No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

first

29 de outubro de 2017
Ana Lucia Coradazzi

2 comments

Sobre despedir-se

Quanto mais vivencio as semanas finais dos meus pacientes, mais me convenço de que não existem despedidas fáceis. Muitas vezes, durante nosso treinamento para lidar com a terminalidade, nós nos deixamos levar pela imagem da morte como um evento cheio de beleza e tranquilidade, um momento até feliz. Ficamos inebriados com a possibilidade da morte sem dor, sem angústia, sem sofrimento desnecessário. Nós nos esforçamos para aprender as técnicas e medicamentos que permitem tudo isso, e sentimos na pele o quão gratificante é ser capaz de promover alívio e exercer a compaixão em sua mais poderosa versão. Mas o fato é que, mesmo sem sofrimento desnecessário, a morte é uma despedida definitiva, por si só já dolorosa.

Sempre que trabalhamos junto a um paciente e sua família, participamos muito de perto do processo de despedida. Nós os vemos organizarem seus bens materiais, a conta no banco, as procurações necessárias, seus testamentos. Vemos sua preocupação com os filhos (pequenos ou não), com os animais de estimação, com a viagem que estava planejada há tantos meses, com os pais velhinhos que terão que prosseguir sem sua ajuda. O processo é sempre cheio de reflexões. Sobre o que importa, sobre qual o legado que querem deixar, sobre o motivo de sua existência até ali. E é sempre tão complexo quanto surpreendente assistir às atitudes e decisões tomadas por quem está lidando com a possibilidade de partir em pouco tempo. Faz com que nós, médicos, nos vejamos obrigados a refletir sobre nossas próprias vidas também, adotando um ponto de vista incomum para quem não está prestes a partir. Um ponto de vista difícil de encarar: o de que somos tão mortais quanto o paciente que está à nossa frente.

Cada história nos faz refletir num ponto de nossas vidas. Às vezes, nos pegamos refazendo nossas contas e planos financeiros para o futuro, buscando deixar tudo mais ou menos organizado para nossa família quando partirmos. Outras vezes, cancelamos projetos que não fazem o menor sentido para nossas vidas, nos quais nos embrenhamos apenas por força da vontade de outras pessoas. Ou então nos surpreendemos sentindo uma saudade quase brutal da mãe que não vemos há semanas, ou da irmã com quem só falamos por telefone: a perspectiva de nos afastar delas passa a doer agudamente no nosso coração.  Seja qual for o ponto frágil em que um paciente nos toca, é sempre difícil vê-los se despedindo. Mas para mim nenhuma situação é mais difícil de vivenciar do que a despedida daqueles que são profundamente apaixonados pela vida. A Marisa* era assim.

Marisa era médica, mas sua verdadeira vocação era a música. Cantava lindamente, e com sua voz conseguia tocar o coração das pessoas em segundos. Suas palavras eram sempre de gratidão pela vida que tinha, pelas bênçãos que carregava. Vivia rodeada de amigos, que lhe devotavam uma dedicação incondicional. A mesma dedicação que continuaram a ter quando ela adoeceu, com um câncer metastático terrível, que a deixou tão fraca que mal podia se levantar. Olhávamos para seu corpo magro e sem forças, mas só enxergávamos seu olhar.  Marisa tinha nos olhos uma saudade profunda da sua própria vida. Sabia que tinha que partir, e não tinha medo. O que sentia era pena. Pena de ter que partir no melhor da festa. Pena por ter que abandonar projetos que a faziam pulsar de empolgação. Pena por ser impedida de fazer coisas tão simples quanto se alimentar ou dormir em sua própria cama.

Alguns dias antes de sua despedida final, Marisa cantou para nós. Escolheu a dedo a música, que combinava tanto com ela: “Sorri, quando a dor te torturar, e a saudade atormentar os teus dias tristonhos, vazios… Sorri, quando tudo terminar, quando nada mais restar do teu sonho encantador…” Foi assim, usando sua voz para nos dizer que amaria a vida até seus últimos segundos, que Marisa escolheu se despedir. Ela partiu poucos dias depois.

Ver alguém tão encantado com a vida ter que ir embora foi algo difícil de lidar. Talvez tenha sido minha própria paixão pela música, ou pelo fato dela ser médica como eu. Mas creio que não foi só isso. Todos esses anos acompanhando pacientes no final de suas vidas me forçaram a me encantar com a minha própria existência. Sinto que estou sendo abençoada quando minhas filhas me abraçam, quando sinto cheiro de chuva, quando escuto músicas que amo, quando me enrolo num cobertor felpudo. As despedidas dos outros me conectaram à minha própria vida de um jeito que, tenho certeza, Marisa compreenderia visceralmente.

Ao vê-la se despedir com tanto pesar por deixar a vida que amava, senti em mim o preço de construir nossa vida sobre valores que nos são caros, que fazem sentido para nós. Certamente vai doer – e muito – quando for eu a me despedir. Mesmo que eu não tenha dor física, mesmo que os médicos possam aliviar meu sofrimento e respeitar minha dignidade. Vai doer simplesmente porque a saudade sempre dói, principalmente a saudade de nós mesmos. E nessa hora espero que eu possa pensar, como tenho certeza que Marisa pensou: “Que sorte a minha ter uma vida que faz a despedida ser tão difícil.”

*nome fictício

10 de outubro de 2017
Ana Lucia Coradazzi

2 comments

A Resiliência e os Oncologistas

*texto escrito pelo Dr. Lucas Cantadori, médico hematologista em Botucatu/SP

A rotina de quem trabalha com câncer nunca é fácil. É quase impossível separar nossa vida pessoal da nossa profissão, dada a dependência que os pacientes tem dos nossos cuidados. Desde o diagnóstico adequado, passando pelos esclarecimentos frequentes, planejamento e execução terapêutica, manejo dos efeitos colaterais e seguimento pós-tratamento, muitas são as vezes que nosso apoio é necessitado. Com o passar do tempo, adquirimos habilidades variadas, como o raciocínio rápido e o cuidado com as palavras e linguagem corporal ao conversar com familiares; como a capacidade de adequação ao contexto único de cada paciente. É o que define uma das maiores habilidades do oncologista: a resiliência emocional e psicológica.

Resiliência, essa capacidade de assimilar as situações da vida e seguir em frente, é uma das coisas que mais admiro nos meus pacientes. Porém, é uma qualidade também muito frequente e pouco reconhecida na maioria de nós, oncologistas. Exigimo-nos conhecer cada novo estudo clínico – muitas vezes englobando populações totalmente diferentes das do nosso meio – e saber adequa-los à nossa prática diária, enquanto nos esforçamos para responder da melhor forma possível cada pergunta vinda das mais diversas perspectivas. A produção científica é estrondosa, rápida, volátil. A tecnologia caminha a passos largos e as opções terapêuticas se multiplicam. Mas, no final das contas, tudo se resume ao consultório médico, portas fechadas, paciente e familiares à nossa frente.

Quando penso em resiliência, sempre me recordo da metáfora do boxeador. Quem pratica lutas como boxe ou MMA conhece o conceito da absorção de golpes. Ter a capacidade de assimilar um choque sofrido é parte fundamental no confronto. É preciso saber apanhar. O lutador que recebe um gancho de direita absorverá bem ou mal o golpe sofrido. Ele pode ir a nocaute de imediato. Mas pode também cambalear e devolver a energia recebida sob a forma de um contra-ataque. “Absorver o golpe” é saber assimilar, levar a energia recebida para dentro de si, aprendendo durante o processo (a melhorar a esquiva, a altura da guarda, o momento do contra-ataque).

A resiliência de cada paciente é acompanhada pela resiliência de cada oncologista. Para nós este atributo é tão importante quanto a capacidade de reconhecê-lo fraco e desgastado, o que pode tornar nossa profissão perigosa. Ter este sexto sentido para detectar nossos momentos de fraqueza é fundamental para que possamos buscar meios de nos reerguermos e seguir em frente. Seja lendo um livro, assistindo um filme ou correndo uma maratona. Essa reflexão foi inspirada no artigo publicado pelo oncologista canadense Daniel Rayson há poucas semanas. Vale a pena traduzir alguns dos parágrafos finais, onde ele discorre sobre a história de uma conversa entre um filósofo e um oncologista: “O filósofo explicou que nós normalmente acordamos a cada manhã com um frasco cheio de compaixão. Com o passar do dia, essas gotas de compaixão serão espalhadas onde são necessitadas e – para a maior parte das pessoas – quando chegam em casa do trabalho ainda há uma quantidade significativa pronta para ser usada no dia seguinte. Porém, em relação aos oncologistas, todas as gotas são usadas ao longo de sua rotina de trabalho. No final do dia, só resta o frasco vazio. Às vezes, o frasco acaba antes mesmo do final do dia. E nós retornamos para casa, ávidos pelo silêncio das nossas famílias, e vamos dormir, vazios. Para muitos de nós, essa carreira pode ser perigosa. O perigo existe quando o peso das nossas palavras ameaça nos esmagar enquanto enchem a sala ao redor de nós e dos nossos pacientes.  Este não é um trabalho para os frágeis de coração, pobres de espírito ou fracos de psique. É importante que saibamos quando nossos frascos estão quase vazios…”

Leia o artigo de Daniel Rayson na íntegra em http://ascopubs.org/doi/full/10.1200/JCO.2017.73.9326

31 de agosto de 2017
Ana Lucia Coradazzi

5 comments

O Câncer de Cada Um

As consultas do professor sempre são muito tranquilas. Já com certa idade, aposentado da faculdade, e com anos suficientes para lamentar menos e agradecer mais, ele vinha convivendo com um câncer de próstata já há algum tempo, sempre com boa evolução e sem que a doença chegasse a atrapalhar sua vida. Na verdade, o câncer pouco participa das nossas conversas. Durante as consultas, dedicamos mais tempo a trocar impressões sobre o mundo, as pessoas, livros, a faculdade, ou qualquer outro assunto que venha a nos conectar. O câncer é um coadjuvante, quase como se não precisasse estar ali.

Foi justamente por vê-lo como alguém saudável, por raramente associá-lo à doença que habita seu corpo, que fiquei tão surpresa com nossa última conversa. Estávamos falando sobre os comportamentos das pessoas, sobre como palavras proferidas em momentos inoportunos podem causar dor e sofrimento. Foi no meio desse tema instigante que ele começou a me contar dos sentimentos conflitantes que o invadem quando escuta alguém usando a palavra “câncer” para classificar algo (ou alguém) como sendo o pior de tudo (ou de todos). Contou que, ao ouvir que “Fulano é um câncer na sociedade” ou “Cicrano é um câncer na vida dela”, seu coração se aperta. É como se colocassem dentro dele o que há de mais maligno na humanidade e no mundo, como se seu corpo fosse covardemente invadido pela escuridão. O fato é que ele não sente sua doença como algo tão ruim assim. Ao ouvi-lo falar, fiquei pensando nessa relação incrível que o professor, aproveitando toda a sua sabedoria, desenvolveu com uma doença com a qual terá que conviver para o resto de sua vida. Ele encara o câncer como uma parte dele que não deu muito certo, mas que ainda assim continua sendo parte do conjunto. Assim como uma mãe continua protegendo e amando um filho que comete erros (mesmo erros graves), ele mantinha uma relação de respeito, quase de “parceria”com a doença. A ponto de se sentir até um pouco ofendido ao ouvir alguém comparando sua doença a algo tão maligno ou cruel.

Num primeiro momento, ouvindo assim de relance, poderíamos pensar que o professor estava ficando um pouco demente. Talvez a idade já estivesse confundindo suas ideias, e ele tivesse perdido a capacidade de discernir o que é bom e o que é ruim, ou não fosse mais capaz de compreender que o câncer é uma condição com a qual devemos nos preocupar e até temer. Mas bastaria ouvi-lo mais alguns minutos para entender que seus sentimentos nada têm a ver com perda do juízo. Sua postura é uma expressão admirável, típica das pessoas resilientes, as quais, posso afirmar categoricamente, são justamente aquelas que conseguem lidar com o câncer da forma mais saudável possível. A resiliência é a pedra angular para o enfrentamento de uma doença complexa como o câncer. Trata-se da capacidade de enxergar a doença de uma forma menos dramática, mais objetiva, e livre de ressentimentos do tipo “Mas por que isso foi acontecer justo comigo?”. A resiliência é uma ferramenta poderosa para lidar com a adversidade.

Depois que ele saiu, fiquei pensando na nossa conversa por um longo tempo. Pensei no enorme tempo em que passei na faculdade, durante a graduação e a residência médica, encontrando todos os dias com professores como ele, ouvindo tanto sobre tantos assuntos. As centenas de livros e informações técnicas, as avaliações intermináveis para garantir que estávamos aptos a exercer a Medicina, que dominávamos todas as informações essenciais para cuidar das pessoas e de suas doenças, mas aprendendo tão pouco sobre como cada um lida com os desafios da vida. Fiquei me perguntando se haveria algo mais importante, na formação de um médico, do que entender como as pessoas enxergam suas doenças, e de que ferramentas dispõem para enfrentá-las. E olhando o ex-professor ali, expondo de forma tão sensata e tranquila o seu modo de lidar com tudo isso, só pude pensar no quanto todos somos professores uns dos outros, o tempo todo, em qualquer momento e lugar.