No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

17 de outubro de 2015
Ana Lucia Coradazzi

12 comments

“Acho que ele pensou que eu já tinha morrido…”

SolidãoQuando conheci D. Laura, ela já estava vivendo seus últimos dias. Tinha quase sessenta anos e vinha lutando contra um câncer de pâncreas há cerca de 18 meses. Nesse período, o tratamento foi difícil, com cirurgias e quimioterapia, sempre sob a orientação do seu oncologista. Mas agora as coisas não estavam indo bem, e ela tinha sido internada aos cuidados de um cirurgião, com uma complicação infecciosa no dreno que mantinha em seu abdome. O tratamento com antibióticos tinha proporcionado alguma melhora, mas o estado geral de D. Laura vinha se agravando há muito tempo, e a complicação atual tinha roubado todo o seu estoque final de energia. Ela estava morrendo, e o cirurgião não tinha mais muito o que fazer. Pediu auxílio ao oncologista que a vinha acompanhando, mas diante da impossibilidade de novos esquemas de quimioterapia, ele orientou que a equipe de Cuidados Paliativos fosse chamada, e foi assim que entrei na história.

D. Laura estava magérrima. A fadiga era tanta que ela precisava de ajuda até mesmo para se alimentar. Embora não sentisse dor e estivesse confortável, a situação de dependência total a incomodava muito. Ajustamos algumas medicações e pedimos auxílio da psicóloga para que ela se sentisse mais acolhida. Os dias foram se passando, lentamente, e minha relação com ela foi ficando cada vez mais estreita. Ela me falava do neto, das coisas que gostava de fazer quando estava bem (tinha o famoso “dedo verde”, que faz qualquer planta florescer!), e se emocionava ao lembrar do marido, falecido um ano antes. Falava bem baixinho, quase um sussurro, mas com uma lucidez surpreendente.

Um dia, durante a visita, o oncologista que a acompanhara desde o início da doença passou reto pela porta do quarto. D. Laura viu e deu um suspiro. Parecia magoada. Não perguntei o motivo, mas ela acabou explicando mesmo assim. Disse que, no começo da internação, estranhou o fato do seu médico de confiança não ir vê-la, mas atribuiu o fato ao horário apertado dele. Conforme os dias se passaram, no entanto, essa justificativa foi ficando um tanto esdrúxula, pois ninguém é tão ocupado assim que não consiga dois minutos para visitar um paciente de longa data. Ela começou então a imaginar se seu médico achava que ela tinha morrido. Alimentou essa ideia durante alguns dias, mas ela se desfez quando a filha lhe contou que tinha encontrado o médico na cantina e que, claro, ele sabia que ela continuava internada.

Ela começou a reparar quando ele entrava ou saía do setor, sempre passando apressadamente pela porta do seu quarto, principalmente quando a porta estava aberta. Reparou que ele passava sempre com a cabeça baixa, olhando para o chão, com uma pressa desconfortável. Depois de um tempo, concluiu que ele não queria vê-la mesmo, e esse era o motivo da mágoa em seus olhos.

Tentei justificar, dizendo que às vezes é difícil para nós, médicos, lidar com o sofrimento de pacientes que estão se despedindo. Expliquei o quanto os médicos podem se angustiar com essa situação, e que a atitude do médico dela talvez tivesse muito mais a ver com uma incapacidade pessoal dele do que com a relação entre eles dois. Foi aí que ela sorriu de leve e disse, ainda magoada:

– Eu entendo que é difícil lidar com a dor dos outros, doutora. Mas esperava que um médico que resolveu cuidar de pacientes com câncer se preparasse para isso. Nós contamos com vocês em todos os momentos, não só quando tudo vai bem. É como casamento: na alegria e na tristeza. Se for para pedir o divórcio no momento mais difícil, o certo seria avisar logo no começo, para não criarmos expectativas.

Meu coração se apertou dentro do peito. D. Laura estava certa. Nós, médicos, não temos esse treinamento. Quando muito, alguém na faculdade nos dá alguma palestra sobre como lidar com a morte, e é só. Mesmo durante a residência médica de Oncologia – que supostamente deveria preparar os futuros oncologistas para lidar com o sofrimento e as perdas inerentes à doença – o contato com esse tipo de informação é mínimo. Há programas de residência em Oncologia nos quais a disciplina de Cuidados Paliativos é apenas opcional. Em outros, ela nem sequer existe.

É fácil entender a fuga diante disso tudo. Não é fácil, não mesmo. Mas as palavras dela e a decepção em seu olhar deixaram claro que a fuga causa mais sofrimento do que ouvir más notícias. Pacientes terminais não temem ouvir que morrerão em breve, ou que não há mais tratamentos disponíveis. Eles temem o abandono. Temem acordar um dia e não ter ninguém em quem confiar. Temem não terem feito diferença na vida de alguém, não serem especiais no mundo – inclusive na vida de seus médicos. Às vezes, não é preciso muito. Basta chamá-los pelo apelido, ou citar o nome do netinho, ou se lembrar de uma história engraçada contada no consultório, quando as coisas não estavam assim tão ruins. Atitudes assim são suficientes para que ele saibam que foram dignos da nossa atenção, e que de alguma forma deixaram sua marca em nossas vidas.

12 thoughts on ““Acho que ele pensou que eu já tinha morrido…”

  1. Excelente texto! deveria ser leitura obrigatória a todos os médicos!!!

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  2. Fiquei emocionada e agradecida pelo presente que recebi no dia dos médicos ,lendo esse texto .. Que todos nós médicos saibamos nos casar com a vida .. A morte faz parte dela . Beijos e obrigada

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  3. Mais um texto sensível e necessário. Vou postar em minha página de educação médica. Obrigado.

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  4. Maravilhoso texto, parabéns!
    Então, eu acho que o meu oncologista é super preparado para este momento. É o que eu sinto quando tocamos no assunto. Não gostaria que ele sofresse e no que dependerá de mim vou tentar para que ninguém sofra (o que deve ser quase impossível quando se ama) e essa “fuga” em não ver sua paciente de longa data parece covardia, o que é também muito comum nas famílias, que preferem deixar seus entre queridos sozinhos num hospital nesse momento tão sublime. Simples medo de sofrer, de que não podem chorar….

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  5. Gratidão pela história. Acho que os veterinários costumam ter mais coragem e lealdade frente a perda de um querido paciente. Lembrei de minhas três últimas perdas e fiquei refletindo sobre a diferença no tratamento final. O que mais entristece o familiar é o médico não conversar com a gente…e muitas vezes desconversar!

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