No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

7 de outubro de 2016
Ana Lucia Coradazzi

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Mas… como?

O relato abaixo é muito especial. Foi escrito corajosamente pela irmã de uma paciente muito querida por todos nós, poucos dias após sua partida. Poucas vezes nós, profissionais da saúde, reservamos parcelas do nosso tempo para imaginar como está sendo tudo aquilo para quem fica. Até por questões éticas e profissionais, aprendemos a superar as perdas dos nossos pacientes da forma mais eficiente possível para que sejamos capazes de estar prontos para ajudar os próximos. Mas para quem fica, aquela perda é única. Não há outras perdas no horizonte para serem confrontadas. Cada palavra nossa fica impressa em seus ouvidos para sempre. Cada gesto deixa uma tremenda marca em seus corações. Todo cuidado ainda é pouco nessa hora.

Obrigada, Simone, pelas palavras tão generosas. A Cláudia merecia uma irmã como você.

despedida

“Mas como? Há alguns dias estava tudo bem. Conversávamos, ríamos, decidíamos sobre sua roupa do casamento que iria no fim de semana. Ok, ela decidia e eu só ouvia, mesmo não concordando com a saia até os joelhos, com as pernas tão magrinhas que a doença lhe proporcionara. É, não estava assim tão tudo bem já que suas dores e limitações aumentaram evidentemente. Mas ela teimava em ter o seu canto, com suas coisas e suas panelas por lavar qdo bem quisesse. Era o podíamos fazer. Respeitá-la.

Seria apenas uma consulta, depois do casamento teria uma balada dos anos 80 pra ir. Seriam uns 10 dias em Bauru na casa do namorado.
Decidi deixar arrumado o quarto pra ela aqui em casa. Sabia que ela não daria conta por muito tempo, mas diria que era pra quando ela viesse à tarde e quisesse descansar, que tinha um lugar.

– Vou ficar internada para o controle da dor. Ahh, nem precisa vir, tá tudo bem.

Estávamos entāo no final do corredor.

Creio que nāo me choquei tanto, pois já tinha passado essa rotina de internação, essa coisa horrorosa da sonda de alimentação, mãos imobilizadas e tudo mais, com nosso pai. É, já tinha vivido e sofrido tudo isso há alguns meses. Não foi apenas o coração de pedrinha.

E ela caminhava, comia, mas porque sabia que tinha que comer. E eu contrabandeava sorvetes, doces e vitaminas. Já tinha até levado minha bolsinha térmica.
Ela fazia as unhas, se maquiava, ficava bonita. Eu já imaginava a hora em que iam confundir a paciente!

Senti, quando suas pernas e coluna não aguentaram mais a caminhada de poucos passos até o banheiro. Ainda assim, ela faria as sessões de radio e iríamos embora. Melhoraria!

E recebíamos carinho de toda a equipe, sempre! Injusto citar apenas alguns dos nomes que me lembro. Sentíamos a confiança passada pela dra. Juliana. E ela sentiu confiança no enfermeiro André para que ele a ajudasse a levantar da cadeira. Para mim foi apenas um ” tsc tsc” , nele eu confio.

E na tardinha anterior ela estava linda e maquiada. E as enfermeiras entenderam o porquê quando chegou seu príncipe encantado.

E aí ela não acordou. E a máscara de oxigênio chegou. E a doutora, que só passava de manhã, veio falar comigo de novo à tarde.
Pausei na hora em que eu ia perguntar do tempo dela. Coitada, a doutora não é Deus pra saber o momento. Falamos ao mesmo tempo:
“Ela não suportaria a dependência.”
Tive medo.

E deu tempo de toda a família chegar.
Vi exatamente seu último suspiro, deitada em minha cama de cadeiras. Minha mais nova amiga Josie, companheira, de acompanhante estava comigo. Fiquei ainda por alguns momentos antes de chamar a enfermeira.

A perdemos…

Sem prolongar o que a partir daí seria o sofrimento. Sem dor. Com dignidade!

Já se passaram alguns dias mas eu ainda sinto um cansaço fora do normal, por conta da intensidade dos momentos la vividos. Não só pela gente, mas dos amigos e acontecimentos de que tive notícias.

Preciso do tempo…vai passar.”

Simone Tanaka 16/09/2016.

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