No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

1 de outubro de 2015
Ana Lucia Coradazzi

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A Última Fotografia

El Jarabe en UltratumbaHoje a dramaturga Camila Appel publicou no blog Morte Sem Tabu um texto sobre o qual eu nunca tinha pensado, mesmo convivendo tão de perto com morte. Camila fala sobre as fotografias mortuárias, que eram tiradas dos mortos nas mais diversas situações e pelos mais diferentes motivos. Ela explica que antigamente era comum fotografar os mortos como uma forma de manter sua memória no contexto familiar, melhorar a qualidade técnica do fotógrafo ou até por motivações religiosas.

Hoje, tirar a foto de um morto nos parece mórbido e desrespeitoso. Como a morte passou a ser algo a ser evitado, ou escondido, ou desconfortável, ninguém se anima a registrar o momento. Será? Por incrível que pareça, nem sempre é assim.

Há algum tempo me lembro de ter ouvido o relato inconformado de um colega médico sobre uma situação no mínimo inusitada. Ele tinha constatado o óbito de uma paciente bem idosa há poucos minutos e acabara de dar a notícia à família, deixando-os a sós com a senhora para que pudessem se despedir. Pouco depois, ao retornar ao quarto, surpreendeu o neto, que devia ter perto de 20 anos de idade, tirando uma “selfie” com a avó morta, com direito a boné com a aba virada para trás e a língua de fora, e segurando a mão da avó em um “joinha” desconjuntado. O colega, estupefato, perguntou o que é que ele ia fazer com a foto, e ouviu um jovial “Vou postar no Facebook, tio. Minha vó era muito maneira!”

Ao ouvir a história, fiquei tão surpresa quanto meu colega. Não se espera que alguém encare a morte de alguém querido de forma tão alegre, quase comemorando o acontecimento. Pelo menos não no Brasil. Existem culturas em que os mortos são celebrados com festa, como no México, onde o Dia dos Mortos inclui reuniões familiares nos cemitérios regadas às comidas prediletas do morto, música, dança e mariachis. Mas aqui a morte é (quase) sempre motivo de tristeza e sentimento de perda.

É certo que muito se tem falado sobre a morte como um evento natural e até belo, como o fechamento de um ciclo. Hoje discutimos sobre como gostaríamos de morrer, fazemos diretivas antecipadas, deixamos testamentos e doamos nossos órgãos em vida. Nós nos preparamos mais para a morte do que há poucos anos, quando a Medicina deu seus imensos saltos tecnológicos e a morte parecia, momentaneamente, evitável. Mas mesmo com essa nova cultura que vem surgindo, uma “selfie” com o corpo inerte da avó ainda parece um pouco demais.

OK, pode ser que o tal neto já se insira numa nova geração cuja cultura é mais evoluída em relação à morte, e que realmente a encare com a naturalidade que ela merece. Ou pode ser que eles fossem mexicanos, quem sabe? Mas é difícil não pensar que se trate apenas da disseminada necessidade de auto-exposição, que chegou a tal ponto que tornou legítimo postar a morte dos outros nas redes sociais.

Meu lado otimista, aquele que confia na natureza humana, insiste para que eu acredite na primeira hipótese. Mas, sinceramente, acho que meu lado otimista está bem errado dessa vez.

 

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