No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

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20 de outubro de 2020
Ana Lucia Coradazzi

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O menino e o gigante

Aquela foi a primeira vez que não vi o sorriso do Marcelo quando entrei no quarto. Ele olhou para mim somente com os olhos, sem mover a cabeça, me fazendo entender que tinha percebido a minha presença. A respiração difícil e a fraqueza intensa consumiam toda a sua energia. Ele estava deitado com a cabeceira da cama elevada, o abdome fazendo um grande volume sob o lençol, e as pontas dos dedos dos pés descobertas, revelando o inchaço que tinha tomado conta do seu corpo. A mãe dele, Renata, estava aos pés da cama. Ansiosa e visivelmente cansada, tentava proporcionar algum alívio abanando Marcelo com uma fronha. Eu podia ouvir a respiração ruidosa e desconfortável, misturada ao som do cateter de oxigênio, numa sinfonia estranha e desafinada. O quarto todo parecia, de alguma forma, cinzento, e até o céu lá fora estava assim. Um tom que não combinava em nada com o Marcelo que eu conhecia. Aos 22 anos, ele estava indo embora, e a tristeza de vê-lo partir esparramava-se pelos cantos.

Marcelo tinha um tipo raro de sarcoma, diagnosticado pouco mais de um ano antes, quando ele procurou um serviço médico devido a um grande abaulamento na parte posterior do tórax. Embora a quimioterapia inicialmente tivesse surtido um grande efeito e a lesão tivesse sido ressecada com sucesso, ainda durante a quimioterapia pós-operatória a doença tinha retornado, extremamente agressiva, comprometendo rapidamente seus pulmões e ossos. Outros esquemas de tratamento tinham falhado, um após o outro, sem trégua. Mas Marcelo não se deixava abater. Sempre mais sério do que sorridente, sempre pragmático e direto, não desperdiçava palavras, e nem tempo. No início do tratamento, ele às vezes não trocava mais que uma dúzia de palavras comigo durante a consulta. Entrava, respondia às minhas perguntas com “sim” ou “não”, e saía meio apressado, pulando da maca de exame, para iniciar a quimioterapia do dia. Com o tempo, comecei a ouvir frases inteiras. Depois, o vi voltando a se sentar para conversar antes de sair do consultório. Ouvi, entusiasmada, quando ele me falou do carro e da sensação de autonomia que o ato de dirigir lhe causava. Acho que foi nesse dia, aliás, que vi Marcelo sorrir pela primeira vez. Elogiei o sorriso, ele ficou com vergonha, mas nunca mais deixou de sorrir quando me via. Só um sorrisinho discreto, às vezes só com os olhos, mas sempre estava ali.

Quando a doença começou a assumir o controle, o jeito peculiar dele dificultou as coisas para nós. Marcelo era direto nas perguntas, e se mantinha contido ao ouvir as duras respostas. Às vezes, dizia apenas “OK, tranquilo”, e saía apressado para não prolongar o assunto. Foi só quando novos tumores começaram a aparecer nas costas, mesmo logo após trocarmos o esquema de quimioterapia mais uma vez, que percebi um espaço para perguntar, enquanto o examinava: “Marcelo, você está com medo de alguma coisa?”. Ele me olhou, um pouco surpreso, e devolveu com outra pergunta: “Medo de morrer, você quer dizer? Não. Não tenho não.” E, depois de alguns segundos de silêncio, o sorriso enigmático que era sua marca registrada: “Tranquilo, doutora.” Era sempre assim. Eu indo com o trigo, e ele já voltando com o pão.

Foi esse o sorriso que se perdeu naquele dia, no quarto do hospital. Marcelo estava internado há umas duas semanas. Tinha perdido o movimento das pernas após o tumor comprometer implacavelmente sua coluna vertebral. Os medicamentos e a radioterapia nada tinham ajudado, e Marcelo vinha piorando rapidamente nos últimos dias. Dor, cansaço, falta de ar, todos os dias tínhamos novos sintomas para serem aliviados. Num desses longos dias, ele me surpreendeu, perguntando quando iniciaríamos novamente a quimioterapia, porque os tumores estavam aumentando muito rápido. “Como assim, quimioterapia???”, eu me perguntava. Precisei de um esforço inacreditável para não deslizar para debaixo da cama, fugindo dos seus olhos desafiadores. Não fugi. Perguntei por que motivo ele queria diminuir os tumores, e ouvi a desconcertante resposta: “Porque eu preciso voltar a dirigir, lembra? Não tem nada que me deixa mais feliz”. Perguntei como é que ia ser se a gente não conseguisse isso, já com medo do que viria a seguir. Mas vi o Marcelo sendo ele mesmo: “Bom, aí eu rezo, e seja o que Deus quiser.” O medo, definitivamente, nunca tinha feito parte da sua vida. E a generosidade de acolher o mundo ao seu redor, no qual eu me incluía, estava mais presente do que nunca. Eu olhava para ele e não via mais o menino. Eu agora via um gigante, e me admirava com a coragem e a resiliência que ele guardava debaixo da casca grossa.

Ali, nas suas últimas horas de vida, muita coisa tinha mudado. Não havia mais espaço para constrangimentos, para rodeios, para ilusões. Todas as conversas já tinham sido feitas, e todas as dúvidas respondidas. Todas as despedidas tinham se concretizado. Tinha ficado apenas a realidade, nua e crua como ela é. Não havia mais tempo. E tudo o que precisamos foram alguns poucos minutos. Perguntei se aquela situação estava desconfortável demais para ele, e ele fez que sim com a cabeça, olhando direto nos meus olhos. “Você prefere que a gente faça você dormir até a hora que isso terminar?” Numa fração de segundo, vi os dedos da mão direita se fecharem, o polegar levantado, concordando com a minha proposta. Ao sair do quarto, ao lado da Renata, ambas choramos. Marcelo foi sedado, e se foi algumas horas depois, deixando uma mistura preciosa de admiração, perplexidade e saudade em todos nós.

No dia seguinte, conversando com uma colega que o vinha acompanhando comigo, eu ainda soube de mais uma pequena pérola que Marcelo deixou em seu legado. Poucos dias antes de partir, ele gravou um audio pelo celular para uma amiga. Ele falava sobre estar indo embora. Dizia que sabia que não tinha muito tempo, e que não tinha medo de morrer. Que confiava que Deus faria o que fosse melhor. E que sua meta era ser como Jesus foi, e não sucumbir em sua fé até seu último instante. Eu podia imaginá-lo falando aquelas palavras, compenetrado e cuidadoso, o olhar sereno que eu já tinha visto tantas vezes. Eu, que já assisti a tanto sofrimento tão de perto, que conheci tanta gente sábia partir com a dignidade que todos almejamos, e que já vi tantas pessoas de fé mantendo-se fiéis ao que lhes passava no coração, me via agora ali, surpresa e encantada, mais uma vez. Talvez fosse sua pouca idade, ou seu jeito reservado que às vezes me deixava tão confusa… Talvez fossem os lampejos de ingenuidade que os sorrisos discretos do Marcelo revelavam, ou apenas o carinho enorme que aprendi a ter por ele, pela Renata e pelo amor dos dois. Ali, eu era o grão de areia. O Marcelo era o oceano inteiro.

Live de lançamento – O Médico e o Rio

19 de setembro de 2020


Ontem, 18 de setembro de 2020, foi um dia muito especial para nós. O lançamento do livro novo foi tão cheio de emoção quanto o próprio livro. Passear novamente pelas histórias e relembrar as pessoas que acompanham nossos passos foi uma vivência valiosa. Somos só gratidão!

Pra quem não conseguiu participar ao vivo, a live está disponível no link O Médico e o Rio – lançamento.

E pra quem esteve lá com a gente, fica nosso abraço mais apertado, com todo o carinho que cabe dentro dele.

 

 

18 de setembro de 2020
Ana Lucia Coradazzi

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Chegou o dia!!!!

 

É hoje o dia do lançamento do nosso livro novo!!! Estamos muito, muito felizes em compartilhar com vocês esse momento, e muito gratos pelas pessoas que tiveram (e ainda têm) a generosidade de nos incluir em suas histórias de vida. Nosso aprendizado é diário. E com ele nos tornamos mais humanos, e mais conscientes do nosso papel (por vezes tão mínimo) na complexidade das vidas alheias.

Todos serão mais que bem vindos na LIVE de lançamento!

Quando: HOJE! (18/09/2020), às 19 h

Onde: Canal da Ophicina de Cuidados Paliativos no YouTube (https://www.youtube.com/watch?v=r9XYEEOlL9w)

OBS: o livro já está à venda, no link www.ophicinadecuidadospaliativos.com/loja

Bem vindos (as)!!!!

 

12 de setembro de 2020
Ana Lucia Coradazzi

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A luz que nunca faz sombra

A enfermaria parecia tranquila naquela manhã. Eu podia ouvir as enfermeiras conversando na sala de medicação, mas o tom de voz baixo não me permitia entender sobre o que falavam. O médico responsável estava sentado em frente ao computador, fazendo as prescrições do dia, compenetrado, e me sorriu num “bom dia” cordial. Eu estava lá para saber notícias da Gabriela*, minha paciente que, aos quarenta e poucos anos, estava vivenciando a fase final de sua vida, na Unidade de Cuidados Paliativos. Troquei algumas palavras com o colega para saber da evolução dela nas últimas horas. As notícias, como eu esperava, não eram as melhores. Gabriela tinha um câncer do apêndice cecal, uma raridade oncológica que costuma ser implacável quando em estágio avançado. E era essa implacabilidade que eu vinha vendo no corpo dela nos últimos meses. O extenso comprometimento do abdome, obstruindo seu intestino, não permitia que ela se alimentasse, causando vômitos e náuseas constantes. Nenhum dos tratamentos que tínhamos à mão, como a quimioterapia e uma tentativa cirúrgica de desobstrução, tinha surtido qualquer efeito. E, depois de semanas muito duras, Gabriela tinha concordado com a internação, para que ficasse mais confortável.

Era essa Gabriela, extremamente emagrecida, cujo corpo estava tão combalido pela doença que ela nem ao menos conseguia se virar sozinha na cama, que eu estava indo ver naquela manhã. Durante o curto caminho até a porta do quarto, fiz minha pequena prece, que me ajuda a encontrar as palavras nos momentos mais desafiadores e orienta meus gestos quando minhas mãos não sabem o que fazer. Ela estava de olhos fechados, a mãe em pé ao lado da cama, em silêncio. Sua respiração era leve e tranquila. Os dedos finos e emagrecidos repousavam sobre o abdome, mostrando que ela ainda conseguia resguardar seu próprio corpo. Conversei um pouco com a mãe, perguntei como elas estavam, mas nem precisava ter perguntado. O rosto cansado dela revelava o quanto tudo aquilo estava sendo difícil. Gabriela se mantinha de olhos fechados. Toquei em suas mãos, ela abriu levemente os olhos, e me disse um “oi” tão baixinho que mal dava para ouvir. Disse que estava tudo bem. Que não tinha dor. Que estava cansada. E que “não, não tinha nada mais que pudéssemos fazer para ajudar, obrigada.”

Era ela sendo ela mesma. Meses atrás, quando a conheci, minha impressão dela tinha sido a de uma mulher forte e sensata, dessas que tomam qualquer tipo de decisão por si mesmas, sempre após pesar os prós e contras, e sempre levando em consideração seus próprios valores. Gabriela sempre tinha participado das decisões envolvendo seu tratamento de forma ativa. Perguntava, de forma direta e até desconcertante, quais as possibilidades e quais os riscos, em qualquer situação. Deixava claro o que esperava de mim. Quando nossas opções de tratamento se esgotaram, lembro dela me olhando nos olhos, categórica: “Então é isso, certo? Agora é esperar.” E lembro da força que precisei fazer naquele dia para resistir à tentação de iludí-la com palavras de encorajamento. “É, Gabi. Agora é cuidar de você, pelo tempo que você tiver.”

Às vezes, as palavras que saem da boca de um médico são tão difíceis de serem ouvidas quanto de serem ditas. Nós muitas vezes nos perdemos em meio aos termos técnicos que nos protegem da angústia e do sofrimento, e nos permitem uma fuga estratégica diante de situações que, convenhamos, são de dissolver o mais rude dos corações. É uma verdadeira batalha interna proferir palavras que, em última instância, revelam nossa impotência diante da finitude. Dizê-las assim, olhando nos olhos de alguém como a Gabi, sabendo da sua força e da sua coragem, exigiu muito mais do que uma prece. Os olhos dela exigiram toda a compaixão que eu pude resgatar de dentro de mim. Exigiram a lembrança de que ninguém merece o sofrimento adicional de ter sua autonomia roubada por mentiras pretensamente piedosas. Os olhos dela me obrigaram a lidar com o enorme desconforto de trazer sombra à sua existência. As sombras, infelizmente, fazem parte da vida.

Ali, ao lado dela, na fase final de sua vida, eu não enxergava mais brilho nos seus olhos. Não ouvia mais o som claro da sua voz, não via mais as atitudes determinadas, nem sequer podia reconhecer sua personalidade. Mas, estranhamente, ainda havia luz ali. Em meio à evidente tristeza de toda a situação, daquela partida que nos parecia tão precoce, havia luz. Uma luz serena e até mesmo confortável, e a estranha sensação de que estava, mesmo, tudo bem. Fiquei um tempo com elas, minhas mãos sobre as da Gabi, observando o subir e descer do abdome, deixando o silêncio fazer sua morada. Deixando a luz dela nos envolver.

Algumas horas depois, conversando com o esposo dela, ele nos falou sobre como as semanas vinham sendo difíceis, e como vê-la indo embora era doloroso. Contou sobre a sensação de todo o universo estar contra eles, sobre a sensação opressora de impotência. Falou sobre como não se sentia no direito de expressar seu próprio sofrimento, diante de alguém que estava numa situação tão mais difícil que a sua, e contou sobre sua admiração por ela, que o ajudava a lidar com tudo aquilo de uma forma um pouco mais serena. Em meio a toda a sua dor, ele ainda encontrou palavras para nos agradecer, falando sobre como nosso apoio aliviava seus momentos mais duros. E, no final da conversa, disse uma das frases mais lindas que já ouvi em toda a minha vida: que nós, médicos, temos uma luz que nunca faz sombra.

Talvez ele e a Gabriela nunca venham a ter consciência do quanto cativaram meu coração e trouxeram luz à minha vida. Com sua postura corajosa e resiliente diante do sofrimento que a doença lhes trouxe, eles ainda foram capazes de enxergar o mundo com generosidade e gratidão, percebendo o quanto o respeito à sua autonomia lhes foi valioso. Eles puderam preservar a grandeza das pessoas que são, mesmo diante da incapacidade de colocar ordem no caos. Sem nem se darem conta, me ensinaram que não tenho o poder de levar sombras à vida das pessoas quando elas têm luz dentro de si. Eles, sim, têm uma luz que não se deixa sombrear.

 

*nome fictício para preservar a identidade da paciente