No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

19 de maio de 2015
Ana Lucia Coradazzi

5 comments

Eutanásia, por favor

Anjo negro

Teresa estava cansada. Desde o diagnóstico, dois anos antes, de um câncer de mama com metástases ósseas, sua vida tinha se resumido a idas e vindas do hospital, dezenas de medicações e dor. Muita dor. A dor a tinha levado novamente ao hospital naquele dia, e foi quando a conheci. Eu era residente ainda, e mal sabia Oncologia, quanto mais lidar com a dor e o sofrimento intensos. Ela me contou, sem olhar para mim, que há dias não dormia por causa da dor lancinante que tinha tomado conta de quase todo o seu corpo. Não conseguia comer, não tomava banho sozinha, na verdade mal se movimentava na cama. Não conseguia mais falar com os filhos e não tinha ideia de como andava a rotina da sua casa. Ela falou por poucos minutos, os quais me pareceram horas, tamanho era o sofrimento em suas palavras.

Ao final da sua história, eu disse que pediria uma medicação para tirar a dor e que já voltaria. Foi quando ela me olhou nos olhos pela primeira vez e disse: “Eu quero morrer. Você não pode me dar um remédio para acabar de vez com isso?” Não tenho como descrever aqui a minha consternação. O sentimento de impotência, a enorme compaixão por ela, o horror de presenciar tamanho sofrimento inundaram cada parte de mim.  E, não posso negar, tive mesmo vontade de cumprir o desejo dela. A vida que Teresa tinha era inimaginável.  Na época eu não tinha noção de Cuidados Paliativos, e meu conceito de eutanásia era teórico e superficial. Nunca ninguém tinha me pedido ajuda para morrer, e foi assustador. Teresa foi internada e acho que faleceu algumas semanas depois, possivelmente em grande sofrimento. Mas seu pedido transformou meu coração.

A eutanásia é a atuação de um profissional da saúde que provoca deliberadamente a morte de um paciente com enfermidade incurável a partir de um pedido expresso e consciente do próprio paciente, quando este julga que seu sofrimento é intolerável e impossível de aliviar. Os sentimentos que envolvem um procedimento como este são profundos e dolorosos, e eu realmente compreendo a motivação de pessoas que o tenham praticado. A dor insuportável e a falta de perspectiva que vi nos olhos de Teresa foram mais que suficientes para isso. Também compreendo por que um tema como a eutanásia provoca reações e posicionamentos tão radicais e apaixonados.  Afinal, estamos falando de determinar o fim da vida de alguém, seja qual for o motivo, e isso mobiliza as crenças mais viscerais de cada um. Mas a verdade é que a minha opinião, ou a sua, ou a de qualquer outra pessoa pouco importam para um paciente desesperado. Pouco importa, também, se eutanásia é crime ou não, se é certo ou errado, ou de que forma pode ser feita. Do modo como vejo hoje, o que faz diferença numa situação como essa não é a conduta perante a situação, e sim as ações que deveriam ter sido tomadas antes que o sofrimento chegasse onde chegou, no ponto em que o paciente prefere morrer do que passar por aquilo. Nossa energia deveria ser gasta preventivamente.

Durante a especialização em Cuidados Paliativos, nós ouvimos a história de Alícia, que era muito parecida com a de Teresa. Alícia também tinha chegado ao serviço de emergência em grande sofrimento e implorando por uma morte caridosa. Uma enfermeira da equipe de Paliativos a abordou, depois ela foi medicada, foi feita toda uma estratégia de prevenção de novos episódios de dor e um bom suporte social foi proporcionado. Poucos dias depois, Alícia não queria mais morrer. Ela queria ir para casa passar mais tempo com seus filhos. A história de Alícia me fez pensar na eutanásia não como um procedimento possível, e sim como uma situação evitável. Nós médicos e profissionais da saúde que lidamos com pacientes graves devemos estabelecer como missão primordial impedir que um paciente passe por um sofrimento tão insuportável que prefira abandonar sua vida, sua família, sua dignidade. Isso se faz através de um esforço contínuo e consciente para compreender as expectativas de cada paciente, de tal forma que possamos antecipar que sintomas lhe causariam pânico e desespero e tratá-los precocemente. É necessário também conhecer profundamente as doenças que os castigam, podendo prever as complicações que podem acontecer e prevení-las (ou pelo menos preparar o paciente para lidar com elas).

Teresa não teve a sorte de ser abordada dessa forma preventiva, e hoje estou certa de que seu sofrimento foi desnecessário. Meu coração dói quando penso que poderia ter sido diferente, mas não posso mudar a história de Teresa. Os desfechos que ainda posso mudar são os das histórias das Marias, Pedros, Aparecidas ou Antônios que passarem pelas minhas mãos. E cada profissional da saúde pode fazer isso também. O caminho é o mesmo de todos os grandes benefícios alcançados até hoje na medicina: capacitação técnica, dedicação e respeito. Isso permite que o intolerável se torne apenas desconfortável, e que o desespero se transforme em confiança. E a motivação para todo esse esforço pode ser bastante simples: nunca mais ter que ouvir um pedido de eutanásia em nossas vidas.

 

5 thoughts on “Eutanásia, por favor

  1. Emocionante….triste….generosidade…amor…. tudo misturado e muito verdadeiro!

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    • Verdade, Odete. A vida humana é tão complexa, né? Quase sempre vivenciados tantos sentimentos ao mesmo tempo que é difícil identificá-los. Às vezes, são até contraditórios. Mas acho que é justamente essa complexidade que nos faz únicos. Bjos!!

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  2. A cada dia vejo que a falta de esperança nos leva desesperança de Viver. Vivenciar o sofrimento proprio ou de outra pessoa faz com que repensemos no Valor da Vida. O Amor sempre será o motivo de enfrentarmos estas situações.

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  3. Parabéns lindo texto e experiência , neste momento final onde é tão importante relação medico /paciente, desconhecia esta área Cuidados Paliativos e fico muito feliz , pois é o momento especial onde paciente e família precisam de humanização. Um abraço parabéns! ❤️

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