No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

9 de abril de 2016
Ana Lucia Coradazzi

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Quem está longe, quem está perto

Mariana* tem apenas 34 anos, e um câncer avançado tem atrapalhado seus planos de forma cruel nos últimos meses. De algum tempo para cá, a condição clínica dela vem se deteriorando muito, com perda progressiva da força muscular e, consequentemente, da autonomia. Ela viu-se obrigada a aceitar a ajuda da mãe, e aparentemente isso não tem sido nada fácil. A troca de farpas entre elas é constante. Às vezes, se inicia com palavras rudes dela própria. Outras vezes, é a mãe que se coloca como porta-voz, o que irrita Mariana profundamente. Após alguns poucos embates como esses que presenciei, me dei o direito de fazer um diagnóstico bastante acurado do relacionamento delas, no qual as duas tinham problemas mal resolvidos há muito tempo. Na minha teoria, havia algum sentimento de culpa por parte da mãe, que certamente tinha feito alguma coisa no passado e estava tentando se redimir com a filha nesse momento de fragilidade. Mariana, por sua vez, não conseguia perdoá-la, o que motivava sua impaciência com a mãe. Minha tese era bastante coerente e podia explicar cada palavra que eu ouvira entre as duas. Com base no meu diagnóstico, comecei a ficar desconfortável na presença da mãe, e eu sentia minha paciência com ela se esvaindo a cada dia.

Médico insensívelEu estava bastante satisfeita com a minha capacidade de diagnosticar a situação, quando me deparei com uma frase da psicóloga Karina Fukumitsu, especializada na abordagem dos suicídios, na qual ela afirma de forma constrangedora: “Quem está perto, compreende. Quem está longe, julga”. Simples assim. Tão simples quando minha própria arrogância em julgar a relação das duas, sem ter a menor ideia da história que as levou até aqueles momentos. A frase de Karina deveria fazer parte do nosso dia-a-dia enquanto profissionais da saúde. Aliás, deveria fazer parte inclusive da nossa vida pessoal. No entanto, o que vemos todos os dias são pessoas incrivelmente dispostas a emitir sua opinião sobre tudo e sobre todos, o tempo inteiro. Basta passear por alguns minutos pelas redes sociais para encontrarmos centenas de comentários sobre os mais diversos assuntos, desde uma opinião (nem sempre muito sincera) sobre uma foto até um posicionamento filosófico radical. Muitas vezes, as opiniões são emitidas sem que qualquer informação mais relevante tenha sido fornecida.

O fato é que, com a grande facilidade de comunicação e de obtenção de informações que temos hoje, é tentador opinar. Não sofremos qualquer tipo de consequência mais séria por isso e, mais tentador ainda: não precisamos pensar a respeito. Basta falar (ou teclar). Numa entrevista que assisti há alguns dias um professor contava, embasbacado, como um aluno seu emitiu um parecer radical sobre a obra de Immanuel Kant, um dos principais e mais complexos filósofos da era moderna. A surpresa do professor, infelizmente, não se devia à genialidade do aluno em compreender um autor tão denso, e sim ao fato de que o veredicto sobre a obra foi emitido após a leitura de apenas alguns parágrafos de um dos livros!

Fiquei pensando no quanto me aproximei do tal aluno quando decidi julgar as atitudes de Mariana e da mãe dela. É tão fácil julgar rapidamente e tomar atitudes a partir desse julgamento… e é também tão arriscado, e tão superficial. Julgamentos baseados em nossos próprios conceitos nos levam a erros prováveis e, consequentemente, a atitudes muito pouco eficazes. Isso se multiplica muitas vezes quando o que está em jogo é um relacionamento humano, com todas as suas perplexidades, controvérsias e delicadezas. Se a intenção é auxiliar os outros a enfrentar um problema, uma doença ou uma perda, os conceitos a serem adotados não podem ser os nossos. Temos que adotar as perspectivas e crenças alheias, compreendê-las e basear nossas decisões respeitando cada uma delas. Temos que estar, certamente, bem perto.

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