No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

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29 de setembro de 2019
Ana Lucia Coradazzi

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Raiva

*texto do Dr. Lucas Cantadori, médico hematologista

 

Raiva é uma reação muito comum frente a situações adversas que resultam em dor e sofrimento, sendo um sentimento frequentemente demonstrado por pacientes oncológicos. Cabe ao médico explorá-la, aceitá-la e adaptar a comunicação de modo a estabelecer um vínculo e conduzir o doente no enfrentamento de suas frustrações. Mas nem sempre isso é fácil, e algumas vezes o desafio beira o impossível.

Foi o caso de um paciente de 60 anos portador de um linfoma recidivado que já havia sido tratado por três hematologistas diferentes antes de mim. Segundo ele, todos os médicos eram incompetentes. Ele e sua esposa sempre agiam de tal forma que parecesse que eu era o fator causador e agravador de sua doença. Todas as minhas condutas eram questionadas, criticadas e menosprezadas. Cada período de internação era um martírio para toda a equipe. Por mais que eu me desdobrasse, nada era suficiente para acalentar seu sofrimento e tudo era motivo para as mais variadas reclamações: a enfermagem demorava para atendê-lo e não o medicava adequadamente, eu demorava para chegar e não dava a atenção devida, a estrutura hospitalar era péssima, o quarto era muito frio, a comida era muito ruim. A esposa reclamava do transtorno de ter de cuidar do marido e abrir mão de suas atividades habituais. Enfim, nada era bom o bastante. Há alguns meses eu havia desistido de fazê-lo aceitar sua condição, e me concentrava na difícil tarefa de não deixar despertar em mim um sentimento de repulsa que poderia me fazer desistir e decidir encaminhá-lo para outro médico.

O tempo passou e sua doença evoluiu de forma refratária, esgotando todas as possibilidades terapêuticas. Ele já se recusava a vir às consultas e exigia que o atendêssemos em sua casa, onde o clima se mantinha permanentemente pesado, não faltando ofensas direcionadas aos cuidadores, esposa e filhos. Sua condição clínica foi piorando progressivamente, e então recebi uma ligação da esposa para informar que ele estava aparentemente morrendo e que ela se recusava a levá-lo ao hospital.

Por um instante pensei em dizer que não havia opção, pois eu não estava disponível para atendê-los naquele momento. Caso quisessem assistência, a única saída seria ligar para o serviço de emergência e procurar o hospital. Chega de exceções, eu não iria mais condescender com suas atitudes.
Todavia, eu sabia que se ele fosse ao hospital, morreria sob as condições que mais criticava e odiava. Se não fosse, talvez morresse em situação de sofrimento em casa. Desmarquei meus compromissos e fui até sua residência.

Sua esposa me recebeu no portão e permitiu que eu entrasse para avaliá-lo. Muito abatida, ela me disse que na noite anterior ele havia iniciado um estado de desorientação e agora estava pouco contactante. Me levou até o quarto, onde o vi torporoso, com os olhos vidrados, não responsivo a comandos e com padrão respiratório pouco efetivo, além de muito gemente. Pedi ajuda para virá-lo e ela chamou um dos filhos. O rapaz não tinha mais do que 20 anos, estava dormindo e veio se arrastando, com uma careta meio infantil. Virou o pai na cama como se estivesse mudando um móvel de lugar.
Expliquei acerca da fase em que ele encontrava, as poucas horas de vida que tinha e a necessidade de conforto sedativo, algo que eu poderia implementar ali mesmo, dada a expressa recusa da família a procurar o ambiente hospitalar pois – segundo eles – a estrutura seria falha e pouco eficaz. Iniciei a aplicação intermitente do sedativo e vi que a filha havia aparecido, com os braços cruzados timidamente em um canto do quarto. O paciente parou de gemer, mantendo a respiração superficial. Expliquei aos familiares que o processo duraria pouco tempo e que eu daria espaço pra eles, mas que estaria no cômodo ao lado caso precisassem.
Talvez pelo fato de agora não haver mais a preocupação com estrutura de hospital, com a pontualidade do médico atendente, com a eventual demora da enfermagem para responder aos constantes chamados. Talvez pelo conforto de estar em casa apenas marido, esposa e filhos. Ou talvez pela antecipação de que o sofrimento (e o trabalho extra por ele gerado) acabaria, houve um breve e sublime momento em que o afeto reapareceu.
A filha sentou-se ao seu lado, segurando a mão direita do pai. O outro manteve-se ajoelhado e chorando agarrado a seus pés. A esposa na cama abraçando-o. Sem amor dissimulado, mas um sentimento real, talvez até mais por lembrança de algo que já foi concreto um dia.
Assim ele morreu. Saí por uns minutos e voltei com o atestado de óbito preenchido enquanto o serviço funerário já se preparava pra levar o corpo. Deixei lá uma família triste (em vários sentidos) porém mais leve, aliviada e muito grata pelos cuidados recebidos.

Ao decidir relevar as críticas e aceitar os controversos sentimentos e atitudes tanto do paciente quanto dos familiares, centralizando em mim a responsabilidade naquele momento difícil, por um breve período vi dissipar-se do ambiente todos os entraves que atrapalhavam suas relações interpessoais. Livre das impurezas, o solo daquela casa voltou a ser fértil para um breve e fugaz renascer do amor.

No best seller O Físico, Noah Gordon escreve que apesar de tudo o que um médico pode fazer, ele nada mais é do que uma folha ao vento. Sim, uma folha ao vento guiada pelos desígnios de Deus ou pela aleatoriedade do universo – a depender do rol que compõe suas crenças. Sua vida pode ser dedicada a solucionar ou aceitar essa limitação, mas deve – obrigatoriamente – ser uma jornada pavimentada por humildade, respeito e empatia pelo doente. Medicina (ainda) não pressupõe a extirpação de todos os males, tampouco a resolução de todas as incertezas. A arte da cura permanece como um leque de mil nuances, mas que dá ao médico o grande poder de ser guardião da dignidade de seus pacientes. E isso é sagrado.

16 de setembro de 2019
Ana Lucia Coradazzi

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O Sorriso Mais Lindo do Mundo

Gisele* tinha 34 anos (apenas 34!) quando a conheci. Chegou acompanhada do esposo, Maicon*, com uma história nada fácil para contar. Eles se conheciam há muitos anos, numa relação de parceria que englobava vários aspectos de suas vidas. O que começou com uma amizade de quase uma década acabou virando namoro, e poucos meses depois eles decidiram se casar e iniciar uma família (ambos queriam muito ter filhos). Apenas quatro meses tinham se passado desde o casamento quando Gisele acordou com a mama direita inchada e vermelha, e buscou avaliação médica. Foi quando o diagnóstico do câncer de mama caiu em seu colo, como uma bomba atômica, arremessando seus planos para todos os lados. O enorme medo da possibilidade de não poderem ter filhos após o tratamento oncológico levou os dois a se engajarem em procedimentos para congelamento dos óvulos dela, pensando numa possível fertilização in vitro no futuro, o que incluiu a administração de hormônios e diversos exames, enquanto o nódulo da mama continuava crescendo. Foi no meio desse caos que ela veio me procurar.

A primeira coisa que vi quando Gisele entrou no consultório foi seu sorriso, e toda a doçura que o tal sorriso deixava transparecer. As mãos entrelaçadas com o marido denunciavam sua preocupação, assim como seu olhar um tanto assustado. Mas o sorriso dela parecia ter sido desenhado para dissolver a tensão, qualquer que fosse o motivo. Logo na primeira consulta percebi o quanto seria especial cuidar dela… e também o quanto seria difícil. Os exames solicitados pelo mastologista mostravam a possibilidade de metástases no fígado, o que comprometeria definitivamente a vida deles. Mas Gisele ainda não sabia disso. Fiquei ali sentada, ouvindo os dois falarem sobre como o sonho de serem pais teria que ser adiado, e como estavam preparados para postergar seus planos em nome da saúde dela. Vi os dois trocarem olhares de cumplicidade, e notei o jeito carinhoso com que Maicon falava com ela. Foi impossível para mim, naquele primeiro encontro, falar tudo o que imaginei que viria pela frente… Pedi os exames que estavam faltando e rezei para que as metástases no fígado não se confirmassem.

Infelizmente, minhas preces não foram atendidas, e quando Gisele voltou as notícias que eu tinha para ela não eram nada boas. A doença já tinha comprometido tanto o fígado quanto os linfonodos no mediastino dela, o que significava que as chances de cura eram remotas. Além disso, era o ponto final dos seus planos de ser mãe. Lembro bem desse dia. Da minha angústia vendo os exames antes da consulta. Lembro da minha boca seca, e também de ter feito mais uma prece, dessa vez para que alguém iluminasse minhas palavras. Decidi dar um passo de cada vez. Falei sobre as lesões no fígado, a necessidade da quimioterapia, as boas chances de melhora, apesar de não haver possibilidade realista de cura. Gisele e Maicon choraram muito comigo no consultório. Lágrimas de tristeza, de decepção, de medo… mas também de gratidão por estarem juntos. Para cada má notícia, vinha uma palavra de apoio (de um lado e do outro). Para cada momento de medo, vinha um gesto de carinho. Um passo de cada vez.

Já se passaram mais de 3 anos desde esse dia. O percurso até aqui não tem sido fácil, para nenhum de nós, mas a cada passo do caminho minha admiração por eles se expande. Foram inúmeros os atos de coragem dos dois durante esse tempo. Vi a força dela quando conversamos sobre a necessidade de retirar os ovários como parte do tratamento, o que significaria encerrar em definitivo a possibilidade de uma gravidez. Vi seu desespero quando foram diagnosticadas metástases no cérebro, mas também a vi respirando fundo para enfrentar mais esse obstáculo, e seja o que Deus quiser. Eu estava lá quando decidimos fazer uma cirurgia na mama, único sítio ativo da doença após alguns meses de tratamento, e também estava lá quando uma complicação da cirurgia a levou às pressas de volta para o centro cirúrgico, para desespero do Maicon. Vi inúmeras vezes o medo, a incerteza, a ansiedade nos olhos dos dois. Mas nunca, nem uma vez sequer, deixei de ver o sorriso dela. Às vezes mais tímido, às vezes receoso, muitas vezes com pitadas de tristeza, mas era aquele mesmo sorriso, com aquela mesma doçura. Também vi de perto a generosidade dela, manifestada na preocupação com o risco da irmã também desenvolver a doença. Aprendi com a Gi o quanto podemos preservar o que temos de melhor, mesmo em meio ao caos e à escuridão (e como ela é boa nisso!). E aprendi com o Maicon o quanto podemos fazer aflorar o melhor do outro, simplesmente por nos mantermos ao lado, haja o que houver. Tem gente que chama isso – vejam só! – de amor.

Hoje a Gi está muito bem. Segue em tratamento, a doença está sob controle, e isso significa que este é um ótimo momento para celebrar. Eles, tão jovens que são, já sabem muito bem disso. Exposição de motos? Vamos lá! Show do Capital Inicial? Opa, claro! Tomar um chope (ou vários) com os amigos? Demorou! E é assim, vivendo um dia de cada vez, agradecendo o que temos hoje para poder enfrentar o que quer que aconteça amanhã, que se desenha uma vida plena apesar das limitações que ela às vezes nos impõe. E, claro, ter o sorriso mais lindo do mundo pregado no rosto sempre ajuda.

*a publicação dos nomes reais e das fotos foi autorizada pela Gisele, que inclusive corrigiu detalhes da história dos quais eu não me lembrava mais (não falei que ela é incrível?)

Cuidados Paliativos: diretrizes para melhores práticas (o curso)

20 de agosto de 2019


Estão abertas as inscrições para um curso construído com muito carinho. Em formato “pocket” (8 horas de aulas e discussões) e contando com vários autores do livro Cuidados Paliativos: Diretrizes para Melhores Práticas, é uma oportunidade e tanto para compartilhar experiências e conhecimentos em Cuidados Paliativos. Vale a pena dar uma olhadinha!

Mais informações no link Ophicina de Cuidados Paliativos