No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

4 de novembro de 2016
Ana Lucia Coradazzi

2 comments

A Médica de Cócoras

chouched-doctorQuando eu estava cursando a faculdade de Medicina uma das vantagens que nós tínhamos era a oportunidade de observar bem de perto nossos professores fazendo seu trabalho. A visita médica aos pacientes internados, por exemplo, era quase que um evento. Nós preparávamos o caso com antecedência (para não passar vergonha!) e explicávamos tudo para o docente antes que entrássemos todos no quarto. E era então que começava o show. Nós podíamos observá-los conversando com os pacientes, os termos que usavam, os desenhos que faziam para explicar uma cirurgia, e aprendíamos junto com os pacientes sobre os procedimentos que seriam realizados. A quantidade de informações técnicas que eram fornecidas ali era imensa, mas é claro que estavam todas disponíveis em qualquer bom livro de Medicina. O que fazia a diferença era o “como” elas eram comunicadas. Podíamos assistí-los escolhendo as palavras mais adequadas, o tom de voz, as brincadeiras em momentos oportunos, as situações constrangedoras. Podíamos também perceber quando o contato era péssimo, e nesses casos conseguíamos identificar o tipo de médico que NÃO gostaríamos de ser. Mas, entre todas as ferramentas de comunicação que eram utilizadas por esses profissionais tão experientes, nenhuma me parecia tão intrigante quanto seus gestos. Após algumas dezenas de visitas, não era difícil perceber o quanto um toque nas mãos do paciente podia ser um poderoso instrumento de consolo, ou como uma piscadela de olhos era capaz de transmitir confiança e serenidade.  A própria postura do médico podia ter um impacto crucial no resultado da conversa. Vi pacientes ficarem apavorados depois que o médico ignorou sua presença, explicando o procedimento a que seria submetido em termos altamente técnicos e dirigindo-se exclusivamente aos estudantes. Também vi pacientes que estavam angustiados e receosos ficarem tranquilos e seguros depois que o médico se sentou ao lado da cama enquanto conversavam.

Entre todas as situações que presenciei durante a minha formação, no entanto, nenhuma marcou mais minhas lembranças quanto a médica de cócoras. Eu já era residente e tínhamos internado em nossa enfermaria um senhor com grandes tumorações por todo o corpo, que mais tarde seriam diagnosticadas como um linfoma agressivo. As massas comprometiam gravemente a sua postura, obrigando-o a permanecer sentado o tempo todo, e levemente inclinado para frente. Pequenas mudanças em sua posição lhe causavam falta de ar ou dor.  Isso fazia com que nós falássemos com ele olhando para o topo de sua cabeça e o examinássemos nessa posição. Passamos os dados clínicos para a médica responsável, falamos do volume das massas tumorais e das medicações que já haviam sido administradas, mas ninguém tocou no assunto da posição pitoresca na qual o paciente estava aprisionado. Era uma situação desconfortável para todos, e ele próprio se sentia extremamente constrangido.

A médica entrou no quarto para a visita, pronta para mais uma conversa corriqueira com um paciente com suspeita de linfoma. Ao vê-lo, ela se deteve por imperceptíveis dois segundos e, sem deixar que qualquer constrangimento se apoderasse do paciente, não teve dúvidas: agachou-se em frente a ele, de cócoras, de tal forma que seus olhos pudessem encontrar os dele enquanto conversavam. O que no início era uma situação esquisita mostrou-se uma estratégia eficaz para estabelecer empatia entre os dois. Ele, sempre tão reservado e monossilábico, aos poucos começou a relatar fatos que não tinham surgido anteriormente. Sorriu algumas vezes, e tive a impressão de que até mesmo sua dor tinha melhorado. Ela se manteve de cócoras até o final da conversa, sem titubear (mesmo com as pernas certamente já meio adormecidas). A partir desse momento, todos nós passamos a conversar com ele assim, de cócoras, o que permitiu que descobríssemos nele uma pessoa bem humorada e alto-astral, bem distinta do topo-de-cabeça de quem vínhamos cuidando.

Já se passaram muitos anos depois desse dia. Já vi pacientes que só conseguiam ficar sentados, só deitados, só de bruços.  Vi uma senhora com um tumor tão cruel em seu pescoço que a obrigava a ficar o tempo todo com o queixo encravado em seu peito, torcido para a esquerda, tornando quase impossível olhar em seus olhos. Quase. A percepção do poder do olhar se tornou tão presente na prática que, mesmo com aquele pescoço revirado, demos um jeito de mirá-la nos olhos (precisei subir a altura da cama e colocar um banquinho quase embaixo dela, mas deu certo). Não é devaneio, nem idealismo médico, nem tampouco uma mania pessoal sem sentido. Trata-se de uma ferramenta terapêutica poderosa. Ao nos aproximarmos do paciente, aumentamos nossas chances de diagnosticar corretamente e de tratá-los da forma que faça mais sentido para eles. Isso permite que encontremos o paciente no meio de toda aquela doença. E ainda tem a vantagem de poder ser ensinada com relativa facilidade.

Há alguns anos uma aluna do quarto ano, que estava estagiando conosco na Oncologia, me viu agachando em frente a um paciente que estava sentado ao lado da cama para conversar sobre o tratamento. Quando saímos do quarto, ela me perguntou por que eu fazia aquilo, e eu expliquei. Ela então me disse, um tanto constrangida, que tinha aprendido logo no início da faculdade que um médico não pode se rebaixar diante de um paciente, porque isso tira sua credibilidade. Fiquei pensando nos motivos que fazem um médico imaginar que se agachar diante de alguém significa rebaixar-se. Acho que é o contrário. Ao nos colocarmos em pé de igualdade com os pacientes, ambos nos elevamos a uma categoria especial: a de seres humanos conectados entre si.

A boa notícia é que, desde a médica de cócoras, já vi inúmeros outros colegas fazendo a mesma coisa: se agachando, abraçando pacientes, puxando a escadinha ao lado do leito para se sentar, providenciando um bolo no dia do aniversário de um paciente internado. A empatia e a compaixão são altamente contagiosas, e devem ser almejadas pelos médicos tanto quanto a perícia com o bisturi ou a habilidade no manejo das drogas. É nosso dever nos esforçarmos para dominar essas poderosas ferramentas terapêuticas. Mesmo que precisemos ficar assim: de cócoras.

 

2 thoughts on “A Médica de Cócoras

  1. Que lindo!
    Olhar as pessoas nos olhos nos eleva a nossa verdadeira condição: a de seres humanos. Nem melhores, nem piores que os outros, mas, iguais.
    E mostra a maior das qualidades, a humildade.
    Parabéns Dra.

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