No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

10 de maio de 2019
Ana Lucia Coradazzi

9 comments

Onde andam seus olhos, que a gente não vê?

Conheço Dona Tarsila* há uns bons quatro ou cinco anos. Com pouco mais de 70 anos, ela é a típica senhora rechonchuda, com problemas sérios de artrose nos joelhos e na coluna, além de vários dos outros problemas que a obesidade costuma trazer de brinde: hipertensão, diabetes, hipercolesterolemia. Quando foi diagnosticada com câncer de mama, não parecia assustada. Veio ao consultório acompanhada do marido, S. Adalberto, com quem é casada há mais de 50 anos. Em todas as consultas, Dona Tarsila era educadíssima, polida, e fazia questão de demonstrar sua gratidão trazendo pequenos presentinhos para mim e para minha secretária. Panos de prato, brincos, doces, e por aí vai. Mesmo durante a quimioterapia, quando ela ficou mais debilitada, era difícil surpreendê-la sem um sorriso no rosto, mesmo que fosse discreto. S. Adalberto, mais extrovertido e animado, costumava falar mais que ela nas consultas, mas era bastante óbvio seu respeito pela esposa. Os dois pareciam funcionar como uma orquestra. Ela mantinha silêncio enquanto ele falava, mas bastava que seus dedinhos gorduchos tocassem no joelho dele para que ele compreendesse que ela queria dizer algo, e então S. Adalberto se calava, passando a palavra à esposa. Mesmo assim, em alguns momentos, o olhar dela parecia fugir do meu. Eram segundos quase imperceptíveis, mas estavam lá. Em meio às frases educadas e até divertidas, entre as palavras doces dela, os lampejos cinzentos sempre apareciam.

O tempo passou, o tratamento inicial foi concluído, assim como a radioterapia, e Dona Tarsila iniciou o tratamento com hormonioterapia, o que exigia menos consultas médicas e menos exames. Estava tudo realmente indo muito bem. E justamente por isso eu não conseguia compreender meu desconforto crescente nas consultas. Eu tinha a sensação de que alguma coisa não estava bem com ela. Não havia nenhuma queixa nova, os exames de rotina estavam em ordem, mas ainda assim eu me sentia desconfortável. Algo que eu não conseguia explicar, uma certa tristeza ao olhar para ela. Eu percebia seus olhos mais distantes, quase indiferentes, e seus sorrisos pareciam não ter a mesma cor. Os lampejos cinzentos que eu captava em seus olhos pareciam mais frequentes e mais nítidos. Perguntei algumas vezes se estava tudo bem, se algo a estava preocupando, mas nada. Numa das consultas, fiquei particularmente desconfortável. Pedi que ela retornasse um pouco antes do habitual, e dessa vez ela veio com piora da dor nas costas. Logo foi diagnosticada a recidiva do tumor na coluna vertebral, o que exigia mudanças no tratamento e, principalmente, no prognóstico dela. Quando contei a ela sobre o resultado dos exames, ela novamente não se assustou. Na verdade, parecia até um pouco aliviada. Disse que já esperava que algo assim pudesse acontecer, que a vida era assim mesmo, e que ficamos por aqui apenas durante o tempo que Deus quer. Assim, sem desespero, sem angústias, sem medo. Dona Tarsila era uma mulher absolutamente conformada com seu destino.

Mudamos o tratamento, fizemos radioterapia da coluna, seus exames mostravam melhora, mas o olhar de Dona Tarsila não era mais o mesmo. Alguns meses se passaram até que conheci uma amiga próxima dela, que acabou por me contar o que aqueles olhos escondiam. Dona Tarsila vinha de uma família de muitas posses, e há algum tempo ela e o esposo tinham perdido praticamente todos os seus bens numa disputa judicial. Precisaram vender a casa onde moravam e se mudar para um imóvel bem mais modesto, e embora tivessem uma renda razoável, sua vida era bem diferente da que estava acostumada. Os três filhos, envolvidos na disputa judicial, praticamente não se falavam, e pouco entravam em contato com os pais. Um deles, na verdade, não entrava em contato nunca. Na época do diagnóstico do câncer de mama, essa situação tinha ficado ainda mais tensa, com acusações de culpa e agressões verbais que em nada combinavam com o jeito educado e tranquilo de Dona Tarsila. Enquanto eu ouvia a história, podia vê-la observando sua família, com a sensação de ter fracassado, sentindo a tristeza profunda das mães que perdem seus filhos pelo meio do caminho. Há um bom tempo aprendi que não é preciso ter um filho morto para perdê-lo. Entendi de onde vinha aquela tristeza. Um tristeza tão grande que roubava sua vontade de viver.

Eu já estive com ela e S. Adalberto várias vezes depois dessa conversa com a amiga. Tentei alguns caminhos que pudessem me permitir ajudá-la de alguma forma, encaminhando-a para um psicólogo, ou conversando com os filhos, ou mesmo apenas ouvindo sua história. Nada. Dona Tarsila me olha, sorri tristemente agradecida, quase dizendo: “Não se preocupe comigo, eu estou pronta para partir há muito tempo”. No final das consultas, ela sempre beija minhas mãos. Algumas vezes, me chama de filha. Numa dessas vezes, me deu um abraço tão intenso que me fez chorar. Quanta solidão dentro dela… uma solidão tão grande, tão antiga e tão profunda que parecia não ter mais volta. Uma tristeza tão imensa que uma doença como o câncer chegava a parecer um alívio.

Dona Tarsila me faz pensar na bagagem que carregamos durante nossos dias. No peso que colocamos sobre nossos ombros quando acolhemos mágoas e rancores. Na sobrecarga que acumulamos quando não nos permitimos seguir outro caminho, quando insistimos em manter a dor perto de nós. Mas, principalmente, no quanto acumulamos de culpas que não são nossas, de responsabilidades que não temos, de insucessos que não nos pertencem. Ainda que os erros, irresponsabilidades e insucessos sejam de pessoas que amamos profundamente (como nossos filhos, irmãos, amigos queridos), ainda assim não nos pertencem, e não deveriam ser incorporados à nossa bagagem já tão difícil de carregar. Mas o fato é que falar é muito fácil: tirar essa bagagem dos ombros é outra história. O que me cabe, no que diz respeito aos olhinhos ausentes da Dona Tarsila, é manter meus braços sempre abertos, meus ouvidos sempre atentos, e meu coração à disposição.

*nome fictício para preservar a privacidade da paciente

9 respostas para ‘Onde andam seus olhos, que a gente não vê?

  1. Mais uma vez chorei.
    Seu texto contando a história de d. Tarsila é uma pancada, uma sacudida, um tapa na cara.
    A ganância do ser humano obscurece os sentimentos de amor, fraternidade e de união.
    Sinto muito pela tristeza que essa Sra carrega no coração. Eu, como mãe me solidarizo com ela.

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  2. Ana Lucia,
    Sou sua grande admiradora,
    Por quase 20 anos dei aulas de Psicoligia Médica na Medicina Santo Amaro. Suas histórias e a forma de contar me lembram meu antigo chefe ja falecido Prof Willy Kenzler. Ele era um dos fundadores da Faculdade de Medicina e lutou toda a vida por uma Medicina humanizada.
    Morreu de um cancer logo após sua demissão da Faculdade.
    Parabéns peli seu lindo e importantíssimo trabalho.
    Com admiração e carinho
    Carmen

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    • Eu é que agradeço suas palavras, Carmen. Uma grande honra ser comparada a alguém que tanto marcou sua vida. Muito obrigada mesmo, com todo meu coração. Um grande abraço

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  3. A história de D. Tarsila nos remete a uma reflexão: onde falhamos como mãe?

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  4. Voce continua nos brindando com a medicina na sua concepção mais adequada: ciencia, sim, mas MUITA ARTE. Uma pena que nao a tenhamos sempre… A correria dos convenios e, pior, a FALTA DE VOCAÇÃO para a medicina. Some-se a isto o preparo da maioria das nossas Faculdades. Continue, voce é um exemplo.
    A proposito, voce nao costuma fazer palestras? Se sim, como posso contatar para falarmos sobre?

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    • Eu, enquanto profissional da equipe de cuidados paliativos, me sinto representada em todas as esferas pela sua sensibilidade e empatia. Nós, que estamos neste meio, temos um pouco de noção de quantas (os) D. Tarsila’s existem por aí…

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  5. Uma história que nos faz refletir sobre as dores do câncer e as dores da alma! Por mais difícil que seja a descoberta da doença física, os tratamentos, os medos, nada se compara aos sofrimentos da alma. Dra. Ana Lucia, tenho grande admiração pela sua capacidade de perceber as dores da alma e sua disponibilidade generosa em oferecer cuidados tão completos aos seus pacientes. Parabéns, Deus te abençoe sempre e te fortaleça nessa missão!

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  6. Uma historia tocante, que nos faz refletir sobre nossas posturas e posições diante das lutas do dia -a- dia. ao ouvir suas historia me lembro de minha vovozinha que há um anos e mês terminou sua jornada de mãe, avó, amiga, conselheira, mas acima de tudo humana. Humana sim, que tem suas frustrações, seus temores, seus sentimentos introspectivos, suas queixas, suas culpas. Mas temos nosso coração livre e leve pela decisão que tomamos em deix-á-la partir no tempo certo, sem prolongar um sofrimento, baseado no egoísmo e na decadência de um coração soberbo. Ana Obrigado, pois durante todo o tempo em que vovó esteve no processo da descoberta do câncer e das nossas decisões pude compartilhar seus textos e suas historias com minha família, o que nos levou a ter convicção de que nossa decisão estava sendo a melhor pra ela, mesmo que pra nos sempre doeu e ainda doi, agora ainda mais, pois a falta dela é sufocante.

    Muito Obrigado, você me inspira a cada dia para que eu possa ser um profissional que leva qualidade aos dias que ainda restam a nossos paciente.
    Um grande Abraço!

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