No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

23 de abril de 2018
Ana Lucia Coradazzi

17 comments

Quando eu deixo você tocar meu coração

Imagem by Iuulla

Dia duro. Na verdade, semanas muito duras. Foram vários daqueles dias em que meu estoque de compaixão vinha se esgotando muito antes do dia terminar. Pacientes graves, um atrás do outro, entravam e saíam do consultório, com problemas tão complexos que eu mal conseguia respirar entre as consultas. Metástases no cérebro. Sangramentos no estômago. Crises de ansiedade. Aumento das metástases no fígado. Um câncer descoberto no meio da gravidez. Eu olhava para aquelas pessoas, para seus olhos assustados ou suas mãos tremendo, e me sentia mortalmente incapaz. Não conseguia alcançar, com meus parcos recursos, o tamanho do seu sofrimento. Não me sentia digna da responsabilidade que elas colocavam em minhas mãos. Estava emocionalmente exausta.

Em linguagem técnica, chamamos isso de fadiga por compaixão. Acontece quando dedicamos ao outro um recurso que nos é finito, e não nos damos conta disso. O efeito colateral é óbvio: começamos a bloquear nossa capacidade de compreender o sofrimento do outro, e nossa resposta a ele passa a ser cada vez menos adequada. Perdemos a paciência com maior facilidade, nos irritamos por pouco, sentimos um cansaço incontrolável nos consumindo já nas primeiras horas do dia. Os “remédios”, ao que parece,  são muitos: férias, atividades de lazer, distrair-se em outros contextos, terapia… nada que me fosse viável para já, entre uma consulta e outra.

Foi nesse contexto difícil que me apareceu Dona Maria Augusta, com seus quase 70 anos, se queixando dos efeitos colaterais da quimioterapia, que ela vinha recebendo há vários meses, com excelente resposta (as metástases em seu fígado tinham desaparecido). Dona Maria entrou no consultório logo atrás do marido, também de idade, o qual já veio me dando o aviso: “Ela não está bem não, doutora…”

Imagem by Urban Arts

Meu primeiro pensamento foi de que eu não daria conta da Dona Maria. Idosa, debilitada, com um câncer avançado, e passando mal… Mas eu não tinha outra opção que não fosse escutá-la. Ouvi Dona Maria falando sobre a diarreia contínua, que vinha debilitando seu corpo e que só cessava quando ela interrompia os comprimidos da quimioterapia. Registrei a perda de peso. Vi a pele fina das suas mãozinhas, avermelhadas e doloridas, resultantes daqueles mesmos comprimidos, e que vinham atrapalhando seu crochê e encurtando suas caminhadas. Respirei, aliviada: “Graças a Deus que é só isso. Acho que essa eu consigo resolver.” E, depois de explicar rapidamente aos dois que bastava atrasar um pouco o início da próxima quimioterapia e reduzir a dose dos comprimidos, fui encaminhando Dona Maria até a porta do consultório, já pensando no paciente seguinte. Foi então que ela parou na porta e, sem mais nem menos, me abraçou pela cintura (ela é minúscula, da altura da minha filha de 11 anos), enfiando os cabelos desgrenhados sob meu queixo, e agradeceu de um jeito que me deixou tão surpresa quanto emocionada. “Obrigada, doutora, muito obrigada”.

– Obrigada pelo que, Dona Maria? Eu só ajustei a dose do seu remédio!

E ela, tão frágil que nem sei descrever seus olhos naquele momento:

– Desculpa a emoção, doutora, é que vim pensando que ia ter que parar o tratamento, que está me fazendo tanto bem. Sem ele, eu sei que ia morrer muito rápido. Obrigada por me dar essa chance.

Depois que ela saiu, fiquei ali sentada, eu e meu coração cansado, que ela tinha consertado com algumas poucas frases e um abraço apertado. Eu não tinha ideia de que algo que era para mim uma simples obrigação podia ter um significado tão mais bonito para ela. Foi assim, deixando que Dona Maria tocasse meu coração, que descobri que a gratidão pode ser bem mais eficaz do que férias, diversão ou qualquer antidepressivo. A gratidão, agora, é toda minha.

17 respostas para ‘Quando eu deixo você tocar meu coração

  1. Sensacional!!! Admiro seu trabalho e a forma humana como fala de suas experiências!!! Parabéns!!!
    Sempre!!!
    Continue assim, pois ajuda e ampara muitas pessoas também de longe, que nem pode ver!!!
    Obrigado!!!

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  2. Já te escrevi contando que adoro os seus textos, o seu olhar humano e sua condição humana! Maia uma vez, eu me emocionei! Obrigada por tocar meu coração – num dia, especialmente – difícil pra mim!
    🙏🏻🙏🏻🙏🏻

    Curtido por 1 pessoa

    • Esses fatos e relatos me deixa mais reflexivo sobre a efemeridade da vida. Ao passar dos 60 anos a maioria de nós perdemos nossos pais para as ‘Mansões Celestiais” e nos deixa uma saudade doída. Se eu fosse Deus não deixava nenhum filho ficar sem a mãe, mas nem mesmo em sonhos posso, disso sei.
      E o que somos então diante da morte? A melhor resposta é que para a natureza é melhor produzir e substituir as coisas velhas por novas, do que concertar as velhas e assim vamos sendo substituídos…
      Diante desses relatos me sinto como diz o poeta “Não passamos de grãos de areia perdido na imensidão das praias”
      … Desculpem mas vou chorar.

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    • Eu é que agradeço a confiança e o carinho, Vanusa. Que tudo corra bem. Dias difíceis também passam. Um abraço carinhoso!

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  3. Muito tocante, principalmente em sua última frase. A gratidão não é deles para nós, pois nós escolhemos estar aqui e eles não. A gratidão é nossa por permitirem que possamos conhecer a sua fragilidade, sua dor e nos ensinar como somos tão pequenos diante da vida e da morte.
    Uma aula diária .. livros humanos riquíssimos assim vejo cada paciente ..

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  4. Seus textos são tocantes!!! Impossível não se emocionar e não se sentir grata por sua existência! Sim, por você existir! Porque em um mundo que parece estar de cabeça pra baixo, valores invertidos, desafios cada vez mais complexos, você nos traz reflexões tão importantes e sempre carregadas de muita sensibilidade. É tão reconfortante saber que existem profissionais que além de fazer uso do conhecimento, ainda acrescentam a esse, a compaixão e humanidade! Doutora, obrigada por se importar!!!

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  5. Estou chorando… seus textos sempre “me tocam o coração” mas, confesso, d. Maria e sua médica mais uma vez me ensinaram o poder da gratidão declarada. Quando meu marido (muito mais que isso, meu grande amor) foi vitimado por um câncer de pulmão, partindo para o seio de Deus em dois meses, foi a gratidão pelos 29 anos de felicidade que me segurou à beira do desespero… foram as lembranças que conseguiram adoçar o amargor da perda. Ela, sempre ela, a gratidão, que nos conforta e nos faz prosseguir…

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    • Você tem razão quando fala da gratidão “declarada”. São muitas (muitas mesmo) as situações em que somos gratos a alguém e simplessmente não expressamos a gratidão. Perdemos essa chance valiosa de fazer o bem aos outros, e a nós mesmos. Um abraço!

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  6. Eita Xeloda! Nada mais gratificante que um abraço com um muito obrigado!

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  7. ❤ O poder da Gratidão!
    Obrigada também pela partilha, que tocou aqui no ❤ , mesmo sem conhecer nenhuma das intervenientes.

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  8. Toda semana eu entro aqui em busca de um texto novo, me permito criar expectativas para cada texto que se supera… Eu como uma Enfermeira que havia escolhido defender uma monografia com o Tema: “Cuidados Paliativos: O olhar humanizado na terminalidade da vida”… Sim, há 5 anos atrás me formei com essa defesa que fez encher uma sala de aula e os corredores da Universidade de tantas pessoas que estavam ali ansiosos para assistir a minha defesa que eu preparei com tanto amor depois de ter vivenciado os últimos momentos da minha tia! De todos os momentos que tive em minha graduação esse sem sombra de dúvida era o mais impactante pra mim porque levei a responsabilidade de mostrar para uma Banca de Profissionais Chefes de Hospitais a importância do olhar humanizado e o direito de cada paciente fazer suas escolhas nos seus últimos momentos! Eu terminei a minhas defesa com a certeza de papel cumprido! O feedback de todos que estavam ali naquela sala, foi sentido e percebido de forma clara e transparente,ao concluir todo um trabalho de 2 anos de muitas pesquisas e estudos, percebi em cada olhar o choro, a emoção e muitas vezes lágrimas contidas por profissionais de anos de experiência! As esticadas de outros que estavam no corredor desesperados por ouvir nem que fosse um pequena frase do que era ali a minha maior e melhor defesa e eu que só queria naquele momento tocar de alguma forma naquelas pessoas para que elas entendessem que já tínhamos tecnicistas de mais no mundo e a única coisa que precisávamos era de profissionais mais humanos! Ao terminar e apagar um vela que havia mostrado como nos tornamos pequenos quando essa vela se apaga me fez ver o amor que eu já havia descoberto sem saber por esses pacientes! Ei tinha muito mais para dar mas não entendia ainda isso! Hoje, me preparo para iniciar em Agosto a minha pós graduação em Oncologia Clínica! Sim! Aquele mesmo orientador que me guiou por essa estrada tão importante na minha defesa era nada mais e nada menos que o Coordenador e Doutor em oncologia do curso da Pós Graduação em Oncologia Clínica! Ele nunca desistiu de mim e me fez crer que esse era o caminho a escolher! Tudo que vc deixa aqui, todos os seus textos, sua vivencia como uma Médica Humanizada me faz retornar há aqueles momentos e não poderia deixar de dividir com você um pouco disso que eu estava sentindo! Toda vez que eu leio esses textos eu penso: essa é a escolha mais acertada na minha vida emprestar o meu olhar, o meu cuidar, o meu amor! Obrigada por de alguma forma me fortalecer nessa decisão minha, obrigada por dividir o que você tem de tão precioso conosco! São experiências que levarei para a minha vida profissional! Parabéns pelo incrível trabalho humanizado!

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