No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

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3 de setembro de 2020
Ana Lucia Coradazzi

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E a pré-venda já abriu! (☺️)

“Talvez meu paciente não saiba nadar. Talvez ele esteja numa condição física tão ruim que, apenas de olhá-lo, sei que não conseguirá chegar ao outro lado. Nessa hora, precisarei ajudá-lo a tomar as decisões certas, para que ele não morra se debatendo desesperado no meio do rio gelado. Se ele decidir correr o risco, vou pegar minha canoa e atravessar do seu lado, orientando cada braçada. Estarei lado se ele não conseguir completar a travessia, e garantirei que sua despedida seja digna e tranquila. E, se ele quiser permanecer na margem, não tem problema. Ficarei com ele, fazendo companhia, até a noite chegar.”

(trecho do texto O Médico e o Rio)

 

Gente, lançamento será somente dia 18/09 (sexta-feira, às 19 h, no Canal do YouTube da Ophicina de Cuidados Paliativos), mas a pré-venda já está aberta!

Clique no link pré-venda do livro O Médico e o Rio e a gente envia o livro autografado pra você (com aquela dedicatória mais que especial!). Só não esqueça de especificar em nome de quem é a dedicatória (e se quiser que a gente escreva alguma coisa específica, é só dizer – será uma delícia pra nós!). 😊😊😊😊

 

20 de agosto de 2020
Ana Lucia Coradazzi

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Tem livro novo saindo do forno!

 

Está confirmado o lançamento do novo livro!!!

O LIVRO

 O Médico e o Rio é um livro de histórias reais. Mais que isso: é um livro sobre humanidade. Aqui você vai encontrar pessoas comuns cuja vida foi transformada pelo câncer e, de alguma maneira, precisaram reinventar seus caminhos, tornando única a sua existência. Alguns desses caminhos são de dor ou de mágoa; outros, de superação e coragem. Há resiliência e compaixão nestas páginas, assim como momentos de medo e de desesperança, gentileza e crueldade, generosidade e indiferença. Ao fim de cada relato, fica claro que todos vamos morrer da mesma forma que vivemos – tudo depende das escolhas que fazemos a cada dia. 

Eu e o Lucas buscamos dedicar a essas pessoas e suas histórias um olhar delicado e solidário, que reconhece suas forças e também suas fragilidades. Ao nos colocarmos como parceiros de nossos pacientes durante a travessia do “rio” da vida, eles nos revelam todo o encantamento e a complexidade da natureza humana. 

O LANÇAMENTO

O lançamento, infelizmente, terá que ser virtual (pelo canal da Ophicina no YouTube) por causa da pandemia, mas o carinho será o mesmo.

O livro já está em pré-venda (entre no site da Ophicina de Cuidados Paliativos clicando aqui para comprar). Quem comprar na pré-venda vai receber autografado por nós dois (Ah! Se quiser um autógrafo bem especial mesmo, pode colocar observações pra gente quando encomendar o livro! A gente ama saber mais sobre quem está do outro lado das páginas!).

Esperamos vocês pra bater papo dia 18/09!

Abraços!!

7 de julho de 2020
Ana Lucia Coradazzi

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Os ecos do corredor

Os corredores andam mais vazios ultimamente… Aquele ambiente de entra-e-sai, de vai-e-vem, de abre-e-fecha tem ficado encolhido com o distanciamento social imposto pela pandemia. Poucos meses atrás, encontrávamos todo mundo por ali. Colegas médicos para discutir casos, enfermeiros para passar alguma informação importante, a equipe da farmácia, a da faxina, a assistente social. Bastava andar pelo corredor por alguns poucos minutos para cruzar com quem quiséssemos para resolver um problema ou trocar uma ideia. Mas acho que o mais gostoso do corredor é cruzar, o tempo todo, com nossos próprios pacientes. E esses continuam por lá.

Às vezes, o encontro com eles se concretiza apenas pela troca de olhares. Em outros momentos, um sorriso dá o ar de sua graça. “Bom dia, doutora!”, e um aceno de cabeça. “Bom dia, Seu Mário!”, aceno devolvido. No corredor a gente os vê de outro jeito, diferente de como são no consultório, restritos pelas paredes e atentos ao médico que está falando. No corredor eles são eles mesmos. Um senhor se encosta no ombro da filha, apoiando a cabeça cansada, enquanto aguardam o chamado para a quimioterapia. Um outro, um pouco mais novo, mata avidamente a própria fome, enlaçando os talheres de plástico com os dedos e amassando a marmita de alumínio recheada, dividindo com o filho cada pedacinho de carne. Uma senhora se preocupa com os farelos que o marido deixa cair no chão, catando cada migalhinha num guardanapo de papel para jogar no lixo ali em frente. E ali, logo ao lado do lixo, um filho se apressa em arrumar a meia da mãe, que estava enrolada no tornozelo, deixando a pele dela exposta ao frio. No corredor, vínculos de afeto se espalham por cada palmo do chão.

No corredor tem uma solidariedade que não tem tamanho. Tem a moça de pouco mais de trinta anos, lencinho na cabeça, acalmando a paciente ao lado, que enfrentaria sua primeira sessão de quimioterapia. “Fica tranquila, não é nenhum bicho-de-sete-cabeças.” Tem o senhor simplório, sem os dois dentes da frente, oferecendo um limão ao outro porque “se puser ele no nariz, você não sente o cheiro da ‘química’, aí o estômago não ‘embruia’ muito.” Tem a mãe da menina magrelinha, em tratamento de leucemia, que oferece à outra mãe dois pacotes de bolacha. “Para o caso de vocês sentirem fome no caminho para casa.” No corredor sempre tem alguém para ajudar você.

Lá também tem tristeza. Tem a esposa chorando abraçada com o marido, depois de uma conversa tão difícil com o médico que dava para ouvir seu coração se partindo. Tem o senhor magrinho na maca, alheio ao mundo por causa de um grave tumor cerebral, sem poder entender de quem são as mãos afagando as suas. E tem também a filha dele, dona das mãos carinhosas, e seu olhar perdido que não consegue mais encontrar os olhos do pai. No corredor, a tristeza se senta sem constrangimento pelas cadeiras, sem nem pedir licença.

Mas é ali, andando com nossos passos quase sempre apressados, que somos chamados à realidade, e nos lembramos das pessoas por trás das doenças. É ali que vemos a realidade única de cada um que passa pelos nossos consultórios, em toda a sua dor e com toda a sua força. Eles ganham colorido, seja em cores leves e vibrantes, ou em tons tristes e cinzentos. Mas invisíveis eles nunca ficam. Eles nos olham ao passarmos, e não há como ficar indiferente aos seus olhares. E enquanto vamos nos afastando, já escutando o eco dos nossos próprios passos, sentimos os tais olhares por trás de nós, cheios de admiração, de respeito, de esperança, de gratidão. Às vezes, ouvimos uma voz ecoando atrás de nós. “Olha lá, filha, aquela é a minha doutora.” Outras vezes, é apenas um sussurro. “Shhhh, olha a médica aí.” Mas não se sai ileso dali. O corredor nos obriga a prestar atenção em nossos próprios passos. Não os que fazem barulho no chão, mas os que percorremos na vida.

 

25 de maio de 2020
Ana Lucia Coradazzi

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(Ir)racionalidades

Setenta e oito anos. Essa era a idade do Seu Oscar* quando seus dias, finalmente, se encerraram por aqui. Infelizmente, não foi o final que ele tinha imaginado para si, ou mesmo para sua família. Há dois anos Seu Oscar tinha recebido o diagnóstico de câncer de pulmão, bem avançado. Nesse tempo, entre um tratamento e outro, entre melhoras e pioras, muitos pensamentos lhe tinham passado pela cabeça, já coroada de cabelos brancos. Seu Oscar era um homem prático. Mesmo sem muita instrução, montou seu próprio negócio (ele vendia peças para carros) e com ele ofereceu uma vida confortável para a esposa e os dois filhos. Enérgico e exigente, participou de cada momento decisivo desde o diagnóstico da doença, e dizia que o adoecer o tinha deixado com o coração mole. Seu Oscar sabia que não havia perspectiva de cura. Sabia que o tratamento tinha a intenção de melhorar sua qualidade de vida e, com alguma sorte, lhe daria um tempo a mais com os netos. Mais de uma vez, tinha me perguntado como seria no final. Se teria dor. Se teria falta de ar. Se o sofrimento seria muito intenso. Falava sobre não ver sentido em receber suporte ventilatório nos seus momentos finais, e sobre o horror que lhe parecia a morte cercada de monitores, tubos e barulhos numa UTI. E foi com alívio que me ouviu dizer que, caso sua falta de ar estivesse causando muito sofrimento e não pudéssemos controlá-la, ele poderia ser sedado até que sua hora de ir chegasse. Falava (muito) sobre seu desejo de estar com a família até esse último suspiro. E, ao mesmo tempo em que pensava no que viria pela frente para si mesmo, organizava o que viria pela frente para sua família. Pragmático que era, organizou seus bens, suas senhas de banco, o seguro de vida. Conversou com os dois filhos sobre como gostaria que cuidassem de sua esposa, também já idosa e com problemas de saúde. Quando a doença mostrou estar tomando o controle da situação, Seu Oscar estava pronto.

Mas, nos dias incertos (e insanos) de hoje, “estar pronto” já não basta. Foi no meio da irracionalidade provocada pela pandemia de coronavírus que o câncer de Seu Oscar decidiu derrotá-lo. Começou com a piora da fadiga e com a falta completa de apetite. A perda de peso. Um pouco mais de dor nas costas. Por fim, a piora da falta de ar. Foram três semanas assim, controlando a dor num dia, ajustando medicamentos para a falta de ar no outro, providenciando suporte de oxigênio em casa, adaptando a posição da cama. Mas, numa manhã de sol, a sensação de sufocação era grande demais, e todos entenderam que Seu Oscar estava perto de ir embora. Ele foi levado ao hospital pelo filho mais velho, com a intenção de ser sedado para que seus últimos momentos fossem dignos e tranquilos, com os filhos por perto e a esposa ao seu lado. O documento que tínhamos feito juntos, onde constavam suas decisões sobre recusar o suporte ventilatório, UTI ou outras medidas invasivas, foi levado com ele para que o médico de plantão pudesse compreender a situação e respeitar sua vontade. Mas, em tempos de pandemia, as coisas funcionam diferente. Em vez de ser avaliado pelo médico, Seu Oscar foi direto à triagem para pacientes em insuficiência respiratória. Uma enfermeira, devidamente paramentada e de quem só se podiam ver os olhos, explicou que o filho de Seu Oscar precisaria ir para casa, pois o risco de infecção por coronavírus era muito alto, e os protocolos eram rigorosos. O filho tentou (inutilmente) argumentar que a falta de ar do pai nada tinha a ver com o vírus, e que seus pulmões já vinham parando de funcionar há tempos por causa do câncer de pulmão. Estendeu para ela o documento com as diretivas de vontade de seu pai. Mas, antes que ele conseguisse terminar de falar, Seu Oscar já tinha sido levado ao isolamento. Pouco menos de meia hora depois, antes mesmo do filho me ligar, ele já tinha sido intubado e estava na UTI-coronavírus, isolado do mundo, onde permaneceu até seus últimos minutos, três dias depois. Sem abraços. Sem mãos dadas. Sem adeus. Sem nada.

Ouvir a história de Seu Oscar quebrou meu coração em centenas de pedaços. A violência de que ele foi vítima não cabe na minha alma. Justificativas como “qualquer quadro respiratório deve ser tratado como covid-19 devido ao risco” ou “a intubação não pode esperar porque aumenta a chance de disseminação do vírus” me parecem muito mais fruto do medo do que da razão. A medicina precisa, claro, ser baseada em dados científicos e protocolos de segurança, mas esses dados e esses protocolos precisam ser ajustados a cada situação. É nesse ajuste que está a arte médica. É ele que diferencia médicos e pacientes de máquinas e números. Em que momento nós, médicos, nos esquecemos de que um câncer de pulmão avançado quase que invariavelmente termina em insuficiência respiratória, e que isso nada tem a ver com estarmos ou não em meio a uma pandemia? Quando é que desaprendemos que pacientes com doenças terminais irreversíveis não têm indicação de suporte ventilatório e UTI, sob nenhum pretexto técnico, simplesmente porque sua situação não poderá ser revertida com esse tipo de suporte? Pior: quando é que passamos a ignorar os desejos expressos dos nossos pacientes, atropelando sua autonomia e seus valores mais sagrados? Quando é, afinal, que reduzimos a medicina a esse pouco que ela é hoje?

Essas perguntas martelavam meu cérebro enquanto eu ouvia o relato dos filhos do Seu Oscar. Eles falavam da sensação de impotência, e de se sentirem fracassados por não terem cumprido o desejo do pai. Falavam da dor pela ausência de despedidas dignas, de abraços, de estar perto nos últimos momentos. Do arrependimento de terem levado o pai ao hospital, e da ingenuidade de acharem que um papel assinado seria suficiente para que sua vontade fosse respeitada. “Papéis não valem nada por aqui”, disse o mais novo, os olhos no chão. Eu só conseguia pensar que papéis não deveriam valer nada mesmo. Não deveríamos nem mesmo precisar deles. Papéis só fazem sentido quando não podemos confiar plenamente uns nos outros. Servem para garantir que o combinado ali, nas nossas conversas do dia-a-dia, seja cumprido. Conversas que deveriam valer mais do que dois quilômetros de documentos registrados em cartório, e que deveriam prevalecer sobre protocolos genéricos (e, muitas vezes, incrivelmente mal desenhados). A pandemia (e o medo atrelado a ela) só trouxe à tona o que já vínhamos vivendo há muito tempo: a falta de confiança mútua. Pacientes com medo do sistema de saúde em que estão inseridos, familiares com medo de interpelar os médicos, médicos com medo de serem processados, e todos com medo de estarem totalmente sozinhos. E o medo, sempre ele, nos faz irracionais.

A pandemia vai passar. Pode demorar. As vítimas podem ser muitas, os medos certamente ainda serão enormes, e as irracionalidades que ainda assistiremos são imprevisíveis. Mas a história nos mostra que os momentos de maior irracionalidade da saga humana, como grandes guerras ou doenças que dizimam populações inteiras, são (quase) sempre seguidas de um salto de qualidade em nossa condição humana. Quando a lógica e a sensatez voltam à cena, nos vemos mais próximos e reflexivos, e nos tornamos capazes de efetivar as mudanças de que precisamos para seguir evoluindo em direção a uma espécie melhor do que somos hoje. Poderemos talvez entender, de uma vez por todas, que a medicina não é só técnica e também não é só arte: ela é a mistura indivisível e equilibrada das duas coisas. Caberá a nós sermos médicos melhores do que somos. Infelizmente, Seu Oscar não estará aqui para assistir. Muitos não estarão. E é por esses muitos que perdemos (e principalmente pelos que ainda perderemos) que nossa responsabilidade aumenta, a cada dia, a cada decisão que tomamos. Um passo de cada vez.

 

*nome fictício para preservar o paciente e sua família