No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

1 de junho de 2017
Ana Lucia Coradazzi

4 comments

Com a nossa letra

*foto meramente ilustrativa

Seu João tem perto de 70 anos, e seus últimos meses não têm sido lá muito fáceis… Os muitos anos de tabagismo lhe renderam um câncer de pulmão avançado, diagnosticado no final do ano passado, e sem possibilidade de cura desde o início. A primeira estratégia de tratamento, com quimioterapia, não proporcionou qualquer diminuição no tumor, e foi então proposto um novo esquema de drogas, que ele iniciou há cerca de 2 semanas. Em decorrência dessa nova quimioterapia, a imunidade do Seu João ficou muito comprometida, e ele acabou sendo hospitalizado em caráter urgente com uma grave infecção pulmonar, precisando de antibióticos potentes e de medicações para manter sua pressão em níveis aceitáveis. Embora as medicações tenham proporcionado melhora, Seu João ainda está muito cansado, com falta de ar a qualquer pequeno esforço, e com alta possibilidade de nova piora em breve, com risco de entrar no que chamamos de insuficiência respiratória. Nesse caso, a conduta médica padrão é a entubação, que consiste na colocação de um tubo em suas vias respiratórias e a conexão desse tubo a um aparelho que respirará por ele. Foi no meio dessa situação difícil que tivemos nossa conversa.

Seu João estava sentado ao lado da cama, o semblante cansado, precisando de oxigênio o tempo todo e com medicamentos pendurados em frascos por toda a sua volta. Agachei ao lado dele, devagar, e comecei a conversa perguntando o que estava acontecendo. Seu João foi claro. Sabia que tinha um câncer muito grave, e que seu pulmão já era muito ruim mesmo antes do diagnóstico, porque ele próprio o tinha estragado com o cigarro. Sabia que a quimioterapia não tinha funcionado. Sabia que o tratamento novo tinha poucas chances de melhora, e que a complicação atual seria a primeira de muitas, caso o tratamento ainda fosse mantido. Sabia também que estava correndo risco de piorar rapidamente, e que nessa situação os médicos poderiam entubá-lo e ligá-lo a máquinas que respirariam por ele. Ele contou tudo isso com uma grande calma, mostrando uma lucidez que poucas vezes presenciamos.

Revisei junto com ele tudo o que vinha acontecendo nos últimos meses, e o que esperávamos que acontecesse dali para frente. Um panorama nada animador. Era muito claro, para Seu João, que sua vida chegaria ao fim em pouco tempo, independentemente do que fizéssemos. E foi então que perguntei como ele gostaria que fosse. Seu João respondeu prontamente, do seu jeito simples e direto: “Eu já sei que não tenho muito jeito, então não compensa pra mim esse negócio de colocar tubo no pulmão, porque eu ia acabar morrendo de qualquer jeito. Não quero isso pra mim não. Só quero que vocês façam coisas que não judiem de mim, e que possam ajudar na falta de ar. Não quero morrer com falta de ar.”

Expliquei que temos muitas estratégias para aliviar a falta de ar, e que só propomos a entubação quando não conseguimos aliviá-la de jeito nenhum. Mas disse também que há uma opção para alívio da falta de ar, quando não desejamos a entubação para um paciente, e que essa opção seria sedá-lo, ou seja, administrar medicamentos que tirem a consciência para que ele não sinta desconforto. Se não temos consciência do desconforto, não sofremos. Isso é o que chamamos sedação paliativa. Expliquei que a medicação apenas o deixaria dormindo, e que não mudaria seu tempo de vida. E que só faríamos isso se sua falta de ar ficasse intolerável mesmo com as medidas que tínhamos em mãos.

Seu João olhou para mim, tranquilo e aliviado: “É isso que eu quero, doutora. Se eu não estiver suportando, pode me colocar para dormir. É desse jeito que quero ir embora. Nada de tubos.”

Essa breve conversa é o que chamamos, em Cuidados Paliativos, de Diretivas Antecipadas de Vontade. Isso significa que damos ao paciente com doenças graves/irreversíveis a oportunidade de decidir como querem partir. Permitimos a eles que façam escolhas, que decidam o que lhes é intolerável ou humilhante, e zelamos para que seus desejos sejam respeitados. É claro que a lucidez e tranquilidade do Seu João não são a regra. A maioria de nós não se prepara para o final, mesmo tendo plena consciência de que vai acontecer. Preferimos deixar para pensar nisso mais tarde. Só que, muitas vezes, o “mais tarde” acontece mais cedo do que esperávamos. E é aí que nos vemos cheios de decisões que não tomamos sendo deixadas nas mãos de médicos ou familiares que não conseguem fazer isso por nós. Ninguém nos conhece tão bem quanto nós mesmos. Ninguém experimenta nossas angústias e medos mais íntimos como nós. Ninguém sabe o que nos vai na mente (e no coração).

Não precisamos estar gravemente doentes ou em fase final de vida para decidir sobre como queremos que as coisas sejam feitas. Esse é um processo contínuo de auto-conhecimento, e que pode mudar a qualquer momento. Mas é preciso expressar isso para aqueles que estão próximos de nós, para que saibam o que fazer quando nossa hora chegar. Sem drama, sem burocracia. Basta uma folha de papel e vontade de decidir sobre a própria história. Basta deixar claro quais são nossos desejos. Seu João já vinha pensando nisso há muito tempo. Já tinha ruminado sobre as informações que os médicos vinham lhe passando, já tinha pensado sobre a própria existência. Ele já sabia o que fazia sentido para ele. Simples assim.

É nos nossos momentos finais que conseguimos ver com clareza nosso caminho até aquele minuto. Ressignificamos nossas vidas, corrigimos os acidentes mais graves do percurso, perdoamos e somos perdoados, definimos nosso legado. Está em nossas mãos escrever as últimas páginas da nossa história. Com a nossa própria caligrafia.

 

4 thoughts on “Com a nossa letra

  1. Sou médico, meu pai também é médico está em casa morrendo de câncer de próstata. Lendo seus textos vejo um filme a cada paragrafo. Já passei seu belo blog para o grupo de colegas da faculdade. Confesso que me senti desconfortável na frase “não judiem de mim” pela conotação errônea que esse verbo ainda passa. Forte abraço.

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  2. Dra. Ana sou Renata, de Panorama, interior de SP, e vc cuidou de minha mãe em seus últimos dias e conversou muito com meu pai até fazê-lo entender que infelizmente estava chegando a hora. Obrigada por tamanha sensibilidade. Ah, se 50% dos profissionais tivessem a sua compaixão e humanidade…
    Nós estamos aprendendo a viver sem nossa luz…ela nos faz muita falta! Papai se apoia a mim e eu á ele.
    Continue sendo esse anjo na vida das pessoas.

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