre como o mundo enlouqueceu com um vírus que mata muito pouco, o quanto ele próprio se recuperou bem da doença há pouco mais de um mês, não sentindo nada mais que uma dor de cabeça, e como acredita que é um exagero obrigar as pessoas a usar máscara o tempo todo (“eu só uso quando sou obrigado, doutora, por mim não usaria não”). Pacientes revoltados contra as políticas de saúde do governo passam longos minutos criticando o último discurso de algum ministro, enquanto outros o aplaudem incondicionalmente, convencidos de que é necessário ser firme e determinado nessa hora. Enquanto alguns esperam ardentemente pela vacinação, outros não tomarão a vacina nem por decreto. E eu, médica de todos, silencio, restrinjo meus comentários aos pontos que poderão ter impacto direto na saúde deles. Porque poucos são os que esperam de mim respostas ou orientações. A maior parte precisa, apenas, dos meus ouvidos.

Médicos hoje estão numa posição delicada. Incapazes de instituir abordagens psicoterápicas (tanto por falta de formação para isso como por falta de tempo), não temos como aliviar a angústia da solidão e da incerteza que vemos pulsar nas palavras das pessoas. Tampouco podemos ouvir sem fazer julgamentos, como os padres são capazes, porque estamos mais próximos dos homens do que dos santos. Julgamos, nos indignamos e nos surpreendemos, mas colamos firmemente nossos lábios em prol da pessoa que se senta à nossa frente. Estando tão perto assim das inconsistências do mundo, médicos ganharam um desafio adicional em sua prática: a diplomacia. Estamos aprendendo a respeitar mais os limites e pensamentos alheios, aprendendo a conviver com o diferente e com o oposto, e a nos posicionar pelo bem comum (o que inclui o nosso próprio bem). Estamos incorporando a imensa sabedoria que há em escolher as batalhas que valem a pena ser enfrentadas, e a abrir mão de nos posicionar quando os frutos não valem o esforço. A diplomacia inclui a arte de permitir que as pessoas escolham seus caminhos, principalmente quando seus caminhos divergem dos nossos. A divergência tem nos feito mais sábios e mais fortes, embora nos deixe, indubitavelmente, mais cansados. Que assim seja.