No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

12 de abril de 2015
Ana Lucia Coradazzi

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O que são Cuidados Paliativos, afinal?

Logo que inauguramos nossa Unidade de Controle da Dor e Cuidados Paliativos, em 2008, nos deparamos com uma grande dificuldade: o enorme preconceito dos pacientes e colegas médicos a respeito do que era feito ali, naquele final do corredor. Nós já tínhamos sido alertados disso, tanto que incluímos o “Controle da Dor” no nome da Unidade na tentativa de minimizar o impacto. Mas o conceito de que éramos “o lugar para onde mandavam as pessoas que iam morrer” era ainda mais arraigado do que imaginávamos.

Era frequente recebermos pedidos de avaliação “urgentes”, que precisavam ser vistos no máximo até a hora do almoço, porque se demorássemos mais que isso o paciente já teria morrido. De fato, boa parte dos pacientes nem chegava a ser avaliado pela nossa equipe. Também não era incomum um paciente ou familiar recusar a transferência para nossa Unidade, com medo de sofrer eutanásia ou algo do tipo.

Foi necessário muito tempo e paciência para que tanto os colegas quanto os pacientes compreendessem como uma equipe de Cuidados Paliativos trabalha. Até o ponto em que estamos hoje, quando recebemos pacientes antes mesmo da confirmação diagnóstica, com o objetivo de controlarmos seus sintomas e darmos eventuais más notícias de forma mais adequada, e só então encaminhá-los para tratamento oncológico. Com respeito, apoio e carinho. Como deve ser.

Cuidados paliativos são as abordagens ou tratamentos que melhoram a qualidade de vida dos pacientes e seus familiares quando se vêem diante de uma doença que ameaça sua vida, ou a comprometa de alguma forma. O alívio do sofrimento, a compaixão pelo doente e seus familiares, o controle impecável dos sintomas e da dor, a busca pela autonomia e pela manutenção de uma vida ativa enquanto ela durar são alguns dos princípios dos Cuidados Paliativos que, finalmente, começam a ser reconhecidos em todas as esferas da sociedade brasileira. Para tanto, é necessário abordar o paciente em todas as esferas que fazem parte dele: física, social, emocional e espiritual.

O tratamento em Cuidados Paliativos deve reunir as habilidades de uma equipe multiprofissional para ajudar o paciente a adaptar-se às mudanças de vida impostas pela doença, e promover a reflexão necessária para o enfrentamento desta condição de ameaça à vida para pacientes e familiares.
Para este trabalho ser realizado é necessário uma equipe mínima, composta por: um médico, uma enfermeira, uma psicóloga, uma assistente social e pelo menos um profissional da área da reabilitação (a ser definido conforme a necessidade do paciente). Todos, é claro, devidamente treinados na filosofia e prática da paliação.

Portanto, “paliativo” está longe de significar “gambiarra”, como muitos pensam. Também não tem nada a ver com “tratamento que não serve para nada”. Pelo contrário, quem faz Cuidados Paliativos tem que saber muito bem o que está fazendo, pois lida com pessoas já muito fragilizadas e debilitadas, que não merecem perder seu tempo com procedimentos inúteis ou até dolorosos. Paliar significa aliviar, apoiar, esclarecer, confiar. Significa aceitar o outro da forma como ele é, compreendendo suas limitações e necessidades. Cuidar, em seu mais amplo e belo sentido.

Alzheimer 3

 

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