No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

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10 de outubro de 2017
Ana Lucia Coradazzi

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A Resiliência e os Oncologistas

*texto escrito pelo Dr. Lucas Cantadori, médico hematologista em Botucatu/SP

A rotina de quem trabalha com câncer nunca é fácil. É quase impossível separar nossa vida pessoal da nossa profissão, dada a dependência que os pacientes tem dos nossos cuidados. Desde o diagnóstico adequado, passando pelos esclarecimentos frequentes, planejamento e execução terapêutica, manejo dos efeitos colaterais e seguimento pós-tratamento, muitas são as vezes que nosso apoio é necessitado. Com o passar do tempo, adquirimos habilidades variadas, como o raciocínio rápido e o cuidado com as palavras e linguagem corporal ao conversar com familiares; como a capacidade de adequação ao contexto único de cada paciente. É o que define uma das maiores habilidades do oncologista: a resiliência emocional e psicológica.

Resiliência, essa capacidade de assimilar as situações da vida e seguir em frente, é uma das coisas que mais admiro nos meus pacientes. Porém, é uma qualidade também muito frequente e pouco reconhecida na maioria de nós, oncologistas. Exigimo-nos conhecer cada novo estudo clínico – muitas vezes englobando populações totalmente diferentes das do nosso meio – e saber adequa-los à nossa prática diária, enquanto nos esforçamos para responder da melhor forma possível cada pergunta vinda das mais diversas perspectivas. A produção científica é estrondosa, rápida, volátil. A tecnologia caminha a passos largos e as opções terapêuticas se multiplicam. Mas, no final das contas, tudo se resume ao consultório médico, portas fechadas, paciente e familiares à nossa frente.

Quando penso em resiliência, sempre me recordo da metáfora do boxeador. Quem pratica lutas como boxe ou MMA conhece o conceito da absorção de golpes. Ter a capacidade de assimilar um choque sofrido é parte fundamental no confronto. É preciso saber apanhar. O lutador que recebe um gancho de direita absorverá bem ou mal o golpe sofrido. Ele pode ir a nocaute de imediato. Mas pode também cambalear e devolver a energia recebida sob a forma de um contra-ataque. “Absorver o golpe” é saber assimilar, levar a energia recebida para dentro de si, aprendendo durante o processo (a melhorar a esquiva, a altura da guarda, o momento do contra-ataque).

A resiliência de cada paciente é acompanhada pela resiliência de cada oncologista. Para nós este atributo é tão importante quanto a capacidade de reconhecê-lo fraco e desgastado, o que pode tornar nossa profissão perigosa. Ter este sexto sentido para detectar nossos momentos de fraqueza é fundamental para que possamos buscar meios de nos reerguermos e seguir em frente. Seja lendo um livro, assistindo um filme ou correndo uma maratona. Essa reflexão foi inspirada no artigo publicado pelo oncologista canadense Daniel Rayson há poucas semanas. Vale a pena traduzir alguns dos parágrafos finais, onde ele discorre sobre a história de uma conversa entre um filósofo e um oncologista: “O filósofo explicou que nós normalmente acordamos a cada manhã com um frasco cheio de compaixão. Com o passar do dia, essas gotas de compaixão serão espalhadas onde são necessitadas e – para a maior parte das pessoas – quando chegam em casa do trabalho ainda há uma quantidade significativa pronta para ser usada no dia seguinte. Porém, em relação aos oncologistas, todas as gotas são usadas ao longo de sua rotina de trabalho. No final do dia, só resta o frasco vazio. Às vezes, o frasco acaba antes mesmo do final do dia. E nós retornamos para casa, ávidos pelo silêncio das nossas famílias, e vamos dormir, vazios. Para muitos de nós, essa carreira pode ser perigosa. O perigo existe quando o peso das nossas palavras ameaça nos esmagar enquanto enchem a sala ao redor de nós e dos nossos pacientes.  Este não é um trabalho para os frágeis de coração, pobres de espírito ou fracos de psique. É importante que saibamos quando nossos frascos estão quase vazios…”

Leia o artigo de Daniel Rayson na íntegra em http://ascopubs.org/doi/full/10.1200/JCO.2017.73.9326

31 de agosto de 2017
Ana Lucia Coradazzi

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O Câncer de Cada Um

As consultas do professor sempre são muito tranquilas. Já com certa idade, aposentado da faculdade, e com anos suficientes para lamentar menos e agradecer mais, ele vinha convivendo com um câncer de próstata já há algum tempo, sempre com boa evolução e sem que a doença chegasse a atrapalhar sua vida. Na verdade, o câncer pouco participa das nossas conversas. Durante as consultas, dedicamos mais tempo a trocar impressões sobre o mundo, as pessoas, livros, a faculdade, ou qualquer outro assunto que venha a nos conectar. O câncer é um coadjuvante, quase como se não precisasse estar ali.

Foi justamente por vê-lo como alguém saudável, por raramente associá-lo à doença que habita seu corpo, que fiquei tão surpresa com nossa última conversa. Estávamos falando sobre os comportamentos das pessoas, sobre como palavras proferidas em momentos inoportunos podem causar dor e sofrimento. Foi no meio desse tema instigante que ele começou a me contar dos sentimentos conflitantes que o invadem quando escuta alguém usando a palavra “câncer” para classificar algo (ou alguém) como sendo o pior de tudo (ou de todos). Contou que, ao ouvir que “Fulano é um câncer na sociedade” ou “Cicrano é um câncer na vida dela”, seu coração se aperta. É como se colocassem dentro dele o que há de mais maligno na humanidade e no mundo, como se seu corpo fosse covardemente invadido pela escuridão. O fato é que ele não sente sua doença como algo tão ruim assim. Ao ouvi-lo falar, fiquei pensando nessa relação incrível que o professor, aproveitando toda a sua sabedoria, desenvolveu com uma doença com a qual terá que conviver para o resto de sua vida. Ele encara o câncer como uma parte dele que não deu muito certo, mas que ainda assim continua sendo parte do conjunto. Assim como uma mãe continua protegendo e amando um filho que comete erros (mesmo erros graves), ele mantinha uma relação de respeito, quase de “parceria”com a doença. A ponto de se sentir até um pouco ofendido ao ouvir alguém comparando sua doença a algo tão maligno ou cruel.

Num primeiro momento, ouvindo assim de relance, poderíamos pensar que o professor estava ficando um pouco demente. Talvez a idade já estivesse confundindo suas ideias, e ele tivesse perdido a capacidade de discernir o que é bom e o que é ruim, ou não fosse mais capaz de compreender que o câncer é uma condição com a qual devemos nos preocupar e até temer. Mas bastaria ouvi-lo mais alguns minutos para entender que seus sentimentos nada têm a ver com perda do juízo. Sua postura é uma expressão admirável, típica das pessoas resilientes, as quais, posso afirmar categoricamente, são justamente aquelas que conseguem lidar com o câncer da forma mais saudável possível. A resiliência é a pedra angular para o enfrentamento de uma doença complexa como o câncer. Trata-se da capacidade de enxergar a doença de uma forma menos dramática, mais objetiva, e livre de ressentimentos do tipo “Mas por que isso foi acontecer justo comigo?”. A resiliência é uma ferramenta poderosa para lidar com a adversidade.

Depois que ele saiu, fiquei pensando na nossa conversa por um longo tempo. Pensei no enorme tempo em que passei na faculdade, durante a graduação e a residência médica, encontrando todos os dias com professores como ele, ouvindo tanto sobre tantos assuntos. As centenas de livros e informações técnicas, as avaliações intermináveis para garantir que estávamos aptos a exercer a Medicina, que dominávamos todas as informações essenciais para cuidar das pessoas e de suas doenças, mas aprendendo tão pouco sobre como cada um lida com os desafios da vida. Fiquei me perguntando se haveria algo mais importante, na formação de um médico, do que entender como as pessoas enxergam suas doenças, e de que ferramentas dispõem para enfrentá-las. E olhando o ex-professor ali, expondo de forma tão sensata e tranquila o seu modo de lidar com tudo isso, só pude pensar no quanto todos somos professores uns dos outros, o tempo todo, em qualquer momento e lugar.

3 de agosto de 2017
Ana Lucia Coradazzi

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A Boa Viola

Dona Rita* tem hoje 71 anos. Eu a conheci por causa de um câncer de mama, pequenino como uma ervilha, já operado, desses que o oncologista olha e sorri: “Esse eu resolvo fácil”. Vi todos os seus exames antes de chamá-la, e já estava com a estratégia de tratamento pronta na minha cabeça: radioterapia, alguns anos de tratamento hormonal e em poucos minutos eu já poderia encerrar o ambulatório e ir almoçar (eu estava morrendo de fome). Chamei Dona Rita. Ela apareceu, lá no final do corredor, acompanhada de uma moça de uns 40 anos. Vinha devagar, passo incerto, precisando do braço da moça como guia. A saia azulada puída que só vendo, encontrando as meias grossas de lã na altura dos joelhos. Os cabelos acinzentados, presos num coque, já estavam desgrenhados naquela altura do dia. Alguma coisa em Dona Rita fez meu coração desassossegar.
Logo após meu “Boa tarde” já ficou claro que ela tinha uma limitação mental grave, com grande dificuldade para falar e compreender as palavras. Não conseguia responder perguntas simples e precisava da ajuda da moça – que eu presumi ser sua sobrinha ou vizinha – para me contar sua história. Na verdade, minha impressão era de que a própria Dona Rita mal sabia que história era essa, tanto com relação ao câncer quanto a tudo o que lhe acontecia na vida. A moça me explicou que, ainda criança, Dona Rita tinha caído de uma laje e ficado muito sequelada por uma lesão cerebral grave. Não era capaz de tomar decisões ou desenvolver uma linha de raciocínio (mesmo que simples), não conseguia formar opiniões a respeito de nada e tinha grande dificuldade para se expressar. Mas sabia cozinhar muito bem, cuidava da casa sozinha e executava qualquer tarefa simples que não exigisse raciocínio ou julgamento.
Ela falava da Dona Rita com tanto carinho que me vi obrigada a perguntar qual era sua relação com ela. A moça respondeu, discretamente constrangida, que era sua filha. Acho que não pude esconder meu espanto, porque a moça logo emendou a explicação de que não, Dona Rita não era casada, nem tinha como saber o que era se relacionar com um homem. Os segundos de silêncio que se seguiram foram mais que suficientes para que eu entendesse que a moça provavelmente era fruto de um estupro. Olhei para Dona Rita, que mantinha seu olhar distante, e me enchi de compaixão. Devia ter sido uma vida muito dura, a dela. Centenas de pensamentos me invadiram daquele momento até o final da consulta. Ao examiná-la, eu me sentia inconformada por alguém ter abusado de uma pessoa tão frágil. Ao explicar o tratamento, meus pensamentos vagavam entre a piedade e a indignação. Meu desconforto era quase palpável.
Ao final da consulta, já na porta, nos despedindo, os olhinhos de Dona Rita se encontraram com os meus, e ela sorriu. Cutucou minha mão esquerda e juntou suas duas mãozinhas, formando uma espécie de bola, entregando-a para mim. A filha traduziu: “Ela vai fazer um bolinho para a senhora. É a especialidade dela”. Meu coração subitamente aumentou de tamanho, até expulsar de mim todo aquele desconforto. O gesto de Dona Rita tinha sido como ouvir uma música daquelas que acalentam nossa alma, e nem a fome me incomodava mais.
Rubem Alves, em seu livro “Ostra Feliz Não Faz Pérola”, escreveu o seguinte: “A viola só existe para fazer música. Sem o tocador a viola fica muda. A viola, para ser boa, tem que fazer a música que está na alma do tocador. Pois o corpo é assim mesmo: como uma viola… Há muita gente, viola boa, saúde 100%, que é como viola desafinada, sem tocador. Não faz música. Ninguém é amado por ter saúde boa. Há pessoas de boa saúde cuja companhia ninguém deseja. E, ao contrário, há pessoas de corpo doente que são fontes de beleza. Muita viola velha faz beleza de fazer chorar…” Olhando Dona Rita ali, sorrindo, com seu bolinho imaginário nas mãos, eu pude ouvir a música que sua violinha era capaz de tocar. E que ia muito além da sua capacidade de falar, pensar ou se defender das crueldades do mundo.

*nome fictício para preservar a identidade da paciente