No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

2 de novembro de 2015
Ana Lucia Coradazzi

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O Pequeno Médico

O Pequeno Médico

Há poucos dias terminei de ler O Pequeno Médico, de Graziela Gilioli, e compreendi que este é um livro cuja leitura deveria ser obrigatória aos profissionais da saúde. Graziela conta a história de seu filho Alexandre, que recebeu o diagnóstico de câncer da glândula suprarrenal, já bem avançado, aos 12 anos de idade. A história, é claro, é triste, mas Graziela consegue narrar as delicadezas de conviver com seu filho até seus últimos minutos de uma forma que só uma mãe poderia fazer. É justamente o olhar dela, vivenciando a maior dor de sua vida, que torna o livro especial. A força que ela tira sabe-se lá de onde, a coragem, a participação incansável em todas as fases da doença, a esperança, e o devastador sentimento de impotência.

Mas, no que diz respeito aos profissionais da saúde, o livro surpreende ainda mais. Graziela e seu filho eram de uma família financeiramente privilegiada, e não enfrentaram em nenhum momento as dificuldades de acesso a tratamentos ou exames, que assistimos todos os dias em nossa prática médica. Puderam contar com uma excelente equipe médica, com enfermeiros altamente capacitados e tiveram à sua disposição toda a tecnologia mais moderna disponível para o tratamento. Mas mesmo assim ela se mostra, mais de uma vez, decepcionada com a forma dos médicos se relacionarem com ela e com Alexandre. A falta de preocupação com esclarecimentos, a relutância em permitir que Alexandre participasse de decisões importantes (e que diziam respeito diretamente a ele), a rudeza em alguns momentos. Ela deixa claro que não se trata de uma questão de ter acesso aos melhores médicos ou serviços de saúde: trata-se de uma deformação na própria formação profissional, que raramente estimula a inclusão do paciente e familiares como parte da equipe.

O relato dela, confesso, muitas vezes incomoda. É possível para mim compreender de forma muito clara os motivos de algumas atitudes que ela descreve com visível mágoa e decepção. Consigo enxergar, nas palavras e ações dos médicos, a angústia que sentimos ao cuidar de pacientes como Alexandre, a falta de tempo, a sobrecarga de trabalho. Eu realmente entendo. E é aí que está a questão: nós, médicos, entendemos, mas a doença não diz respeito a nós. Quem tem que entender são os pacientes e as pessoas que os amam. Cabe a nós fazer o maior esforço possível nesse sentido.

Enfim, é sempre extremamente produtivo encarar o outro lado da moeda, mesmo que seja doloroso. Ler O Pequeno Médico nos convida a fazer exatamente isso.

3 thoughts on “O Pequeno Médico

  1. O Correio Braziliense de domingo trouxe uma reportagem com a Lúcia Willadino Braga, presidente da Rede Sarah, referência mundial em recuperação, onde ela cita que fez uma pesquisa científica e documentou a importância dos familiares no tratamento, especialmente de crianças.

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