No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

14 de abril de 2016
Ana Lucia Coradazzi

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Aprender a morrer (por Ana Claudia Arantes)

Ilustração de Beatriz Vidal

Ilustração de Beatriz Vidal

Para mim, a morte deveria ser tratada com o mesmo cuidado que se trata a vida. Por que nós, médicos, abandonávamos o paciente (e sua família)? Por que o sedávamos e o deixávamos incomunicável, desligado de si mesmo? Era preciso sedar o sofrimento e não o sofredor, mas acontecia o contrário.

Como ninguém suporta ouvir suas necessidades e responder suas perguntas dolorosas, a morte chega no total abandono. É negligenciada porque assusta, dói em todos. Parece mais fácil não senti-la e anestesiar tudo o que faz parte dela. Acompanhada de máquinas, e só delas, uma pessoa morre muito mal. Porque negamos tanto a morte e a fragilidade da vida? Nada me foi respondido até que, um dia, uma enfermeira me presenteou com um livro: Sobre a morte e o morrer, de Elizabeth Kubbler Ross. Devorei aquelas páginas e, no dia seguinte, a dor engasgada no meu peito aliviou. Prometi a mim mesma: quando chegasse a minha vez de cuidar de uma pessoa morrendo, saberia o que fazer. E faria diferente de tudo o que tinha visto até então.

(…) Cuidar de pacientes em “fase terminal” era visto como perda de tempo, uma vez que “nada” poderia ser feito para salvar aquela vida. Nossa sociedade tem muita dificuldade de encarar a morte. Lidamos com ela da pior forma possível.

No Brasil, nove em cada dez pessoas vão morrer de morte anunciada, ou seja, de doença degenerativa ou câncer. Numa edição da The Economist de 2010, sobre o índice de qualidade de morte pelo mundo, uma análise comparativa de 40 países colocou o Brasil em 38° lugar. Somos o terceiro pior país do mundo em qualidade de assistência à morte. No país da alegria, do futebol, do Carnaval e do jeitinho, acreditamos que, quando chegar, a morte vai se distrair por aqui.

Muitas vezes, as pessoas que ao longo da vida não tiveram chance de ponderar sobre o fim chegam atrasadas na própria existência. Fica faltando dizer uma coisa, fazer muita coisa, viver muita coisa. Mas a ficha cai bem na hora em que não há mais tempo. Uma das grandes dificuldades que temos no Brasil é que não se fala sobre a doença para o paciente. Ele é poupado de sua condição e abrimos o jogo apenas para a família. Não falamos de morte nas rodas de conversa. A morte é um assunto excepcional, mas deveria ser pauta de todo dia. Existe curso para tudo, existe preparo para tudo, tempo para falar de tudo. Mas por que não conversamos sobre como vamos morrer, sobre como queremos morrer? Simplesmente não falamos e acabamos totalmente despreparados para a morte.

Morte não é fracasso

As pessoas precisam entender que não há fracasso diante de doenças terminais. É preciso ter respeito pela grandeza do ser humano que enfrenta sua morte. O verdadeiro herói não é aquele que quer fugir na hora do encontro com sua morte, mas aquele que a reconhece como sua maior sabedoria. Mas uma coisa precisa ser dita: é impressionante como as pessoas adquirem uma verdadeira “antena” captadora da verdade quando se encontram com a morte e o sofrimento da finitude. Nesse momento se parecem oráculos, sabem tudo o que realmente importa nessa vida, com uma lucidez incrível.

Mais de 1 milhão de brasileiros morrem a cada ano. E a grande maioria em uma espécie de punição, de calvário. Um dia seremos parte desta estatística, nossos amados serão parte também. Do que lembraremos dos últimos momentos de quem amamos tanto? O que fazemos com o tempo que temos hoje antes que a morte chegue?

Nossa cultura é frágil demais no que diz respeito à consciência da finitude. O tempo acaba, verdade. Mas a maioria das pessoas não percebe que olhar no relógio repetidas vezes esperando o fim do dia é torcer para que sua morte se aproxime.

(…) Quanto mais conscientes da morte, mais humanos nos tornamos. Só assim dá para escolher como passar seu tempo por aqui: viver de verdade até que a morte chegue ou ir morrendo enquanto acha que está vivo.

Texto escrito por: Ana Claudia Quintana Arantes, para a revista TRIP

Republicado em 12/04/16, no blog: https://escritossobreaausencia.wordpress.com/2016/04/12/aprender-a-morrer/

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