No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

6 de janeiro de 2016
Ana Lucia Coradazzi

6 comments

Doutora, você nem imagina…

Idosa felizEla entrou no consultório toda arrumada, com brincos de pérola, batom vermelho-queimado, uma blusa de seda estampada linda, os sapatos combinando, o cabelo cuidadosamente penteado. Tinha 76 anos, e mantinha a vaidade das garotas de 18. Logo nos primeiros minutos da consulta Dona Carmem* já ganhou a minha simpatia. Começou a contar, espantada, como tinha notado um nódulo no seio esquerdo, durante o banho. Explicou que rapidamente procurou a ginecologista, uma bem pequenininha, como era o nome dela mesmo?

– Doutora Lenira? – eu sugeri.

– Isso, essa mesmo!

E continuou, explicando que a médica tinha pedido um exame da mama, que tinha dado suspeito para um câncer (“Veja você, doutora, um câncer! Na minha idade!”), e que ela tinha então sido encaminhada para um médico muito legal, que falava muito, puxa, qual era o nome dele mesmo?

– Doutor João Ricardo? – ajudou a cuidadora dela, que ela chamava de Laura*.

– Isso, Doutor João! – ela sorria.

E contou em detalhes sobre como tinha sido a cirurgia, que a pele dela era muito boa, que as enfermeiras do hospital (“aquele hospital bem grande, que é só pra quem tem câncer, em Jaú, sabe, doutora?”) eram muito boas, enfim, um relato perfeito da sua saga desde o diagnóstico de um câncer de mama bem inicial.

Quando ela terminou, fiz mais algumas perguntas sobre seus antecedentes, os remédios que ela tomava, e pedi que ela se sentasse na maca. Quando pedi para examinar a mama, ela arregalou os olhos e disse, espantada:

– Doutora, a senhora nem imagina o que me aconteceu nessa mama… Eu estava tomando banho, olha só, e de repente percebi um caroço no meu seio! Um caroço!!! Fiquei preocupada e fui bem rápido na minha ginecologista, uma bem pequenininha, não lembro o nome dela, acho que a senhora conhece… – e lá foi Dona Carmem contar toda a história de novo, sempre pedindo a confirmação da cuidadora ( “não é mesmo, Laura?”).

Até o final da consulta, Dona Carmem me contou sua história mais três vezes. Quase com as mesmas palavras. E sempre sob o olhar paciente de Laura. A mesma coisa quando expliquei sobre a necessidade de radioterapia, que tinha que ser feita todos os dias.

– Então agora só volto daqui um ano, doutora? (depois de duas explicações minhas).

– Não, Dona Laura, agora a senhora precisa fazer a radioterapia, lembra, tem que vir todos os dias no hospital nas próximas semanas!

– Todos os dias??!!! Você ouviu isso, Laura? Nossa, como é que vamos fazer isso?

E Laura a acalmava, dizia para ela ficar tranquila, que o motorista traria as duas todos os dias. A paciência da cuidadora era algo bonito de se ver, e admirável. Fiquei imaginando a quantidade de vezes que ela ouvia as mesmas histórias, todos os dias, e dava as mesmas respostas, e assim mantinha Dona Carmem tranquila – e feliz.

Laura contou que estava com Dona Carmem há muitos anos, e que a considerava como uma mãe. Disse que acompanhou de perto grandes sofrimentos na vida dela, como a perda de uma filha adotiva por quem Dona Carmem era apaixonada, e disse o quanto a família daquela senhora desmemoriada era carinhosa com ela.

Pensei nas bênçãos que as demências, às vezes, podem ser na vida das pessoas, pois impedem que elas remoam mágoas. A falta de memória impossibilita nossa maior tortura: esse péssimo hábito de antecipar o sofrimento que nem sabemos se de fato acontecerá. Mas também nos expõe às decisões e cuidados dos outros, ficamos absolutamente à sua mercê. Olhando para Laura, entendi que o que realmente faz a diferença nesses casos são as pessoas que temos em volta de nós, e não a(s) doença(s) que temos que enfrentar. Mais que isso: o que faz a diferença é o que plantamos durante toda a vida, pois são nossas atitudes que definem o tipo de gente que teremos por perto. D. Ehlers escreveu, há muito tempo: “Não corra atrás das borboletas; plante uma flor em seu jardim e todas as borboletas virão até ela”. Devia estar pensando em alguém como a Dona Carmem, que mesmo sem poder mais cuidar do seu jardim, podia contar com as borboletas que ele atraiu.

No finalzinho da consulta, já na porta do consultório, minha admiração pelo relacionamento das duas aumentou ainda mais um pouquinho. Eu disse:

– Até mais, Laura, qualquer coisa me avise!

E ela, baixinho, em segredo:

– Obrigada, doutora! Só uma coisa: meu nome é Ana*. Deixo ela me chamar de Laura porque ela acha tão bonito…

*os nomes da paciente e da cuidadora foram trocados por questão de sigilo

6 thoughts on “Doutora, você nem imagina…

  1. Lindo e de uma grande sensibilidade seu relato Dra. ANA.

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  2. Que lindo! Meu TCC foi feito aí no HAC sobre os cuidados Paliativos… Os relatos são incríveis…💓💓

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  3. Embora saibamos que não podemos acrescentar um segundo a mais em nosso tempo de vida, sempre incorporamos a tentativa de ao menos tentar que isto aconteça. Fazem dois anos que vivenciei uma experiência com minha irmã. Por graça de Deus, nos foi permitido conviver ainda por mais 9 meses. Somos e seremos AGRADECIDOS por termos recebido este PRESENTE.

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    • Esse “tempo extra” só tem sentido se pudermos vivê-lo com dignidade e autonomia. Sem essas condições básicas, é apenas prolongar um sofrimento desnecessário. É por isso que a abordagem dos Cuidados Paliativos tem se expandido tanto e tão rapidamente: ela garante a qualidade dos dias vividos, permitindo que eles valham a pena. Um grande abraço!!!

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