No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

15 de abril de 2015
Ana Lucia Coradazzi

4 comments

Dois ouvidos, uma só boca

Médico e paciente 2

Durante os anos de faculdade nós médicos recebemos pouca ou nenhuma formação a respeito de como nos comunicarmos com os nossos pacientes. Na verdade, muitas vezes acabamos simplesmente replicando as atitudes, palavras e gestos de professores e colegas, e aprendemos dolorosamente quando fracassamos no relacionamento com pacientes e familiares. Às vezes nos perdemos em situações complexas, sem saber como lidar com o sofrimento e com as nossas próprias limitações. Já presenciei inúmeras ocasiões em que o relacionamento entre o colega médico e seu paciente foi pouco mais que uma conversa dessas que se tem, por exemplo, com o caixa do banco, ou com o vizinho estranho do andar de cima. E é sempre extremamente frustrante, tanto para o médico quanto para o doente. Eu me considero alguém de muita sorte. Tive dois mentores que moldaram a minha forma de enxergar a comunicação com os pacientes, na verdade com as pessoas de modo geral.

O primeiro foi um grande professor da faculdade, de renome internacional, com inúmeros livros publicados e uma importância sem igual na comunidade médica. Um dia, depois de muito tempo reunindo minha coragem, eu bati na porta da sua sala para pedir que ele me orientasse num trabalho acadêmico. Esse homem memorável me recebeu com um sorriso desconcertante, me convidou para sentar e perguntou, com uma humildade tocante: “Então, moça, em que é que eu posso ajudar você?”. Ouviu pacientemente meu esboço de projeto (que, hoje eu vejo, era medíocre), conversou comigo por mais de uma hora, redesenhou o trabalho comigo e se empenhou para conseguirmos uma bolsa de estudos para mim. Eu era uma simples aluna do quarto ano, ou seja, quase nada. O respeito com que ele me tratou faz parte da minha vida até hoje, permeando meus próprios relacionamentos.

O segundo foi um médico em cuja equipe eu trabalhei logo após o término da residência. Ele era chamado quando havia algum paciente-problema, família estressada, ou qualquer situação que ninguém estivesse conseguindo resolver. Ele invariavelmente se sentava com a pessoa em questão, sem se preocupar com a hora. E invariavelmente deixava que a pessoa falasse tudo o que quisesse, sem desviar os olhos dela. Escutava. Às vezes, movia a cabeça em sinal de compreensão, ou dizia algo como “Sim, estou entendendo”. Ele fazia isso até que a pessoa estivesse calma o suficiente para poder ouvi-lo. Só então, e jamais antes disso, ele procurava dar explicações. Desculpava-se por algum erro eventual da equipe, propunha ações corretivas e assegurava que a colocação da pessoa era muito importante para todos nós. Presenciei essas conversas mais de uma vez, e em todas elas a pessoa se despedia tranquila, agradecida e feliz. Por pior que tivesse sido sua experiência.

Há algumas semanas precisei lidar com a filha de uma paciente que estava em seus momentos finais. Ela tinha sido internada em nossa Unidade há poucos dias, e eu tinha executado a difícil tarefa de explicar a ela sobre as limitações do tratamento e sobre a gravidade da situação atual. Quando a paciente começou a piorar vertiginosamente, a filha entrou em pânico. Assim que entrei no quarto, ela começou um discurso revoltado e agressivo, me acusando de ter sido cruel com a mãe, de ser uma pessoa fria e que jamais poderia entender o que é a dor de perder alguém tão especial como ela. Meu primeiro sentimento foi de indignação. Eu tinha certeza de que tinha lidado com a situação da forma mais carinhosa e delicada possível. Senti uma raiva brotando por dentro, e uma enorme vontade de mandar que ela se retirasse imediatamente. Mas, logo a seguir, meus dois mentores me vieram à mente, e me coloquei no lugar dela. Deixei que ela falasse, que esgotasse todos os seus argumentos. Quando se acalmou, peguei nas suas mãos e disse, olhando bem nos olhos dela: “Acredite, eu sei que a dor que você está sentindo é insuportável. Também perdi meu pai há pouco tempo e quase não suportei. Eu só peço que você tente me ver como alguém que está do seu lado, não contra você.” A partir desse momento, conseguimos conversar. A psicóloga deu assistência a ela e, dois dias depois, quando a mãe finalmente se foi, ela voltou para agradecer o carinho. Seu coração estava em paz.

Fiquei pensando na tragédia que teria sido o desfecho dessa história se eu tivesse seguido meus instintos. Provavelmente teria se criado um clima de tensão insuportável entre a moça e toda a equipe, causando frustração e desconforto para todos nós e, o pior de tudo, aumentando imensamente o sofrimento dela, que já era gigantesco. Só de pensar nisso tenho calafrios. É em situações como essa que me sinto invadida por uma onda de gratidão pelas pessoas especiais que passaram pela minha vida e, meio sem perceber, me transformaram na pessoa que sou. Pessoas que compreendiam, em toda a sua magnitude, o sábio ditado oriental que prega que temos dois ouvidos e uma boca para que possamos ouvir duas vezes mais do que falar. Para nós, médicos, a proporção deveria ser de quatro ouvidos para uma boca e, mesmo assim, a boca deveria vir equipada com um filtro contra comentários inúteis, agressivos ou simplesmente imbecis.

4 thoughts on “Dois ouvidos, uma só boca

  1. Ótimo texto!
    Realmente, algumas pessoas passam em nosso caminho e nos deixam um aprendizado especial.
    Adorei seu blog. Conteúdos riquíssimos!!
    Parabéns!!

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  2. Olá! Sou estudante de medicina (na fase de não ser nada, como você mencionou…rsrs) e tenho aprendido muito com seus textos. É realmente necessário um exercício diário de respeito e humanidade, desde a graduação. E é sempre bom parar pra falar sobre como atender as pessoas melhor, no meio da avalanche de trabalho que facilmente nos consome.

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    • Concordo, Thaís. Perder o foco na relação médico-paciente que, acredito, é a base da Medicina, nos torna frustrados e amargos, como já vi inúmeras vezes entre colegas. E você tem razão: o exercício é diário e eterno. Bj!

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