
A trilha sonora da vida dela era respeitável. Maria Betânia, Chico, Alcione, Caetano, The Beatles (em especial, Paul). Marisa Monte, Gil, Elton John, Titãs, Al Jarreau. E a música parecia permear toda a sua vida. Cozinhava dançando, tomava banho cantando, falava com uma cadência de dar inveja. Não é que ela tivesse uma vida estupenda, na qual somente a alegria e o prazer têm lugar, pelo contrário. Foram anos convivendo com o câncer de mama, que se meteu entre seus ossos e pulmões e vivia trazendo transtornos. Às vezes era a dor, outras vezes os efeitos colaterais dos tratamentos. Mas ela cultivava essa estranha loucura de manter os olhos no horizonte e a música pelo caminho. Uma loucura que me surpreendia e acalentava.
Entre uma trilha sonora e outra, foram muitas as tempestades nesses anos. Talvez a mais assustadora tenha sido quando ela não conseguiu subir a rampa que leva ao consultório. Desci correndo para ver o que estava acontecendo e a encontrei caída na rampa, apoiada na filha, respirando mal e semiconsciente. Ajoelhei ao seu lado, tentei sentir o pulso, e nada. Também não consegui aferir a pressão. Chamei o SAMU, que chegou em minutos, enquanto eu conversava com o colega que a receberia no Pronto-Atendimento. Estava grave, um choque ainda sem causa definida. Na chegada do SAMU, o paramédico só fez uma pergunta após meu breve resumo do caso: “Mas então ela é paliativa?” Olhei para ele meio sem saber o que responder. Aliás, sem ter certeza de que resposta ele buscava (essa pergunta pode ser extremamente cruel e preconceituosa). Naquele contexto de morte iminente, então, minha resposta poderia ser a diferença entre ela receber um cuidado adequado ou ter sua assistência negligenciada. Fui taxativa: O tratamento oncológico dela tem intenção paliativa, mas ela estava muito bem, não sabemos o que está acontecendo agora e, portanto, ela precisa receber toda a assistência necessária até que a gente esclareça o quadro. Falei firme e sem desviar o olhar. Em minutos ela estava na UTI, acesso venoso providenciado, drogas vasoativas, intubação, respirador. Estabilizada. Quando subi para vê-la, cheia de tubos e monitores e alarmes, pensei comigo: O que foi que eu fiz?
Dias angustiantes, aqueles. Ela tinha desenvolvido uma insuficiência cardíaca grave, talvez por vírus, talvez pelo tratamento, ninguém sabia. Eu só pensava que eu podia ter contribuído para prolongar uma vida que não teria mais sentido. Ainda seria ela, se não fosse mais possível dançar pela sala, ouvir Mílton Nascimento ou tirar sarro do marido? Mas, sol-que-se-põe, sol-que-desponta, ela foi melhorando, recuperando o corpo e a personalidade, e saiu de lá fazendo piada e pedindo comida. Foi desse episódio que saiu o apelido que a acompanhou até o final: Jabuti. Porque o corpo podia ser meio lento e um tanto frágil, mas a casca era quase impossível de quebrar.
Ela também passou maus bocados com o próprio tratamento do câncer. A diarreia, por exemplo, era um capítulo à parte. Incomodava, e muito. Limitava seus passeios, limitava a alimentação, só não limitava o senso de humor. Numa das mensagens pedindo orientações sobre a tal diarreia chata, ela enviou: “Acho que preciso de uma rolha.” (pode rir, ela adorava). Meio que para seu provar que a casca era dura mesmo, um tempo depois uns nódulos chatíssimos resolveram brotar no couro cabeludo, sangrando e causando um certo constrangimento. Um deles, talvez o mais genioso, se instalou quase na testa, para não haver chance de passar desapercebido. Eu: Puxa, que situação mais chata essa, isso vai atrapalhar demais a vida dela. Ela: Não é pra qualquer um ostentar um chifre de unicórnio desse tamanho (rsrsrs). Parece que os Jabutis têm um talento especial para usar o humor quando o amor, a ciência ou a fé não bastam.
Nem sempre as mensagens eram sobre problemas em busca de solução. Às vezes, vinha uma foto dela tomando um chope gelado, com a legenda “Calooor!” Outro dia, uma playlist para me ajudar a passar o tempo na estrada. Ou um vídeo da cachorra (da mesma raça do meu) se esbaldando na piscina. Porque a vida é feita de tudo isso: alegria, dor, serenidade, desesperança, amor, raiva, medo, impaciência, palhaçadas. Cabe de tudo numa vida, em especial quando o câncer faz parte dela. E a vida dela era imensa.
Nosso Jabuti permitia que a vida se apresentasse. Acolhia o que lhe caía no colo e seguia em frente. Do limão, uma caipirinha. Os dias, meses, anos iam se passando, e minha admiração foi se tornando infinita. Quando eu olhava para ela, com seus olhos sinceros, o sorriso fácil, o amor pela vida, precisava me esforçar para manter meus pés no chão, lembrar que meu papel era ajudá-la a conviver com uma situação que nada tinha de agradável ou glamurosa. O que eu gostaria, mesmo, era reconfigurar nossas vidas para que pudéssemos partilhar nossos momentos sem o peso que nossa relação médica-paciente acarretava. Não era o peso sombrio ou um tanto tenso que relações profissionais costumam carregar, não havia qualquer vestígio de sombra ou tensão entre nós. Sempre rimos muito juntas, inclusive das próprias tragédias. Mas havia uma certa melancolia na ideia de que só nos conhecemos porque ela adoeceu.
Gostaria de tê-la tido na minha vida sem que o câncer fizesse parte disso. Gostaria de ter tomado um chope gelado ali, na beira da piscina dela, e de ter passado algumas tardes falando bobagens e ouvindo Chico. Gostaria de ter compartilhado mais histórias, de ter estado mais perto, de ter desfrutado da sua companhia amorosa sem que sintomas, remédios e exames se intrometessem no meio da conversa. Porque ela era uma pessoa que vale a pena ter por perto, e essa é uma espécie rara e valiosa de ser humano. São pouquíssimos os exemplares da espécie que elevam nossa vida para um outro patamar, que nos inspiram a aproveitar nossas características humanas para nos diferenciar dos animais e estabelecer as relações profundas das quais eles não são capazes. Gente que tem trilha sonora própria, que tem luz brotando no coração, que deixa a vida escorrer pelos olhos sem o menor constrangimento. Gente para quem a generosidade é um estilo de vida. Pessoas assim são tão incomuns que, ultimamente, chego a preferir os animais aos humanos. Principalmente os Jabutis.




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