No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

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30 de março de 2020
Ana Lucia Coradazzi

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Curar

(poema de Kathleen O’Meara, 1839-1888)

E as pessoas ficaram em casa
E leram livros e ouviram
E descansaram e se exercitaram
E fizeram arte e brincaram
E aprenderam novas maneiras de ser
E pararam
E ouviram fundo
Alguém meditou
Alguém orou
Alguém dançou
Alguém conheceu sua sombra
E as pessoas começaram a pensar de forma diferente
E pessoas se curaram
E na ausência de pessoas que viviam de maneiras ignorantes,
Perigosas, sem sentido e sem coração,
Até a Terra começou a se curar
E quando o perigo terminou
E as pessoas se encontraram
Lamentaram pelas pessoas mortas
E fizeram novas escolhas
E sonharam com novas visões
E criaram novos modos de vida
E curaram a Terra completamente.

10 de março de 2020
Ana Lucia Coradazzi

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Sobre estar lá

Os belos textos a seguir foram extraídos do ABC Life, página na qual pessoas contam suas experiências em lidar com a morte de parentes queridos, amigos especiais ou outras pessoas significativas em suas vidas.  Elas contam como foi “estar lá”. Falam de gratidão, de carinho, e de se sentirem abençoadas por poderem oferecer alívio. Falam desses momentos finais como presentes, em suas vidas e nas daqueles que estavam prestes a partir. Conexões que não podem ser explicadas. São para serem vivenciadas. É preciso, literalmente, estar lá.

“É uma verdadeira honra e um privilégio estar com uma pessoa que está terminando seus dias na Terra. Seja forte e tenha a coragem de dizer o que você precisa, diga adeus. Chore, ria, fique em silêncio, reze, respeite crenças culturais. O mais importante é simplesmente estar lá.”

(Shelley, com seus pacientes)

“Eu não me senti constrangido por estar lá durante a última respiração deles, ou em permanecer sentada ao seu lado após terem partido. Eu apenas senti que isso foi um dos maiores presentes que eu poderia dar a eles. Estar ali, oferecer conforto e mostrar o quanto eles foram amados até o fim de suas vidas.”

(Justine, com seus pais)

“Permanecer sentada com minha mãe quando ela morreu de câncer aos 62 anos e com meu pai quando ele faleceu aos 84 foram experiências gratificantes, por mais estranho que possa parecer. Estar com alguém que os amava trouxe conforto a eles. Ambos estavam receosos a respeito de estarem sozinhos e deixarem a família. Houve pouca conversa. Mas apenas um toque nas mãos, estar ali para oferecer um copo de água, servir uma colherada de iogurte, ou preparar uma xícara de chá era tudo o que eles precisavam. Para mim foi o último presente que eu pude dar a eles.”

(Joanne, com seus pais)

 

3 de fevereiro de 2020
Ana Lucia Coradazzi

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Empatia, por Audrey Hepburn

Hepburn’, Paris, 1951. Crédito: © Condé Nast

“Nada é mais importante que a empatia para o sofrimento de outro ser humano. Nada. Nem uma carreira, nem riquezas, nem inteligência, e certamente nem status. Precisamos nos sentir como o outro se quisermos sobreviver com dignidade.”

Quem se lembra de Audrey Hepburn apenas como ícone do cinema, mundialmente conhecida por sua carinha de anjo e sua atuação em filmes marcantes como Bonequinha de Luxo e Sabrina, talvez se espante em saber que a frase acima, tão lúcida e altruísta, foi uma das muitas ditas por ela durante sua vida. O fato é que Audrey conheceu o sofrimento e a miséria humana muito de perto: ela viveu na Holanda durante o período da ocupação alemã, na Segunda Guerra Mundial. Passou fome, adoeceu gravemente, viu parentes sendo encaminhados a campos de concentração, e tantas outras formas de sofrimento. Audrey sentiu na pele a importância da empatia no alívio da dor, seja física, espiritual, moral ou psicológica. Conforme os anos se passaram e sua vida passou a ser permeada pelo sucesso e carinho do público, ela foi se tornando ainda mais sensível à dor do outro, recusando-se a se deixar seduzir pela fama e pela riqueza. É também dela a frase “À medida que você envelhecer, vai descobrir que tem duas mãos: uma para ajudar a si mesmo e outra para ajudar os outros.”

A postura adotada por ela durante a vida não é nada desprezível. É da natureza humana se deixar deslumbrar pelo conforto, pela riqueza, pelo poder. É fácil para nós esquecer as obscuridades do mundo, em especial do mundo dos outros, e o único antídoto eficaz contra essa amnésia é a prática da empatia. É preciso treino. Treino diário e constante. Praticar a empatia é pensar de forma empática antes de todas as atitudes. É se lembrar de descartar adequadamente o vidro antes de jogá-lo no lixo para que o lixeiro não se machuque ao recolhê-lo. É sorrir para a pessoa de cara amarrada à sua frente no ônibus, imaginando que ela pode estar sofrendo terrivelmente em sua vida pessoal. É não julgar. Em cada momento do nosso dia, floresce uma oportunidade valiosa de praticar a empatia.

Mas a empatia é ainda mais poderosa diante de pessoas que sofrem, em especial aquelas tão doentes e fragilizadas que já se esqueceram de seu direito à dignidade. Certa vez uma senhora bem idosa, já na fase final de sua vida, estava internada recebendo medicamentos para dor e para falta de ar. Ela era cega há muitos anos, ouvia muito pouco e praticamente não conseguia se mover sozinha. Estava há semanas no mesmo leito, comunicando-se minimamente com a equipe de saúde, e sem receber visitas. Depois de um tempo, os profissionais praticamente se esqueceram de sua condição humana. Sem interação, ela passou a ser pouco mais que uma planta a ser nutrida, limpa e hidratada. Num sábado de manhã, uma técnica em enfermagem que nunca a tinha visto se compadeceu da situação dela, e decidiu fazer algo diferente. preparou um banho especial, com alguns óleos perfumados, e depois massageou todo o corpo da senhora com cremes agradáveis. Durante todo o tempo em que esteve com ela, ficou conversando sobre coisas que acreditava que a senhora conhecia, mesmo sem saber se ela a estava ouvindo. Ao término da sua tarefa, e moça se inclinou para beijar a testa da senhora. Foi quando as duas mãozinhas enrugadas e enfraquecidas, surpreendentemente, se elevaram em direção ao seu rosto, acariciando suas bochechas, enquanto algumas poucas lágrimas escorriam dos olhos opacos da senhora. A mágica da empatia tinha se materializado, trazendo alívio e contaminando as vidas de ambas com o amor em sua forma mais sublime.

Médicos, enfermeiros, psicólogos e tantos outros profissionais deixam para trás oportunidades significativas de crescimento pessoal quando não se permitem ouvir, tocar, compreender. Quanto maior o sofrimento, maior o impacto da empatia em seu alívio. Maior o significado de estar presente, de tentar entender outro ponto de vista, de oferecer ajuda efetiva. É essa postura que transforma nosso olhar, nos transformando em pessoas melhores. Esse caminho não tem volta.