No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

20 de fevereiro de 2017
Ana Lucia Coradazzi

38 comments

Os Médicos do Fim da Vida

resiliencia

Já no final da consulta, Dona Fátima*, já ultrapassando seus 70 anos, me perguntou o que eram esses “Cuidados Paliativos” descritos na manga do meu jaleco. Embora tivesse um diagnóstico de câncer, seu caso era bem inicial e ela estava terminando o tratamento. Mas creio que a dúvida sobre o significado do termo vinha lhe atormentando há tempos. Expliquei que a função dos paliativistas era essencialmente proporcionar alívio a pacientes com doenças incuráveis, ou em situações que comprometam significativamente sua qualidade de vida. Falei também sobre o conforto que buscamos oferecer a pacientes terminais e suas famílias.

Dona Fátima pensou por alguns segundos e, um pouco ressabiada, perguntou:

– Então a senhora é uma médica do fim da vida?

– Também, Dona Fátima. Cuido de pessoas com doença curáveis, como a senhora, e também daquelas que não têm possibilidade de cura. Para essas preciso dar uma atenção muito especial, para que elas não sofram por causa da doença até o dia em que sua hora chegar.

Após mais alguns segundos pensativos, ela concluiu, um tanto impressionada:

– Puxa… a senhora deve ver cada coisa na alma das pessoas…

Na hora eu apenas sorri, e não pude dar uma resposta melhor à conclusão dela.  Mais tarde, lembrando das suas palavras, pensei nas inúmeras coisas que vemos em nosso trabalho como “médicos do fim da vida”.

Pensei nas vezes em que vimos famílias exigindo a manutenção de procedimentos fúteis (e causadores de grande sofrimento) para manter seus parentes vivos mais alguns dias para que questões financeiras pudessem ser resolvidas. E no quanto nós, estupefatos, éramos obrigados a nos confrontar duramente com o lado mais cruel e obscuro dos seres humanos. O dinheiro pode, sim, corromper até as almas mais amorosas.

Pensei nas pessoas que, mesmo em seus últimos dias de vida, mantinham-se arrogantes e autoritárias, incapazes de estreitar laços com a família ou com quem quer que fosse. Aprendemos com elas que vamos morrer exatamente do jeito que escolhemos viver, e que a fragilidade da doença por si só não será capaz de refazer laços que menosprezamos durante toda a nossa vida.

Lembrei da dor infinita que vimos nos olhos de pais perdendo seus filhos, e na força indescritível que eles demonstravam a cada fôlego tomado, a cada noite mal dormida, a cada má notícia escutada. A sensação quase opressiva que sentíamos ao assistir à beleza inacreditável do amor daquelas pessoas, e ao nos darmos conta do quanto é imensa nossa responsabilidade por estar ali ao seu lado, representando seu apoio, seu guia, sua esperança. Um amor que, em sua forma mais sublime, era também tão desolador. E que fazia nosso peito doer tanto.

Pensei nas tantas famílias desesperadas com suas perdas iminentes, muitas delas tão desesperadas que a pessoa que estava partindo passava a ser coadjuvante. Lembrei de como o foco parecia ser repentinamente transferido a elas mesmas, e às perdas que suas próprias vidas sofreriam dali em diante. Ouvimos frases cruéis, do tipo “Como é que ele pode me deixar no meio da falência da empresa?”, ou “Como é que eu vou me sustentar agora?”. Vimos ali, esparramando-se sob nossos pés, um egoísmo velado, mal disfarçado, e que nos fazia lutar contra nosso próprio sentimento de desprezo por tamanha superficialidade.

Como “médicos do fim da vida” vemos, sim, atitudes e sentimentos assustadores. Nós nos deparamos, necessariamente, com o que há de pior na alma humana. Presenciamos, numa única manhã, mais sofrimento do que boa parte das pessoas tem contato durante toda sua vida.  Muitas vezes nos sentimos impotentes. Outras tantas vezes, uma grande decepção com a humanidade toma conta de nós.

Mas, se eu tivesse que escolher, em minha resposta à Dona Fátima, as coisas que mais impressionam os “médicos do fim da vida”, certamente não me referiria às grandes misérias humanas. Simplesmente pelo fato de que, embora elas estejam presentes em todos os cantos, seu impacto não chega nem mesmo perto das capacidades quase divinas que presenciamos. E, se eu tivesse que eleger apenas uma dessas capacidades para descrever a ela, eu provavelmente falaria sobre a resiliência. Falaria dessa habilidade surpreendente de muitos dos nossos pacientes em sua fase final de vida, através da qual não é deixado espaço para queixas e conjecturações inúteis. Os resilientes conseguem compreender aquilo que lhes é inevitável, e buscam ressignificar suas existências a partir daí. Agradecem por aquilo que ainda têm, em vez de lamentar o que perderam. Valorizam aquilo que podem alcançar e vivenciar. Tocam o rosto de seus filhos e netos, maravilhados com a sensação que isso lhes causa. Choram, emocionados, ao ouvir uma música que lhes agrada, e têm crises de soluços depois de rirem convulsivamente de uma piada. Elogiam a maciez do lençol que foi trocado naquela manhã. Respiram fundo ao sentir o cheiro do café que a enfermeira trouxe. Chupam uma bala de hortelã como se fosse um banquete. E assim, a cada pequena atitude, os resilientes vão cultivando uma felicidade genuína em quaisquer dificuldades que enfrentem, em quaisquer situações que lhes ameacem.

Eu diria à Dona Fátima que, se eu precisasse escolher apenas uma habilidade das almas humanas que vi, algo que pudesse me ajudar a terminar meus dias feliz e realizada, essa habilidade seria a resiliência. E ela, provavelmente, me responderia de volta:

– É como eu disse, doutora… vocês vêem cada coisa na alma das pessoas…

*nome fictício para preservar a identidade da paciente

38 thoughts on “Os Médicos do Fim da Vida

  1. Agradeço pela oportunidade de conscientização e reflexão.

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    • Meu pai faleceu aos noventa e cinco anos, moro no interior do Maranhão temos aqui um hospital municipal, considero nosso hospital muito bom, pois conheço hospitais de cidades maiores. Quando meu pai ficou muito debilitado o medico que o atendia nos recomendou transferi-lo definitivo para o hospital. Eu lhe perguntei por quanto tempo, ele me disse; o tempo que for preciso. Imaginei as enfermarias normalmente ocupadas onde eu já estivera com ele e recusei, foi então que ele me falou dos quartos destinados aos moribundos.
      Fui ao hospital e organizamos o pequeno quarto, aqui temos apenas dois ligados por uma sala de estar/espera com saída independente onde os familiares podem ficar ao visitar ou acompanhar seus pacientes. Meu pai ficou lá por 27 dias, teve os cuidados do hospital e da família. Sou infinitamente grata aos médicos, enfermeiras, especialmente o pessoal da lçimpeza que sempre me ajudavam com ele.
      Ele se foi, limpinho, cheirosinho e sem dor, a seu tempo. no tempo de Deus.
      Eu mor em minha cidadezinha desde sempre, porém não sabia que nosso hospital tinha este espaço tão necessário, tempos depois visitei uma senhora amiga minha que estava lá, a família sentia-se igualmente grata.
      Lendo esse texto revivi todos os dias em que estive com meu pai, e o quanto esse tipo de cuidado é necessário.

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    • Experiência sem par q cada paciente deve apresentar…. e, ao mesmo tempo, a lição para quem fica …Para se absorver e compartilhar….. Dignidade !

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  2. Meu Deus, que post lindo!! Muito delicado e forte ao mesmo tempo! Parabens!

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  3. Eu, se tiver que ficar como esta senhora, quero ser tratada por esta especialidade da medicina ” Resiliência” para ter um fim da vida digno tranquilo com pessoas sensíveis e generosas cuidando de mim até o fim.

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  4. Parabéns Médicos do Fim da Vida!
    Todo o seu amor emociona e gratifica!
    Peço a Deus que os abençoe e os ilumine neste trabalho de AMOR.

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  5. Belíssimo , sou Fisioterapeuta com experiência em atendimento domiciliar com adultos e idosos e gostaria mt de poder fazer uma Pós graduação ou um curso especializado em cuidados Paliativos , no Rio de Janeiro existe essa oportunidade ?

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    • Existem vários cursos de especialização no Rio, Antonio! Sugiro que você procure o INCA, que tem um serviço muito bem montado de Cuidados Paliativos, e eles poderão orientá-lo. Um abraço!

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  6. Quero parabenizar à todos (equipe), pelo carinho, cuidados, amor pela profissão.
    Gostaria de conhecer mais este trabalho.
    Sou terapeuta holística, mestra Reikiana, Numerologia, Mesa Radiônica, Quântica, Psicoterapia,…à 23 anos.
    Realizo esta função com dedicação e amor.
    Agora outubro de 2016 tive o diagnóstico do câncer de mama, já passei por todos os procedimentos e terminei as radioterapias agora 11 de janeiro 2017.
    Amo ajudar!
    Grde abraço!
    Neiva

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  7. Emocionada com tanta sensibilidade!

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  8. Admiravelmente….PERFEITO!!!!

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  9. ♡Palmas para você Doutora! Continue a ser sensível, precisamos, quando acamados , de profissionais desse porte ! Abraços!

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  10. A felicidade existe ate nos momentous Mais difíceis de nossas vidas. Temos que saber entender cada momento e aceitar com um olhar de agradecimento por estas oportunidades de Passar por Estes momentos e aprender com eles.

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  11. A felicidade existe ate nos momentos Mais duros. de nossas vidas. Temos que saber entender cada momento e aceitar com um olhar de agradecimento por Estas oportunidades de Passar por Estes momentos e aprender com eles.

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  12. Muito verdadeuir

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  13. Muito boa reflexão

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  14. Ufa. haja folego para ler e entender as entrelinhas.

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  15. Que coisa mais linda, Ana! Texto emocionante.
    “a senhora deve ver cada coisa na alma das pessoas…”
    Vê sim, com os olhos da sua alma! ❤

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  16. Tão real! Muito triste!

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  17. Embora a dor. Mesmo justo quando não era a hora adeduada para deixar coisas para fazer. É tão bom aquile hålito do fim de desafios materiais e o esperitual desconhecido que vamos buscar em breve. A hora do adeus, na realidade é o alvorecer, dependendo das medidas que usamos na Terra.

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  18. Magnífico texto e elevados sentimentos. Obrigada, doutora! Que a beleza do sentir seja uma constante em sua existência. Grande abraço.

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  19. Lindo!!!!
    Chorei….

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  20. Mt triste, mas real, conheço o trabalho de médicos do fim dá vida, trataram do meu pai q faleceu com câncer, há dois anos, duro…, pq ao saber q estava aos cuidados desses médicos, entendemos q n tinha mais tratamento p ele, mt triste td isso, cm doeu e cm foi lembrar, mas ele teve o melhor, foi bem assistido, e no seu final, na sua partida, estava na casa dele, na cama dele, com a família dele, e foi em paz…😢😢

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  21. Chorei lendo. Obrigado por me permitir ter certeza que escolhi o caminho certo!

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  22. Boa noite, muito objetivo é esclarecedor.

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  23. E muito difícil viver o problema, mas muito mais para as pessoas que convive com ele. Resiliência é a forma de viver com amor e resignação.

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  24. Reflexão incrível!

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  25. Estes não são médicos… São verdadeiros anjos do Senhor !!! Parabéns p vcs. que o Senhor lhes recompensem com td de maravilhoso que há nesta terra…. Mto obgda por vcs existirem !!! Mtas bênçãos de Deus p tds vcs . Bj seus lindoss

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  26. Conheci esse trabalho no Setor de Cuidados Paliativos do Hospital das Clinicas de São Paulo, quando eles cuidaram dos últimos dias de minha mãe, há dois anos. Fiquei realmente impressionado com o carinho que ela foi cuidada, mesmo em coma irreversível. E não foi só como cuidaram dela, mas também como nos trataram, ajudando-nos a manter a serenidade, mas sempre nos mantendo corretamente informados da situação real e dos prognósticos.
    Fiquei realmente impressionado com a dedicação e competência. E imensamente agradecido.

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  27. Desde que descobri o que era um Hospice, na Austrália, em 1997, admiro e valorizo o trabalho de Cuidados Paliativos!
    Fui diretora de um Residencial de Idosos durante 20 anos. Acompanhar o final da vida é um ato de amor.
    Parabéns por seu texto com muita alma!!!

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  28. Parabenizo e reconheço (por experiência própria) junto a meu pai e mãe, o ‘valor e importância’, do profissional médico mas em especial da equipe de enfermagem – enfermeiro, técnico e auxiliar de enfermagem – por toda atuação presente e atuante durante ’24 horas’ – como profissionais de saúde em prol do ‘bem estar’ – essência do cuidar de enfermagem (e não obrigatoriamente denominado de ‘cuidados paliativos’)!!

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