No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

27 de agosto de 2018
Ana Lucia Coradazzi

12 comments

Os Eucaliptos

Foi numa dessas conversas durante um café que um amigo me contou sobre como se desenvolvem os eucaliptos. Ele tinha lido um texto que descrevia por que motivo as florestas de eucaliptos no Brasil são conhecidas como “desertos verdes”. Os eucaliptos são árvores originárias da Oceania, principalmente da Austrália, mas seu cultivo rapidamente se espalhou pelo mundo devido à sua alta capacidade de adaptação a vários tipos de clima. As florestas são impressionantes de se ver, com lindas copas bem verdes e muito altas, e os característicos troncos longos e manchados, dos quais extraímos a celulose. Olhando assim, meio de relance, o primeiro impulso é estender uma rede ali mesmo, sob as árvores, e descansar sob sua sombra confortável. Mas, depois de algum tempo, começamos a ter a sensação de que algo está faltando por ali. Olhamos para cima, para os lados e, finalmente, para baixo, onde vemos… nada. Em volta dos eucaliptos, não crescem outras plantas. As substâncias químicas que resultam da decomposição das suas folhas acabam modificando o ambiente, impedindo que a floresta nativa se desenvolva. Eucaliptos não percebem as necessidades de luz, água ou nutrientes de outras plantas. É por isso que muitos estudiosos acreditam que as florestas de eucaliptos são uma ameaça à biodiversidade. Suas copas são frondosas e verdes, enquanto o solo ao seu redor é praticamente um deserto.

Achei essa história dos eucaliptos impressionante… Não pelos eucaliptos em si, visto que a Botânica nunca fez parte da minha vida e eu mal consigo manter vivas as flores do meu jardim. O que me chamou a atenção foi a incrível semelhança com pacientes que conheci no decorrer da minha vida. Algumas vezes, lidando com pessoas em sua fase final de vida, somos obrigados a nos deparar com uma imensa solidão. Vemos homens e mulheres cujos vínculos afetivos são tão frágeis que mal podemos notá-los. As visitas da família ou amigos em geral são poucas, ou então são cercadas de um clima de desconforto quase palpável. Não há beijos carinhosos ou abraços apertados. Com sorte, pegamos um gesto tímido de compaixão, daqueles que deixam dúvidas quanto à sua sinceridade… São pessoas que falharam brutalmente na criação de laços afetivos, porque nunca foram capazes de permitir que eles florescessem ao seu redor. Elas sufocaram os bons sentimentos das pessoas.

Não estou falando necessariamente daqueles que são maldosos ou mesmo cruéis com seu círculo de relacionamentos, pois esses terminam seus dias absolutamente sozinhos e nem eles próprios se surpreendem com isso. Falo aqui das pessoas que, em seu crescimento rumo ao topo, não conseguem enxergar as necessidades, forças, fraquezas ou talentos de quem está ao seu redor. Muitas vezes, não é por maldade. É por incapacidade. Em geral, elas encontram explicações totalmente plausíveis para sua insensibilidade: estão muito ocupadas, e seu trabalho ou função é tão importante que as pessoas terão que entender seu distanciamento. Estão sempre sobrecarregadas de tarefas que elas mesmas se impõem, inconscientemente fugindo da trabalhosa tarefa de cultivar seu entorno. Não sobra ar nem água para mais ninguém em volta delas. São eucaliptos, e nem sequer se dão conta disso.

É assim que, um belo dia, elas se vêem sozinhas e confusas, sem compreender como é que uma vida de tanto trabalho, tanta dedicação, tanto esforço, não gera afeto ou gratidão de volta. Às vezes, somente tarde demais elas enxergam que esses sentimentos não surgem automaticamente em resposta aos nossos atos, mesmo que os consideremos atos magnânimos. Eles precisam ser conquistados. Só oferecemos nosso tempo e nosso carinho a quem julgamos digno deles, e esse julgamento é fortemente influenciado pelas emoções que o outro provoca em cada um de nós. Se passarmos nossos dias causando desconforto, angústia e insegurança, sendo ingratos ou insensíveis aos esforços e talentos alheios, chegaremos aos nossos últimos dias com um enorme e árido deserto ao nosso redor. Seremos uma floresta de eucaliptos. E só.

“Nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas” (Cora Coralina)

 

 

 

 

12 respostas para ‘Os Eucaliptos

  1. Mas os eucaliptos nascem eucaliptos, vivem como eucaliptos, sem espaço para uma mudança. Em que ponto alguém, nascido para ser eucalipto, logo, como parte de uma floresta de eucaliptos, pode fazer uma mudança radical?

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    • Ótimo ponto, Ricardo! Essa é precisamente nossa vantagem, enquanto humanos, sobre os eucaliptos: nós temos livre arbítrio. Podemos deixar de ser eucaliptos quando quisermos (ninguém disse que é fácil! rsrsrs)

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    • Ricardo, acredito que ninguém nasça eucalipto. Na mais tenra infancia, por inúmeras razões, a criança não aprende a fazer relações ou criar vínculos, pois são tratadas assim pelos pais que estão simplesmente replicando o que viveram, sem se dar conta do problema.
      Normalmente a resposta é: “Cresci assim. Meus pais me criaram assim!” E se não tivermos a felicidade de encontrar alguém que modifique isso em nossas vidas ou chamem a atenção para a questão, iremos replicar os eucaliptos indefinidamente….

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  2. Parabéns! Excelente texto

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  3. Encantadora!!!

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  4. Que beleza de texto, que considerações excelentes. Muito obrigada.

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  5. Como sempre, mensagem maravilhosa. Muito obrigada por compartilhar conosco essas doses de Humanidade.

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  6. Simples lindo maravilhoso

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  7. Voce tem razao. Temos livre arbitrio e podemos deixar de ser eucalipto. E, ainda, sobre o ser dificil. É muito. Parece que nos empurram para isto (mas so se aceitarmos, claro). Buscamos só o alto. La de cima esperamos ficar confortaveis. Mas nossas raizes ficam lá longe e não ajudam nosso entorno, enquanto nós, “lá de cima” ainda dificultamos. Mas é isto mesmo: ha que retornar à essencia que somos e nao ao que estamos, sob o manto da cultura que ajudamos a estabelecer. Parabens pelo texto. Permite muita reflexao, mesmo.

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