No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

22 de abril de 2015
Ana Lucia Coradazzi

4 comments

Hoje é dia de ir ao médico

Há alguns dias, chegando cedinho ao consultório, eu me deparei com uma senhora bem idosa numa cadeira de rodas, dirigida por um senhor tão idoso quanto ela, aguardando na porta. Em poucos minutos entendi que era uma paciente nova aguardando para se consultar comigo, mas tinha chegado cedo demais. Abri rápido para que eles pudessem aguardar a consulta mais confortavelmente e fui organizar tudo para começar o atendimento do dia. Ao abrir a agenda, vi que a consulta da tal senhora estava agendada para dali quase duas horas! Olhei no relógio e entendi que seria absurdo deixá-la esperando tanto tempo, então antecipei a consulta. Assim que eles entraram, a nora agradeceu a gentileza e explicou o motivo do adiantamento.

Dona Nair tinha recebido o diagnóstico de câncer de reto há cerca de 3 semanas, já com metástases no fígado e no pulmão. Tinham sido cogitadas várias estratégias de tratamento em sua cidade, mas diante da idade avançada dela os filhos estavam muito preocupados com o que aconteceria a seguir. Foi então que começou o processo de busca da melhor alternativa para Dona Nair, que tinha ocupado desde sempre o cargo de coração da família. Sua doença era algo totalmente inesperado e, como tal, assustador, e eles queriam ter certeza de decidir pelo melhor caminho. Tinham conversado com médicos próximos, com pacientes oncológicos conhecidos da família e, por fim, tinham feito uma busca criteriosa na Internet, chegando então à nossa clínica. Como moravam a quase duzentos quilômetros de distância, os dias que antecederam a consulta tinham sido destinados aos preparativos, desde a vinda da nora para acompanhá-la, até os detalhes do transporte, possibilidade de internação e pedidos de licença no trabalho dos filhos. Dona Nair tinha se levantado de madrugada, tomado banho e um café da manhã apressado, e às  cinco horas da manhã eles já estavam no carro, a caminho. Olhei para ela, franzina e sorridente, os cabelos penteados para o lado e presos com uma fivela. Vi seus brincos, o batom clarinho e a bolsa alojada no colo. Ao lado dela, uma sacola com um casaco (para o caso de fazer frio), bolachas e uma garrafa de água. Tinha vindo preparada.

Após pouco mais de uma hora, eles já tinham esclarecido suas dúvidas e estavam prontos para a viagem de volta. Cheios de informações e decisões a serem tomadas. Vendo os três indo embora, um pensamento invadiu a minha mente: o tempo e energia despendidos por todos eles durante aqueles dias. A busca por informações, o agendamento da melhor data possível, os preparativos para a viagem, os transtornos para organizar as rotinas de todos, o sacrifício de acordarem tão cedo e pegar uma estrada tortuosa para não chegarem atrasados, tudo isso carregado de expectativas. Tudo isso para que eu dedicasse a eles uma parcela tão pequena do meu tempo.

É claro que não sou ingênua a ponto de imaginar um mundo no qual acontece um relacionamento mágico entre os médicos e seus pacientes em cada consulta, e que médicos dispõem de um tempo ilimitado para atendê-los e ouvir tudo sobre suas vidas, desde o dia em que nasceram. Na verdade, sei bem como nossa realidade é outra. Mas o que me comoveu foi me dar conta do quanto passamos a ter importância na vida de pessoas que ainda nem conhecemos, e o quanto pequenos atos ou palavras nossos podem ter um impacto eterno em suas trajetórias. É um papel de muita honra, e também de uma responsabilidade gigantesca. O mínimo que deveríamos oferecer é um pouco de atenção e paciência.

Fácil? Nem perto disso. Por debaixo do jaleco existem angústias pessoais, questões familiares, contas a pagar, problemas de saúde. E também existe a onipresente escassez de tempo. Mas eu realmente acredito que é possível atender dignamente um paciente (e sua família) em um tempo restrito. É necessário treinamento e, mais importante ainda, experiência. Não estou falando da experiência médica técnica, medida pela quantidade de pacientes atendidos durante sua carreira, número de artigos científicos lidos ou tratamentos prescritos. Eu me refiro especificamente à experiência com os relacionamentos humanos. Falo da prática diária da escuta ativa, na qual conscientemente voltamos toda a nossa atenção ao interlocutor à nossa frente. Aprendemos o significado de cada reação e gesto, bem como suas consequências futuras (boas ou péssimas). E aprendemos quais palavras devem ser usadas para um bom resultado, em cada situação, em cada momento. Aprendemos a usar nossos olhos, o tom de voz, a posição na cadeira, o sorriso. E chega um ponto em que somos capazes de, em poucos minutos, estabelecer laços de empatia e confiança. Pronto.

O exercício consciente e diário dos relacionamentos é uma ferramenta poderosa que – é uma pena – pode ser facilmente ignorada e desvalorizada pelo médico, em nome da falta de tempo ou de qualquer outra desculpa. Digo que lamento por dois motivos. O primeiro é que, acreditando que uma consulta rápida (e sem olhar seu paciente) pode poupar seu tempo, o médico apenas cria um problema maior mais tarde, quando vai gastar o dobro do seu tempo precioso explicando complicações que não previu, corrigindo diagnósticos, interpretando exames desnecessários, esclarecendo pela quarta vez a mesma dúvida. O segundo, e mais importante, é que ele perde a valiosa oportunidade de se tornar um médico cada vez melhor. Mais do que isso, perde a chance de se tornar uma pessoa que realmente faça a diferença na vida dos outros.

Paciente idosa

4 thoughts on “Hoje é dia de ir ao médico

  1. Essa postagem do seu blog resume em palavras belíssimas tudo o que tenho aprendido na minha residência em medicina de família e comunidade. Vou recomendar essa leitura a outros colegas ☺️ Obrigada!

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  2. Lindo texto! Bastante reflexivo.

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