No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

18 de setembro de 2015
Ana Lucia Coradazzi

5 comments

Precisamos Melhorar os Cuidados Paliativos, Não a Morte Assistida

suicidio 2No último dia 09/09 o jornal The Guardian publicou um artigo da médica Zara Aziz sobre a necessidade urgente de melhorar os Cuidados Paliativos na Inglaterra.

Ela começa seu texto relembrando os tempos em que era estudante de Medicina, quando aprendia a salvar vidas e a aliviar o sofrimento, mas jamais aprendeu a interromper uma vida. Isso porque seu artigo fala justamente sobre uma emenda judicial em tramitação em seu país segundo a qual um paciente terminal (com menos de 6 meses de expectativa de vida) poderia ter acesso à prescrição de medicações letais e ser assistido por profissionais da saúde durante sua administração, o que culminaria com sua morte. A aplicação teria que ser aprovada por 2 médicos, sendo um deles o profissional que já vinha assistindo o paciente e o segundo um médico independente. Seria feita a análise da capacidade do paciente para tomar uma decisão como essa (excluindo-se coerção ou outros motivos). Por fim um conselho técnico aprovaria o procedimento, sem a necessidade de um juiz. O médico responsável prescreveria a medicação e forneceria todas as condições para que a mesma fosse administrada, mas não administraria ele próprio o medicamento. Isso seria feito pelo próprio paciente.

Zara se mostrava extremamente desconfortável com a proposta da lei, tanto quanto eu mesma fiquei. No convívio diário com pacientes em seus últimos dias de vida, é raro nos depararmos com situações nas quais o paciente pede ajuda para provocar a própria morte. Seus pedidos são muito mais voltados para o alívio de seu sofrimento, para que tenham condições de viver dignamente até que a morte chegue naturalmente. Nesses casos, fala-se sobre as expectativas dos pacientes e das famílias para essa fase final da vida, e sobre o que eles desejam que seja feito. Em geral pedem para que não sejam feitas medidas heroicas, como entubações, ressuscitação cardíaca ou outros procedimentos. Mas isso é bem diferente de agir de forma deliberada para provocar a própria morte. A morte só é uma opção atraente quando o sofrimento é intolerável, e isso em só acontece quando o cuidado que o paciente recebe não é adequado.

Não é difícil compreender os motivos que levariam alguém a pedir para morrer. O sofrimento provocado por certas doenças – em especial o câncer – pode ser apavorante. Mas, apavorante comparado a que? Uma pessoa saudável pode achar apavorante ter uma unha encravada latejante bem no dia do jogo de futebol. Mas para alguém que tem câncer, o referencial é outro. A unha encravada pode ser motivo de uma piada para alegrar seu dia! Cabe ao médico e equipe de saúde compreender o que é que aquele paciente considera insuportável e trabalhar incansavelmente para evitar que passe por isso.

O que não podemos é imaginar um mundo no qual é mais fácil legalizar medidas que abreviem uma vida difícil do que instituir estruturas e educação adequados para melhorar o cuidado a essas pessoas. A morte assistida é mais barata e menos trabalhosa. Verdade. Mas jamais pode ser uma alternativa mais prática aos Cuidados Paliativos bem feitos. Isso seria o começo do fim.

*artigo publicado no The Guardian:

http://www.theguardian.com/society/2015/sep/09/better-palliative-care-not-assisted-dying

5 thoughts on “Precisamos Melhorar os Cuidados Paliativos, Não a Morte Assistida

  1. Pingback: Precisamos Melhorar os Cuidados Paliativos, Não a Morte Assistida | coração filosofante

  2. Uma pena essa mentalidade dos ingleses, justamente num país que sempre foi referência em cuidados paliativos.

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    • Também acho, Viviani. Mas creio que a conscientização das pessoas é assim mesmo, um processo lento, no qual damos alguns passos à frente e mais uns tantos para trás em seguida. Ainda assim estamos melhorando muito o suporte aos doentes graves, em todos os lugares do mundo. Esse é um caminho sem volta. Bjos!!!

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  3. Meu marido teve a. Oportunidade passar seus últimos dias num hospital paliativo em Barretos.realmente e um tratamento diferenciado pro doente e familiares.Dra Marina cuidou dele com tanto carinho e dedicação ,fez toda a diferença em nossas vidas .

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