No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

23 de agosto de 2015
Ana Lucia Coradazzi

7 comments

Os Três Lados da Moeda

Mãe com câncer e filhaQuando converso com colegas envolvidos com cuidados paliativos, em qualquer área, ouço a mesma queixa na quase totalidade dos casos: os pacientes são encaminhados para nós tardiamente (às vezes poucas horas antes do óbito), e com informações confusas sobre sua doença e seu prognóstico. Muitos revelam grande expectativa de cura e de recuperação de suas antigas vidas. Os relatos dos colegas são quase sempre permeados por uma mistura de decepção, cansaço e até irritação. Conversas pouco realistas ocorridas com os colegas que assistiram o paciente desde o início passam a ter seus efeitos maléficos no momento em que as coisas começam a ir mal, e é nesse ponto delicado que muitos médicos entendem que o paliativista tem seu papel. Paliativistas estão com suas agendas cheias de pacientes que, mesmo com um câncer avançado e após uma infinidade de linhas de tratamento que não funcionaram, chegam com a angustiante pergunta: “E agora, doutor? Como nós vamos fazer para me livrar dessa doença? Meu médico disse que agora é com o senhor”. Desfazer os mal-entendidos e reajustar as expectativas do paciente à sua realidade é um trabalho árduo, complexo e cansativo, ao qual infelizmente médicos paliativistas acabaram se habituando. A verdade é que seria muito mais eficaz e produtivo se médicos e pacientes conseguissem estabelecer uma comunicação eficaz e sincera desde o início da doença, e se a abordagem por uma equipe de cuidados paliativos fosse realizada precocemente. Isso ficou ainda mais claro para mim quando conheci Maria Clara.

Eu a atendi pela primeira vez numa sexta-feira à tarde, como um “encaixe”, a pedido de um colega cirurgião, que a tinha consultado naquela manhã. Ela tinha apenas 35 anos, dois filhos pequenos e um câncer gástrico avançado, já com comprometimento do peritôneo e, portanto, incurável. Ao ler o encaminhamento do colega, ficou evidente para mim a angústia dele para que eu a visse no mesmo dia. Respirei bem fundo antes de chamá-la e me preparei para momentos difíceis. Imaginei como seria receber a notícia de uma doença incurável tendo duas crianças em casa (como eu mesma tenho), e pensei em algumas frases que eu poderia utilizar. Eu tinha certeza de que as más notícias sairiam da minha boca em primeira mão. Em geral, cirurgiões têm ainda mais dificuldade que clínicos para explicar o mau prognóstico de uma doença grave. Mas Maria Clara me fez repensar meus paradigmas. Entrou no consultório acompanhada do marido e, embora os dois estivessem tranquilos, os olhos avermelhados denunciavam o choro recente. Perguntei o que tinha acontecido para que eles estivessem ali, e o relato dela foi impressionante.

Maria Clara me contou em detalhes o início dos seus sintomas, alguns meses antes, e como uma endoscopia tinha mostrado uma “úlcera” em seu estômago. Disse que o endoscopista tinha orientado que procurasse o colega cirurgião “mais por precaução”, e que ela acabou marcando a consulta com ele sem nem imaginar que seu diagnóstico era bem mais sério. Descreveu como a consulta, naquela manhã, tinha mudado sua vida. Falou da forma delicada e clara como o colega cirurgião tinha explicado que ela tinha câncer e que infelizmente não seria possível operá-la, porque a doença já tinha se espalhado por dentro do abdome. Falou sobre o longo tempo em que ficou com ele, e de como ele segurou suas mãos quando ela começou a chorar. Repetiu as palavras dele sobre como ela poderia lidar com isso dali para frente, dizendo que a única coisa que mudaria era o fato de ela ter mais consciência da possibilidade de morrer do que antes, mas que na verdade todos nós deveríamos ter essa consciência, pois a chance de morrermos em breve não tem nada a ver com estarmos ou não doentes. Ele sugeriu que ela conversasse abertamente com o marido sobre a possibilidade de sua ausência, sobre como ela gostaria que os filhos fossem criados e como a situação financeira deles poderia ser conduzida depois que ela se fosse. E demonstrou uma empatia surpreendente, dizendo que ele próprio já tinha tido esse tipo de conversa com a esposa, pois também tinha filhos pequenos e tinha plena consciência de que nenhum de nós tem o poder de adivinhar quando será nosso fim.

Mãe com câncer e bebêAs palavras dela, descrevendo a forma como tinha recebido a pior notícia de sua vida, foram para mim como uma bela música. Sua serenidade, apesar da clareza que tinha sobre sua situação grave, era comovente. É claro que, em parte, isso se devia à própria personalidade dela, uma mulher forte e corajosa. Mas a sensação de ter sido acolhida e de ter tido sua dignidade preservada pelo colega certamente foi a principal responsável por sua reação. Quando ela me perguntou quando começaríamos a quimioterapia, não havia nela nenhum sinal de expectativa irreal. Ela deixava claro que compreendia que o tratamento tinha o objetivo de preservar sua qualidade de vida e sua autonomia pelo maior tempo que fosse possível, e se sentia grata por ter tempo de organizar sua vida – e a de seus filhos – antes de partir. Ela saiu do consultório, uma lágrima desceu pelo meu rosto.

Pouco mais tarde encontrei o colega cirurgião, que imediatamente me perguntou se eu tinha conseguido ver Maria Clara. Ouvi então a versão dele sobre a consulta, e a descrição emocionada de como o caso dela tinha abalado seu dia, deixando-o emocionalmente exausto. Ele falou sobre a angústia de ter que destruir as expectativas e planos de uma mãe tão jovem, e confessou o enorme esforço que teve que fazer para resistir à vontade de dizer algo como: “Fique tranquila, você nem vai precisar de cirurgia! Só com quimioterapia já vai ser suficiente.” Isso o livraria do incômodo papel de portador de uma bomba na vida dela, mas elevaria as expectativas dela a um nível difícil de controlar depois. Disse que Maria Clara o tinha feito repensar mais uma vez sua vida, sua relação com a esposa e os filhos, as prioridades que vinha adotando em sua vida. Aproveitei para dizer a ele o quanto tinha valido a pena o esforço. Imagino o quanto lhe custou falar sobre coisas com as quais um cirurgião não costuma lidar. Acostumada que estou a acessar sempre apenas duas versões (a minha e a do paciente), essa foi uma das raras ocasiões em que pude enxergar o terceiro lado da moeda. Pude ver o sofrimento por trás da tarefa de dar uma notícia terrível a alguém, em primeira mão, coisa incomum para nós oncologistas (em geral, os pacientes chegam sabendo pelo menos seu diagnóstico). Mas também pude entender o quanto uma comunicação eficaz, realizada de forma adequada e delicada, pode impactar positivamente na vida de um paciente. E transformar a vida de um médico para sempre.

Mãe com câncer e filha b & p

 

7 thoughts on “Os Três Lados da Moeda

  1. Adorei seu jeito leve e suave de contar uma história täo triste. É por isso que te quero täo bem! Você é muito especial pra mim, é minha médica, minha ouvinte, minha incentivadora, minha amiga. É assim que te vejo. Um grande abraço

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  2. …Em todas as progressões do câncer(4) e consequentemente mais um novo tratamento, pude observar nas palavras do meu oncologista, a dificuldade e o carinho para passar a informação e muitas vezes essa comunicação flui melhor quando o paciente se mostra interessado e consciente sobre seu estado. Lógico que é muito mais difícil para o paciente que se foca somente na cura, quando seu estado já é complicado. Por isso eu sou favorável que se diga sempre, desde o início ao paciente/família a verdade sobre seu estado.

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    • É isso mesmo, Fri. Muitas vezes o paciente se coloca numa posição de “indefeso”, colocando toda a responsabilidade da doença nas mãos do médico. Embora isso seja compreensível (é um mecanismo psicológico de defesa bastante comum), essa postura dificulta imensamente a comunicação e é motivo de grande tensão para o médico. O desenvolvimento de um bom relacionamento médico-paciente é sempre baseado em esforços dos dois lados.

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  3. Dra, a senhora já foi medica da minha mãe a mais ou menos uns 10 anos atrás no Amaral Carvalho..
    Adoro ler seus textos, suas experiências.
    A senhora é abençoada por DEUS

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  4. Eu abandonei a área da saúde.
    Não consegui lidar com tanta dor.
    Amei ver essa perspectiva humanizada dos fatos.
    Muito grata.

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