No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

27 de janeiro de 2016
Ana Lucia Coradazzi

3 comments

Correr

Há alguns dias li o último livro do Dr. Dráuzio Varella, intitulado Correr. O Dr. Dráuzio fala sobre suas experiências como corredor de maratonas, atividade que pratica há mais de 20 anos e que, segundo ele, salvou sua vida. Ele conta como a rotina ordenada e espartana dos treinamentos faz com que ele mantenha a sanidade. Explica a importância que as horas que passa correndo, em contato profundo e ininterrupto consigo mesmo, são capazes de aliviar a tensão diária da rotina como oncologista, permitindo que ele cultive a paz interior diante das tragédias que assistimos todos os dias. O livro tocou profundamente meu coração, porque sinto exatamente o mesmo que o autor. É na prática esportiva que consigo reorganizar as ideias, relaxar o corpo e apaziguar a mente. É na corrida que busco a paz quando os dias estão muito difíceis, e em geral os resultados são extremamente satisfatórios.

SuicidioMas hoje não foi um desses dias. No final da manhã recebi a trágica notícia da morte de um paciente muito querido, que eu vinha assistindo há pouco mais de um ano, devido a um câncer de intestino metastático. Uma pessoa de quem eu aprendi a gostar desde cedo, e por quem tinha um grande respeito – e de quem, ainda por cima, eu ganhava uma leitoa escolhida a dedo em cada Natal. A morte dele me entristeceu a ponto de me impedir de sair para correr. Nem a corrida poderia dar jeito.

Não foi a morte em si, a qual já sabíamos que acabaria acontecendo, dada a gravidade da situação. Foi a forma como a morte chegou: através de um tiro na própria boca. Cansado de não poder mais ser a pessoa que ele próprio respeitava e admirava, ele resolveu dar cabo da própria vida. E fim.

Embora casos de suicídio sejam descritos entre pacientes portadores de câncer, são situações raras, principalmente com o grande arsenal de tratamentos e suporte de que dispomos hoje. Lutamos o tempo todo para que a vida jamais se torne insuportável a ponto de não valer a pena. Eu mesma nunca tinha tido sob meus cuidados um paciente cuja desilusão com a vida tenha sido tão brutal que a única opção viável que lhe tenha ocorrido fosse provocar a própria morte. Mas hoje, sentada no consultório, precisei lidar com esse desafio funesto. Abri o prontuário dele, talvez buscando o ponto exato no qual ele começou a dar pistas de que a vida já não lhe significava muita coisa. Vasculhei na minha memória momentos em que eu pudesse ter modificado o rumo da história, ofertado alguma estratégia que tivesse impacto em sua vida, mas não achei nada. Talvez porque não houvesse nada para achar.

As profundezas da mente e da alma humana estão entre os destinos mais inescrutáveis do Universo. Mal temos acesso às nossas próprias profundezas, que dirá das profundezas alheias? Não estou falando das conversas, dos gestos, das cartas que dedicamos uns aos outros no decorrer de nossas vidas, através dos quais nos aproximamos ou afastamos das pessoas. Falo daquele local profundo e secreto, no qual nós mesmos nos sentimos receosos em penetrar. Os sentimentos mais intensos, os mais cruéis, os vergonhosos. As sensações de fracasso, os preconceitos, a dor extrema. Por um bom tempo me perdi em mim mesma pensando no desespero incontido que deve tê-lo dominado naquele momento. Pensei na dor que ele deve ter sentido ao vislumbrar sua ausência na família, nas perdas sucessivas e difíceis que vinha enfrentando, até na leitoa natalina que ele não conseguia mais comer. Seu mundo deve ter ficado cinza. Talvez negro. E deve ter sido bastante óbvio para ele que estava na hora de partir.

É duro ser médico. É árduo confrontar a complexidade humana assim, crua, sem disfarces. Alguns de nós presenciam mais sofrimento em um dia do que muitos presenciam durante toda a sua vida. E é precisamente para poder lidar com isso e manter a sanidade que precisamos de alguma válvula de escape, algo que nos lembre que a vida é preciosa e que há valor em cada minuto vivido. Para mim, como para o Dr. Dráuzio, a corrida cumpre esse papel. A cada passada a amargura se dissipa, a cada quilômetro a cores se tornam mais vívidas, e ao final podemos voltar a ser humanos de novo. Funciona muito bem. Pelo menos, quase sempre. Hoje não.

3 thoughts on “Correr

  1. Sinto muito.
    Fiquei tocada com suas palavras, que me mostram que na medicina ainda há esperança.
    Esperança que os médicos não sejam onipotentes e respeitem as vontades dos pacientes.
    Esperança que os médicos se conformem que a morte é inevitável. Que ela é a única certeza da vida e que muitas vezes, tentar adiá-la é muito mais doloroso do que aceita-la.
    Esperança que a medicina se torne menos ciência e mais emoção e humanização.
    Esperança que surjam cada dia mais profissionais tão especiais e sensíveis como você.
    Parabéns!

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  2. Eu corro porque também sinto a paz a cada passada !!!

    Curtido por 1 pessoa

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