No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

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31 de março de 2020
Ana Lucia Coradazzi

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Ciao, amore

Uma tristeza, profunda e sombria, invade meu coração quando ouço os relatos vindos da Europa, descrevendo corpos sendo “velados” em ringues de patinação no gelo, filas de caixões se acumulando pelas ruas e placas nas portas dos hospitais proibindo visitas de qualquer natureza. A sensação de que há algo muito errado nisso tudo não sai do meu peito. Não estou falando apenas da pandemia em si. Quanto mais ela se espalha pelo mundo, abalando suas bases e fazendo com que transformações inacreditáveis aconteçam em tempo recorde, mais penso em como a natureza sempre acha uma maneira de mostrar a que veio, e faz com que nos curvemos a ela. É trágico, doloroso e assustador, mas é o que a natureza é. O que me dói de verdade é ver o que fazemos com isso.

Há alguns anos fiquei encantada por um projeto de enfermeiras americanas que, tocadas com o número de pacientes que morriam sozinhos em hospitais, desenvolveram um programa voluntário chamado NODA (No One Dies Alone, ou Ninguém Morre Sozinho). É na verdade bastante simples: voluntários se revezam fazendo companhia a pessoas que estão vivendo seus últimos momentos e que não têm familiares ou amigos disponíveis para estar ali. Eles oferecem algo tão (ou mais) valioso que o cuidado da equipe de saúde em si: dignidade. Eu sempre me lembro da beleza do projeto NODA quando me deparo com pacientes sozinhos em seu leito de morte, e em geral conseguimos proporcionar alguma forma de companhia e atenção para que tenham de quem se despedir, mesmo que seja da própria equipe de saúde, que acaba se tornando sua família. A morte com companhia não é simplesmente uma morte. É o fim de uma história que valeu a pena ser contada.

Mas a COVID-19 parece ter atropelado essa percepção da sacralidade dos momentos finais. A imensa capacidade de contágio do vírus e os enormes estragos que ele pode fazer espalharam muito mais que uma doença: impregnaram as pessoas de medo. E o medo, sabemos bem, atropela a solidariedade, a compaixão e a dignidade com uma facilidade impressionante. Ele nos transforma em seres irracionais.

Num dos dolorosos relatos que vi, um senhor bastante idoso, aparentemente perto dos 80 anos, cujo emagrecimento denunciava a presença de alguma doença crônica em fase bem avançada, lutava para conseguir falar com a esposa, tão idosa quanto ele, através de um tablet. Os dois choravam, se despediam, tocavam os dedos através da tela luminosa, numa cena de quebrar o mais duro dos corações. Fiquei pensando nos anos que eles passaram cuidando um do outro, numa promessa (explícita ou não) de estarem juntos até o final. A esposa muito provavelmente era a responsável pelos cuidados que a doença de base do esposo vinha exigindo nos últimos meses ou até anos. Certamente ela estava com ele quando os sintomas da COVID-19 se iniciaram, e talvez tenha sido ela quem o levou pela primeira vez para avaliação médica, quando ele tinha apenas uma tosse seca, dor de garganta e uma febrinha, e os médicos a orientaram a levá-lo para casa e mantê-lo em isolamento, só retornando caso ele começasse a sentir falta de ar. Eu podia vê-la se esforçando para manter a casa impecavelmente limpa, esterilizando objetos e evitando contato desnecessário, fazendo todo o possível para isolá-lo, mas ao mesmo tempo beijando-o antes de dormir, como fez a vida toda, sem nem pensar no risco dela própria se contaminar. Por mais que se esforçasse, aquela senhora nunca aprendeu os princípios necessários para que a contaminação num caso desses não aconteça. Ela não compreende como o vírus flutua em gotículas de saliva e se deposita em superfícies, e por lá fica esperando alguém que o leve para infectar outro corpo. Ela não vê quando o tal bicho se acomoda em suas mãos e lábios e rosto, confortavelmente. E aí seu esposo piora, não consegue respirar, e precisa ir ao hospital. E os médicos lhe explicam que não poderão salvá-lo, porque as condições clínicas dele não permitiriam que ele saísse da UTI. E as enfermeiras dizem que ela não poderá ficar com ele nesses duros momentos finais, porque o risco de contaminação é alto e ela própria poderia morrer também… e mandam que ela vá para casa, prometendo que darão um jeito dela falar com o marido. E alguém traz um tablet e coloca nas mãos dele, e é tudo o que eles têm para se despedir. Sem beijos. Sem abraços. Sem palavras tranquilizadoras ao ouvido. Sem privacidade. Sem mais nada.

A cena do casal de idosos me doeu por um bom tempo. Eu buscava o que estava tão errado ali. O isolamento, obviamente, era uma medida de segurança necessária, não somente para a senhora mas também para todos os que entrariam em contato com ela após sua saída do hospital. A decisão de não levá-lo para uma UTI também parecia acertada, dada a condição clínica de óbvia fragilidade do paciente. E o tablet vinha como a medida caridosa que alguém arrumou para tentar minimizar o sofrimento dos dois e deixar a morte dele um pouco mais digna e um pouco menos solitária. Mas ainda assim eu não conseguia parar de pensar na lógica disso tudo, que me parecia um borrão por trás do medo. Para seguir os rigorosos protocolos que protegeriam centenas de milhares de pessoas, acreditamos que todos os passos preconizados realmente foram seguidos desde a primeira orientação da equipe de saúde. Acreditamos que a tal senhora conseguiu se manter distante do vírus durante os dias em que cuidou do esposo em casa. Que ela não esqueceu de lavar suas mãos uma única vez após tocá-lo, e não tirou a máscara dele nem mesmo por um minuto. Que não lhe deu nem sequer um beijo, um abraço. Não dividiu com ele uma bolacha, nem se sentou no mesmo sofá para assistir ao programa de TV preferido dos dois. Assustados e determinados, partimos do princípio que, ao impedir que ela permanecesse ao lado dele, estaríamos protegendo sua vida. Ingenuidade é algo que profissionais de saúde costumam cultivar em demasia em relação a seus pacientes…

É claro que ninguém que tenha um pouco de juízo e conhecimento científico – como eu acho que tenho – seria capaz de advogar pela quebra dos protocolos de isolamento e ignorar o impacto que eles têm na disseminação da doença e em sua letalidade. Mas nem só de juízo e conhecimento científico se faz um profissional de saúde. Precisamos, e muito, de bom senso e compaixão. É realmente um risco inaceitável permitir a permanência da companheira da vida toda no leito de morte do esposo doente? Ainda mais se considerarmos que a chance dela já estar contaminada pelo vírus é quase tão certa quanto dois e dois são quatro? E realmente não temos como garantir a segurança dela através de equipamentos de proteção, os mesmos que mantêm profissionais de saúde longe do vírus, para que ela possa ficar algumas horas ao lado dele, enchendo as vidas de ambos de dignidade?

Talvez eu esteja subestimando a realidade. Talvez a situação fosse tão crítica que as equipes não pudessem se dar ao luxo de pensar nesse tipo de estratégia, ou por não terem equipamentos de segurança disponíveis, ou pela falta de recursos humanos que auxiliassem a visita da senhora e sua permanência no quarto. Talvez tudo tenha acontecido tão rápido que um tablet foi tudo o que deu tempo de arrumar (e isso por si só já é louvável). Como tanto se diz por aí, é fácil ser o juiz no dia seguinte, ainda mais a quilômetros de distância. Não sei, não sei mesmo. Meu cérebro compreende, mas minha alma morre um pouco a cada dia. São histórias sem final, e não sei lidar com isso.

É um tempo de incertezas e tudo o que ouvimos é um talvez atrás do outro… Mas ainda assim não consigo deixar de pensar no quanto tantas despedidas, que aconteceram e ainda vão acontecer, poderiam ser diferentes. No quanto estamos despreparados para lidar com o imponderável, nos escondendo rapidamente atrás de protocolos e fluxogramas quando a coisa realmente aperta, e quando o coração dói de verdade. Dor mesmo. Porque tenho certeza de que a pessoa que trouxe o tablet fez isso por sentir seu coração quebrando bem ali, na porta do quarto dele. Despreparados que somos para lidar com as incertezas da vida e do mundo, buscamos a certeza dos números e das estatísticas. Assustados que ficamos com a perda de controle, procuramos nas máscaras e luvas a segurança que nossas almas precisam. Tudo tão certo, e tão errado ao mesmo tempo… como a Humanidade é.

30 de março de 2020
Ana Lucia Coradazzi

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Curar

(poema de Kathleen O’Meara, 1839-1888)

E as pessoas ficaram em casa
E leram livros e ouviram
E descansaram e se exercitaram
E fizeram arte e brincaram
E aprenderam novas maneiras de ser
E pararam
E ouviram fundo
Alguém meditou
Alguém orou
Alguém dançou
Alguém conheceu sua sombra
E as pessoas começaram a pensar de forma diferente
E pessoas se curaram
E na ausência de pessoas que viviam de maneiras ignorantes,
Perigosas, sem sentido e sem coração,
Até a Terra começou a se curar
E quando o perigo terminou
E as pessoas se encontraram
Lamentaram pelas pessoas mortas
E fizeram novas escolhas
E sonharam com novas visões
E criaram novos modos de vida
E curaram a Terra completamente.

10 de março de 2020
Ana Lucia Coradazzi

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Sobre estar lá

Os belos textos a seguir foram extraídos do ABC Life, página na qual pessoas contam suas experiências em lidar com a morte de parentes queridos, amigos especiais ou outras pessoas significativas em suas vidas.  Elas contam como foi “estar lá”. Falam de gratidão, de carinho, e de se sentirem abençoadas por poderem oferecer alívio. Falam desses momentos finais como presentes, em suas vidas e nas daqueles que estavam prestes a partir. Conexões que não podem ser explicadas. São para serem vivenciadas. É preciso, literalmente, estar lá.

“É uma verdadeira honra e um privilégio estar com uma pessoa que está terminando seus dias na Terra. Seja forte e tenha a coragem de dizer o que você precisa, diga adeus. Chore, ria, fique em silêncio, reze, respeite crenças culturais. O mais importante é simplesmente estar lá.”

(Shelley, com seus pacientes)

“Eu não me senti constrangido por estar lá durante a última respiração deles, ou em permanecer sentada ao seu lado após terem partido. Eu apenas senti que isso foi um dos maiores presentes que eu poderia dar a eles. Estar ali, oferecer conforto e mostrar o quanto eles foram amados até o fim de suas vidas.”

(Justine, com seus pais)

“Permanecer sentada com minha mãe quando ela morreu de câncer aos 62 anos e com meu pai quando ele faleceu aos 84 foram experiências gratificantes, por mais estranho que possa parecer. Estar com alguém que os amava trouxe conforto a eles. Ambos estavam receosos a respeito de estarem sozinhos e deixarem a família. Houve pouca conversa. Mas apenas um toque nas mãos, estar ali para oferecer um copo de água, servir uma colherada de iogurte, ou preparar uma xícara de chá era tudo o que eles precisavam. Para mim foi o último presente que eu pude dar a eles.”

(Joanne, com seus pais)