No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

28 de janeiro de 2021
Ana Lucia Coradazzi

5 comments

Os últimos humanos do planeta

Quando Seu Raimundo* se foi, um grande pedaço do meu coração foi com ele. Eu sei, a morte de um paciente sempre mexe de alguma forma conosco. Os meses, anos ou até décadas de convívio, sempre permeados de trocas de sentimentos íntimos, de medos, de receios, de alegrias, de frustrações, nos entrelaçam às vidas deles de um jeito único. Quando se vão, levam parte de nós, e deixam saudade e aprendizado. Às vezes, deixam até alívio (porque cuidar deles nem sempre é tarefa fácil). Mas a partida de Seu Raimundo me levou algo maior, mais profundo, e deixou uma cratera na minha crença na Humanidade.

Seu Raimundo tinha perto de 80 anos. Chegou sorridente ao consultório, acompanhado da filha e da esposa, com seu diagnóstico de câncer avançado no pâncreas, como se nem estivesse doente. Mesmo com as notícias não muito animadoras que eu tinha para lhe dar, o sorriso não ia embora, e nem sua insistência em agradecer por qualquer coisa. Seu Raimundo dizia que a gente deve agradecer não por cada dia de vida, mas por cada minuto dela. Falava e sorria, sorria e falava. Encantador. Mas a doença não era nada encantadora. Mal tínhamos iniciado a quimioterapia, e ele começou a piorar. Líquido se acumulando no abdome e nas pernas, falta de apetite, perda de peso, início de uma dor que ele não tinha. Quando os olhos dele amarelaram, ficou claro que o papel do tratamento tinha deixado de existir, e os exames confirmaram a doença em franca progressão. Conversamos bastante nesses dias. Eu explicava o motivo do mal-estar e dos inchaços, falava sobre a refratariedade do câncer e, por fim, sobre a possibilidade sensata de interrompermos definitivamente a quimioterapia e priorizarmos a qualidade de vida dele. Seu Raimundo, o mesmo de sempre, sorria (um pouco mais triste, é verdade), e agradecia. “Pelo menos ainda estamos por aqui, né, minha doutora?”

Eu o via toda semana. Controlava a dor, as náuseas, a fadiga. Prescrevia diuréticos, suspendia os diuréticos, e íamos caminhando. Eu, cada vez mais encantada com sua generosidade. Mesmo enfraquecido como ele estava, ofereceu a uma outra paciente que fosse atendida antes dele porque ela estava com pressa de receber a quimioterapia do dia. Mesmo sem conseguir comer quase nada, me trouxe bombons para “adoçar meu dia”. Nossa proximidade aumentava, assim como a doença progredia, e logo ficou claro que não teríamos mais do que algumas poucas semanas. Não chegamos a conversar sobre tempo, nem mesmo sobre morte. Isso estava inserido nos silêncios que se seguiam às nossas falas, e ficava implícito quando ele dizia “Obrigado por tudo, doutora”, sempre como se aquela fosse nossa despedida.

E então chegou a época da vacinação contra a covid-19. As pessoas, entre animadas, esperançosas e ansiosas, se mobilizavam para receber a vacina. Muitas delas, para nosso espanto (e decepção), buscavam formas de furar a fila, valendo-se de sua influência política, social ou financeira. Víamos prefeitos (e seus afiliados) recebendo a vacina antes dos profissionais da saúde que estavam todos os dias se expondo ao risco de infecção. Víamos colegas médicos forjando relatórios para que amigos se “enquadrassem” nos grupos de risco e pudessem receber o imunizante. Víamos os próprios colegas médicos passando à frente dos que estavam muito mais expostos que eles, sem o menor constrangimento. E, claro, assistíamos às inúmeras tentativas de pessoas tentando comprar vacinas “para ajudar a desafogar os serviços públicos”, fingindo não entender que o manejo de uma pandemia é algo que só se resolve com estratégias comunitárias justas, e não com o aumento das desigualdades entre as pessoas. Era um festival de individualismo, egoísmo e falta de espírito comunitário. A catástrofe humana no noticiário da TV.

Foi em meio a tudo isso que recebi Seu Raimundo para mais uma consulta. A filha, animada com a chegada das vacinas, já iniciou nossa conversa perguntando se, quando liberassem o imunizante para idosos com comorbidades, seu pai poderia recebê-lo. Olhei para Seu Raimundo a tempo de vê-lo balançando negativamente a cabeça, os olhos parecendo levemente desolados, mas com o sorriso de sempre nos lábios. Respondi para a filha que sim, que ele poderia ser vacinado, e em seguida perguntei a ele por que não parecia muito disposto a isso. Seu Raimundo suspirou, meio sem pressa, parecendo escolher as palavras. “Não é isso não, doutora… é que acho que a vacina tem que ser dada pra quem vai se beneficiar dela. Não vou ter tempo pra isso. Prefiro deixar pra quem precisa.”

Acho que não me lembro, em minha vida de oncologista, de uma situação que tenha me causado tamanho impacto no coração. Aliás, eu não tinha mais um coração dentro do peito: eu tinha o mundo. Eu olhava para ele e via a grandeza infinita de um ser humano quando se compreende como parte de algo muito maior, quando se desloca de si mesmo para habitar o mundo inteiro. A capacidade de enxergar quando a necessidade do outro é maior que a sua, que o bem de todos é maior que o bem de um, e que estamos todos irreversivelmente conectados é algo raro nos dias de hoje, mas reconhecer que essa capacidade ainda existe alentou meu coração. Vivemos num país (ou num mundo?) onde impera a máxima do “Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro”, e nos iludimos acreditando que podemos nos salvar sozinhos. É justamente a capacidade de construirmos o mundo juntos que nos diferencia enquanto espécie, e é a capacidade de compartilhar que evitou nossa extinção até os dias de hoje. Na verdade, achei que seres humanos de verdade, que carregam em si esse forte sentimento de “pertencer”, que se dispõem ao sacrifício pessoal pelo bem comum, já estavam extintos. Não estão. Eles estão por aí, às vezes meio escondidos, talvez um tanto chocados com o nada sutil individualismo que tem nos atropelado. Mas ainda existem, e Seu Raimundo era prova disso. Quando ele se foi, pouco tempo depois, o mundo ficou pior.

Mas me consola saber que outros Raimundos seguem pelo planeta, espalhando sua generosidade, e que podemos resgatá-la de dentro de nós quando nos perdermos pelo caminho. Isso aquece minha crença de que esse será o traço que nos reerguerá enquanto Humanidade. Se Darwin estivesse vivo, talvez concordasse comigo que, entre as características que selecionarão os humanos mais fortes para dar continuidade à espécie no futuro, a generosidade, a compaixão, a resiliência e o espírito de comunidade provavelmente prevalecerão sobre o egocentrismo, a indignidade e a desonestidade. Se assim não for, talvez devêssemos mesmo nos conformar em termos falido enquanto espécie e pedir pra sair. O mundo ficaria melhor sem nós.

*nome fictício para preservar a privacidade do paciente

5 comentários sobre “Os últimos humanos do planeta

  1. Você é um ser humano ímpar, uma fonte radiante de amor e humanismo. Não sei se nisso você ainda pode ser mais do que já é, mas uma coisa é certa, escreve cada vez melhor. Dráuzio Varella que se cuide! Cadê seu Jabuti?

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  2. Estava lendo o site da Oncomed já que meu marido começará a quimioterapia na segunda. Lá embaixo vi a indicação desse blog. Já me derramei em lágrimas no primeiro post que li. Que lindeza o senhor Raimundo ❤

    Que blog gostoso e sensível. Parabéns pelo lindo trabalho.
    Abraços

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  3. Não conhecia este site ,porem em minha passagem que pretendia ser rápida hoje encontrei esta preciosidade.Uma visão quase já não encontrada do mundo e dos humanos com as quais compartilhp.Agradeço!

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  4. Obrigada a você, obrigada ao seu Francisco. Vocês me dão esperança. Um abraço.

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  5. Sou seu colega. Sou cirurgião geral e de urgência. Convivi a minha vida quase toda com a morte, tentando salvar vidas. Meu nome é Guilherme. Gostei muito de suas crônicas. São humanas e a realidade das pessoas. A crônica diz muito de quem as escreve. Dizem muito de você. Parabéns. Continue assim.

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