No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

10 de outubro de 2019
Ana Lucia Coradazzi

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A Torcida de Branco

Hoje foi uma daquelas manhãs cheias de delicadezas, permeadas dos mistérios envolvendo as relações entre os médicos e seus pacientes… Dona Filomena*, aos 62 anos, veio me ver depois de um período turbulento da sua vida, que envolveu o diagnóstico de câncer de intestino, uma cirurgia de emergência, resultados de exames que não batiam uns com os outros, novos exames para confirmar os primeiros, várias consultas com diversos médicos diferentes. Quando a conheci, há cerca de 5 meses, ela estava no meio do caos. Precisamos de algumas semanas até conseguirmos organizar tudo e definir nossas estratégias, que acabaram se resumindo ao seu acompanhamento a cada três meses com tomografias e exames de sangue. Esse era seu primeiro retorno após termos “colocado ordem na casa”. Dona Filomena veio esfuziante. Maquiada, com um sorriso de orelha a orelha, acompanhada de uma amiga querida e cheia de planos para o futuro. Entre uma risada e outra, ela me falou da aposentadoria que está prestes a acontecer e que vai permitir que ela faça várias coisas que gostaria. Contou dos cursos de terceira idade que tinha começado a frequentar, e do quanto estava se sentindo motivada com os novos rumos que sua vida vinha tomando. Contou como tinha conhecido uma senhora na internet e engatado um namoro que a estava deixando muito feliz, e falou animadamente sobre os planos delas de passarem o próximo Reveillon juntas, e sobre a viagem já programada para o ano que vem. Eu olhava para ela e sentia meu coração leve, invadido por uma alegria tão grande que só poderia ser chamada de “torcida”. Isso mesmo, torcida. Aquele sentimento de estar genuinamente feliz pelas conquistas do outro, aquela sensação de ter contribuído para que o outro chegasse lá. O mérito era todo dela, mas a alegria do momento era compartilhada.

Lembrei do depoimento de uma médica de família que li em algum lugar um tempo atrás. Ela falava sobre como era gratificante assistir a trajetória dos pacientes se recuperando, mudando suas vidas, tomando as rédeas de seu destino. Ela dizia, em seu texto, que era o tipo de médica que vibrava quando o paciente ex-presidiário com hipertensão arterial conseguia um emprego, a dona-de-casa com diabetes descompensado passava a frequentar a academia de ginástica, ou a mãe solteira com transtorno de ansiedade conseguia concluir a faculdade. E falava do quanto esse sentimento transformava sua própria vida em algo mais valioso e significativo. Eu me identifiquei imediatamente com as palavras dela. Faço parte da torcida de branco, e provavelmente ficaria sentada logo nas primeiras fileiras da arquibancada.

É claro que alguém poderia concluir que é muito fácil se sentir feliz pelos outros quando tudo dá certo, que a torcida é quase que obrigatória quando a cura ou os desfechos favoráveis estão no caminho dos pacientes. Posso até ouvir, na minha cabeça, esse mesmo alguém murmurando, com certa amargura nas palavras: “Queria ver a ‘torcida’ ser a mesma se a paciente estivesse morrendo”. Pois é… não é fácil mesmo se manter fiel ao time quando o placar está desfavorável. Não é à toa que nós, médicos, muitas vezes não conseguimos lidar com essa situação. Às vezes simplesmente fugimos, evitamos passar visita naquele quarto, achamos desculpas para encurtar as conversas, mudamos de assunto, deixamos a arquibancada vazia. Outras vezes, nos deixamos iludir, negando uma realidade que não poderá ser mudada. Torcer por que?

Mas quando olhamos com atenção, quando deixamos a delicadeza tomar conta dos nossos olhos, passamos a enxergar os motivos. Vemos a dor insuportável de um paciente sendo aliviada, e torcemos para que ele se mantenha confortável pelo maior tempo possível (de preferência para sempre). Vemos a mãe conseguindo comparecer ao casamento da filha, de lencinho na cabeça e cadeira de rodas, e torcemos para que aquele momento torne suas vidas mais significativas. Assistimos ao senhor magricela conseguindo comer um prato inteiro de sopa rala e sorrindo de satisfação, e torcemos para que ele possa saborear pelo menos mais alguns pratos daquele antes de terminar seus dias. Torcemos por muitas coisas, grandes e pequenas, quase sempre envolvendo a melhora da vida dos nossos pacientes, mesmo que mínima. Mas, às vezes, não temos como fazer nem mesmo isso por eles. Sentimos nossa impotência diante de uma doença irreversível para a qual não temos mais tratamentos eficazes, e percebemos a vida dessas pessoas escorrendo pelos nossos dedos. Presenciamos seu sofrimento e sua angústia, seus olhos sem a luminosidade de antes, sua voz que não consegue nos chamar. É aí, nesses momentos, que torcemos em silêncio para que a vida simplesmente termine em paz.  E essa é nossa torcida mais profunda e reverente. É justamente quando o time está perdendo que a torcida faz a maior diferença.

*nome fictício para preservar a privacidade da paciente

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