No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

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20 de setembro de 2018
Ana Lucia Coradazzi

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Para que?

Conheço a Eliza* há bastante tempo, pelo menos uns oito anos. Foi quando ela recebeu o diagnóstico de câncer de mama, foi operada e depois precisou de quimioterapia, sendo então encaminhada aos meus cuidados. Desde as primeiras consultas ela me encanta. Eliza entra no consultório já me abençoando, dizendo tantas coisas bonitas e emocionantes, sempre com seu sorriso doce enfeitando as palavras. Religiosa como só ela, muitas vezes me fez acreditar que havia um motivo divino para cada adversidade eu enfrentei na minha vida. E é essa fé inabalável, essa força que ela cultiva dentro da sua alma, que veio conduzindo sua vida nos muitos obstáculos que ela superou no decorrer desses anos todos.

Já tinham se passado mais de cinco anos da mastectomia quando sua doença resolveu voltar a dar o ar de sua graça, através de metástases nos seus ossos. Eu via nos seus olhos a apreensão, mas também via em seu sorriso a resignação de quem confia sua existência a algo (ou alguém) maior do que nós mesmos. Eliza participa ativamente do seu tratamento, pergunta tudo sobre a doença, sobre o tratamento, sobre as suas perspectivas. A cada progressão da doença (hoje ela está aprendendo a conviver com metástases no fígado), sua postura é sempre essa: ela está sempre guiando o barco, puxando para si mesma a responsabilidade de concluir cada tratamento, e lidar com a toxicidade das medicações. Mas sempre, em todas as consultas, sem nenhuma exceção sequer, Eliza ocupa os minutos finais deixando claro o quanto ela confia em Deus e no destino que Ele reservou para ela. Não há nenhuma dúvida nos seus olhos, pelo contrário, eles se iluminam quando ela fala sobre a missão que ela tem a cumprir nesse mundo, e sobre o quanto ela é grata às parcerias que a ajudam no caminho, me incluindo carinhosamente nelas. Ela conduz o barco, mas quem determina a rota é Deus.

Essa semana ela veio me ver. O sorriso doce continua o mesmo de oito anos atrás, assim como seu velho hábito de terminar as consultas louvando ao seu Deus caridoso e protetor. E foi durante sua fala final que ela disse algo que me tocou o coração. “Quando eu penso nesse câncer e em todas os desafios pelos quais eu venho passando em todo esse tempo, eu não pergunto o porquê disso tudo. Eu pergunto para que. Eu sei que Ele quer que eu use essa experiência na minha missão, para espalhar o Seu amor às pessoas ao meu redor. Eu só preciso me lembrar disso a cada passo.” Eliza encheu meus olhos de lágrimas.

Como alguém que se vê enfrentando tantos desafios, tantas adversidades, encontra um significado tão sagrado em sua dor? Como ela consegue erguer o olhar acima do próprio sofrimento a ponto de enxergar não apenas aos outros, mas a um mundo inteiro, e enxergar a si mesmo como uma ferramenta necessária para algo maior? Muitas vezes ouvi pessoas desprezando o poder da fé. Muitas vezes ouvi que a fé é a muleta dos ignorantes, ou que é um sentimento inventado pelos covardes. Não é. A fé não passa nem perto disso. Ela é uma ferramenta poderosa, capaz de transformar vidas, amenizar o sofrimento, tornar uma existência sagrada. Não é para ser explicada, e sim para ser vivida. Mesmo quando não move montanhas.

Vendo Eliza se despedir, com tantas bênçãos que ela sempre deixa atrás de si, eu só conseguia pensar na sorte que eu tenho por participar da sua vida. Pelo tempo que Ele desejar.

*nome fictício para proteger a privacidade da paciente

31 de agosto de 2018
Ana Lucia Coradazzi

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I Encontro Paulista de Slowmedicine

 

Amanhã acontecerá em São Paulo o I Encontro Paulista de Slowmedicine. Uma medicina mais humana, sóbria e justa, que prioriza a parceria saudável entre médicos e seus pacientes. Um evento realmente incrível!

Para quem mora longe, haverá transmissão via web, basta fazer a inscrição e seguir as orientações para acesso!

Bem vindos!!!

27 de agosto de 2018
Ana Lucia Coradazzi

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Os Eucaliptos

Foi numa dessas conversas durante um café que um amigo me contou sobre como se desenvolvem os eucaliptos. Ele tinha lido um texto que descrevia por que motivo as florestas de eucaliptos no Brasil são conhecidas como “desertos verdes”. Os eucaliptos são árvores originárias da Oceania, principalmente da Austrália, mas seu cultivo rapidamente se espalhou pelo mundo devido à sua alta capacidade de adaptação a vários tipos de clima. As florestas são impressionantes de se ver, com lindas copas bem verdes e muito altas, e os característicos troncos longos e manchados, dos quais extraímos a celulose. Olhando assim, meio de relance, o primeiro impulso é estender uma rede ali mesmo, sob as árvores, e descansar sob sua sombra confortável. Mas, depois de algum tempo, começamos a ter a sensação de que algo está faltando por ali. Olhamos para cima, para os lados e, finalmente, para baixo, onde vemos… nada. Em volta dos eucaliptos, não crescem outras plantas. As substâncias químicas que resultam da decomposição das suas folhas acabam modificando o ambiente, impedindo que a floresta nativa se desenvolva. Eucaliptos não percebem as necessidades de luz, água ou nutrientes de outras plantas. É por isso que muitos estudiosos acreditam que as florestas de eucaliptos são uma ameaça à biodiversidade. Suas copas são frondosas e verdes, enquanto o solo ao seu redor é praticamente um deserto.

Achei essa história dos eucaliptos impressionante… Não pelos eucaliptos em si, visto que a Botânica nunca fez parte da minha vida e eu mal consigo manter vivas as flores do meu jardim. O que me chamou a atenção foi a incrível semelhança com pacientes que conheci no decorrer da minha vida. Algumas vezes, lidando com pessoas em sua fase final de vida, somos obrigados a nos deparar com uma imensa solidão. Vemos homens e mulheres cujos vínculos afetivos são tão frágeis que mal podemos notá-los. As visitas da família ou amigos em geral são poucas, ou então são cercadas de um clima de desconforto quase palpável. Não há beijos carinhosos ou abraços apertados. Com sorte, pegamos um gesto tímido de compaixão, daqueles que deixam dúvidas quanto à sua sinceridade… São pessoas que falharam brutalmente na criação de laços afetivos, porque nunca foram capazes de permitir que eles florescessem ao seu redor. Elas sufocaram os bons sentimentos das pessoas.

Não estou falando necessariamente daqueles que são maldosos ou mesmo cruéis com seu círculo de relacionamentos, pois esses terminam seus dias absolutamente sozinhos e nem eles próprios se surpreendem com isso. Falo aqui das pessoas que, em seu crescimento rumo ao topo, não conseguem enxergar as necessidades, forças, fraquezas ou talentos de quem está ao seu redor. Muitas vezes, não é por maldade. É por incapacidade. Em geral, elas encontram explicações totalmente plausíveis para sua insensibilidade: estão muito ocupadas, e seu trabalho ou função é tão importante que as pessoas terão que entender seu distanciamento. Estão sempre sobrecarregadas de tarefas que elas mesmas se impõem, inconscientemente fugindo da trabalhosa tarefa de cultivar seu entorno. Não sobra ar nem água para mais ninguém em volta delas. São eucaliptos, e nem sequer se dão conta disso.

É assim que, um belo dia, elas se vêem sozinhas e confusas, sem compreender como é que uma vida de tanto trabalho, tanta dedicação, tanto esforço, não gera afeto ou gratidão de volta. Às vezes, somente tarde demais elas enxergam que esses sentimentos não surgem automaticamente em resposta aos nossos atos, mesmo que os consideremos atos magnânimos. Eles precisam ser conquistados. Só oferecemos nosso tempo e nosso carinho a quem julgamos digno deles, e esse julgamento é fortemente influenciado pelas emoções que o outro provoca em cada um de nós. Se passarmos nossos dias causando desconforto, angústia e insegurança, sendo ingratos ou insensíveis aos esforços e talentos alheios, chegaremos aos nossos últimos dias com um enorme e árido deserto ao nosso redor. Seremos uma floresta de eucaliptos. E só.

“Nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas” (Cora Coralina)