No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

25 de abril de 2017
Ana Lucia Coradazzi

6 comments

O Médico e o Final

S. Gilberto tem hoje mais de oitenta anos. Boa parte deles foi vivida dentro do consultório, ajudando seus pacientes a controlarem o diabetes, os problemas na tireoide, o peso excessivo. Médico à moda antiga, generoso e dedicado, costumava acompanhar seus casos por anos, não raramente por décadas. As mesmas numerosas décadas em que dividiu sua vida com Dona Amélia, e durante as quais trouxe seus amados filhos ao mundo.

Há algum tempo seu corpo começou a mostrar os sinais da idade avançada. Uma pressão alta ali, um problema pulmonar acolá, a dificuldade para escutar, as quedas frequentes. S. Gilberto começava a caminhar, a passos lentos, para o final da sua vida. Há algumas semanas esse percurso foi rapidamente encurtado na forma de um derrame cerebral extenso, que lhe roubou a capacidade de se expressar, bem como grande parte dos movimentos do seu já debilitado corpo. Agora, oficialmente, ele tinha se tornado um paciente fora de possibilidade de recuperação. Somente um pequeno resquício do bom médico, esposo e pai que ele foi.

Nos meus anos lidando com pacientes com doenças terminais, grande parte deles idosos, ouvi muitas vezes de seus familiares e amigos o quanto esta ou aquela situação pareciam injustas. São muitos os comentários do tipo “Ele era tão dedicado, tão generoso, e agora vai acabar seus dias desse jeito…”, ou então “Ela não merecia um final tão triste… sempre foi tão batalhadora…”. É muito difícil compreender as profundezas desse sentimento de injustiça, de demérito, de inconformismo quando uma vida nobre e admirável começa a chegar ao fim.

No fundo de nossas almas, todos acreditamos que podemos ser salvos da doença e do sofrimento se agirmos de forma digna (quem sabe, com um pouco de sorte, possamos até escapar da morte?). Essa não é, obviamente, uma crença racional. Todos sabemos que nossa única certeza nessa vida é a de que vamos morrer um dia. Falo da crença irracional – e muitas vezes inconfessável – de que podemos conquistar a vida eterna por merecimento, confundindo a tal vida eterna com a vida do nosso pobre corpo físico, que obviamente não foi criado para durar tanto tempo quanto gostaríamos. Sofremos com a certeza do nosso próprio final, mas sofremos ainda mais quando presenciamos uma vida se esvaindo sem que todas as virtudes daquele ser querido tenham sido devidamente recompensadas. Sempre nos parece que o tempo foi curto demais, que o sofrimento foi desproporcional ao merecimento, ou que houve algum engano divino na interrupção de uma vida tão valiosa.

Só que o mundo não obedece às nossas crenças e vontades, e muito menos aos nossos receios. O fato é que a vida das pessoas não é pautada por aquilo que elas querem, e sim pelas coisas das quais elas têm medo, as coisas que elas não querem para si. O medo de acabar como nossos pais pode nos levar para uma vida inteira longe deles. O pavor da possibilidade de perder um filho pode levar à decisão de não tê-los. O receio de fracassar na profissão pode nos levar a seguir uma carreira medíocre e que não nos representa. E, é claro, o terror de sermos irreversivelmente esquecidos, de termos vidas sem nenhum significado, pode nos levar à loucura e à depressão. Vamos vivendo nossos dias assim, mais preocupados em fugir do que nos assusta do que em investir no que faz sentido para nós.

Médicos, nesse ponto, têm o “bônus” de assistir, todos os dias, a vidas sendo desperdiçadas. São infinitas brigas familiares, questões financeiras desagregadoras, atitudes egoístas, ressentimentos infundados, laços desfeitos, mentiras desnecessárias. Tudo em nome de uma vida que valha a pena, que permita às pessoas a sensação de felicidade (ou saciedade), mesmo que por poucos minutos. Vemos o desgaste inacreditável de tempo e energia com estratégias que nos afastem da sensação de fracasso, na maioria das vezes sem que tenhamos qualquer ideia do que para nós viria a ser o sucesso. A vida se transforma apenas numa busca insana de um final feliz. Todos tentando, de alguma forma, fazer por merecer.

A verdade é que todos, os bons e os maus, os egoístas e os generosos, os ansiosos e os sensatos, os honestos e os larápios, terminam seus dias de forma quase que aleatória. Não há qualquer relação de merecimento. Não há qualquer nexo do tipo causa-e-efeito. Da mesma forma que uma vida virtuosa pode terminar de forma catastrófica, uma existência lamentável pode ser interrompida de forma tranquila e feliz. Para nós, médicos, muitas vezes parece uma tremenda injustiça. Vemos no S. Gilberto (e em tantos outros) a nossa própria vida revelada, expondo duramente nossos anos de dedicação e esforço e reduzindo-os a uma figura despersonalizada e sem autonomia. E olha nosso medo aí de novo, dando o ar de sua graça.

Mas o mais intrigante  é constatar que essa injustiça generalizada, esse caos aparente na vida e na morte das pessoas, não é necessariamente deprimente ou angustiante. A verdade é que o mérito de uma vida pautada pela generosidade não será necessariamente compensado por um final tranquilo, mas sim por uma existência significativa. Como a do S. Gilberto. Vê-lo inerte, sem conseguir nem mesmo murmurar um bom dia, é difícil e doloroso, mas ouvir Dona Amélia e seus filhos falando sobre os valores que ele ensinou, os exemplos que ele deu, os olhares que lhes dirigiu, supera com folga a incômoda sensação de injustiça. A admiração nas palavras da filha mais nova. O carinho nos gestos da esposa. A coragem na postura dos filhos. As histórias sobre sua coragem, sua doçura, sua honestidade e, principalmente, sobre como ele conseguia enfrentar seus medos com dignidade e respeito por si mesmo. São pedaços eternos da pessoa valorosa que S. Gilberto foi um dia. De repente, sua situação nem parece mais tão dolorosa assim.

Nossos desejos são muitos, geralmente bem mais numerosos que nossos medos. Mas são os medos que nos conduzem. É a forma como lidamos com eles que nos transforma nas pessoas que somos, e define o legado que deixaremos quando tivermos que partir. Respeitar nossos medos, trabalhá-los e utilizá-los para deixar esse mundo melhor do que o encontramos é o que faz qualquer final se parecer com o que realmente é: o simples término da nossa missão por aqui.

6 thoughts on “O Médico e o Final

  1. Obrigado pelo relato. Valeu-me muito.

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  2. Dra Ana Lucia, ao ler seu belíssimo (e pertinente) texto, só me vem a mente a seguinte frase do sábio Pitágoras:
    “Anima-te por teres de suportar as injustiças; a verdadeira desgraça consiste em cometê-las.”

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  3. Apaixonada pela sua forma de escrever e o seu olhar sobre o sofrimento alheio, sou estudante de medicina e espero um dia conseguir ter a mesma ternura e tranquilidade diante do sofrimento dos meus pacientes!

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    • É um treino constante, Thamires. É muito fácil, durante a formação médica, nos deixarmos levar pelo caminho menos trabalhoso, subvalorizando a importância das relações entre médicos e pacientes. Dói menos, mas também é muito menos recompensador.
      Boa caminhada!!! Bjo!

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