No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

1 de julho de 2017
Ana Lucia Coradazzi

15 comments

A Teoria do Martelo

Os olhos discretamente arregalados, ombros encolhidos denunciando a insegurança, e as mãos enroscadas uma na outra. Ela vinha conversar comigo depois de dois anos de batalhas contra o câncer do pai, portador de glioblastoma multiforme, um tumor cerebral muitas vezes fatal e de difícil tratamento. Estava visivelmente cansada, e tinha pedido para falar com alguém da equipe de Cuidados Paliativos já há algumas semanas, mas a médica responsável pela assistência ao seu pai tinha desencorajado a conversa, dizendo que era cedo demais. Ela insistiu, e depois de vários pedidos a médica concordou em solicitar nossa avaliação, não sem antes frisar que não adiantaria nada. E agora estávamos ali, uma de frente para a outra, conversando sobre o calvário que eles vinham enfrentando.

S. Cícero* tinha perto de 70 anos e sempre foi um homem ativo e cheio de energia. A família toda girava em torno dele, como satélites orbitando ao redor do sol. Quando recebeu o diagnóstico do câncer, imediatamente adiantou que não suportaria uma vida de dependência, em que precisasse de ajuda até para se alimentar. Não queria que outros tivessem que tomar decisões por ele. Mas a doença, cruel como ela só, não respeita os desejos de ninguém. Após algumas linhas de tratamento, os medos de S. Cícero se materializaram em sua vida, e hoje ele não respondia a qualquer estímulo. Alimentava-se por uma sonda, precisava de fraldas, não reconhecia as pessoas, ficava longos períodos sem nem mesmo abrir os olhos. Quando abria, exibia seu olhar nebuloso, desprovido de qualquer emoção. Vinha sendo hospitalizado quase que continuamente devido infecções de repetição, complicações vasculares ou outras intercorrências, duas delas culminando em períodos na UTI. A filha, assistindo à vida sem qualquer significado do pai, tinha pedido à médica que não fizesse mais tratamentos agressivos, quimioterapias ou procedimentos que, todos sabiam, não devolveriam a vida que S. Cícero considerava minimamente aceitável. Mas ouviu da médica, para seu desespero, que enquanto há vida há esperança, e que o que ela estava pedindo era praticamente o assassinato do próprio pai. A médica ainda propôs uma nova linha de tratamento, experimental, que aparentemente poderia aumentar o tempo de vida dele em até algumas semanas. Disse ainda que era seu dever, enquanto médica, tentar de tudo pela vida de um paciente, e que não, não seria possível que ele melhorasse do ponto de vista neurológico, mas pelo menos prolongariam seu tempo de vida.

Foi no meio dessa angústia que começamos nossa conversa. Para mim era bastante claro que o que S. Cícero e sua filha consideravam como “vida” era bem diferente do conceito de sua médica. O aumento de “algumas semanas de vida”, sem considerar o “como” elas seriam vividas, tinha importância apenas para números estatísticos. Para S. Cícero, não significavam nada. Para sua filha, representavam mais sofrimento e angústia. Foi quando ela me perguntou, com a voz trêmula de quem começaria a chorar em breve: “Por que os médicos não conseguem parar?”

Creio que a resposta está no que eu chamo de Teoria do Martelo. Durante os anos de faculdade, nós médicos nos empenhamos em adquirir ferramentas para combater as doenças dos nossos pacientes. Aprendemos sobre como as doenças funcionam, como evoluem e quais os tratamentos que podem detê-las. Vemos todas as moléstias – entre elas o câncer – como pregos que precisam ser martelados, e nos esmeramos em garantir que tenhamos martelos potentes em nossas mãos, que possam dar conta do recado. Quanto mais potente o martelo, mais eficaz nossa martelada. Passamos nossas noites e finais de semana estudando guidelines de tratamento, indo a congressos, conversando com colegas e nos envolvendo com pesquisas de novos tratamentos, tudo com o objetivo de aumentarmos o poder do nosso martelo. É um esforço enorme. Pagamos um preço alto por isso, tanto em termos financeiros como, principalmente, no que diz respeito à nossa vida pessoal.

A questão é que, nessa busca incessante por ferramentas poderosas, muitos de nós acabam perdendo a capacidade de enxergar quando o que temos à nossa frente não é um prego. Temos pacientes tão frágeis, tão dominados por suas doenças, que estão muito mais para flores. E nós nos vemos confusos, diante deles, com um grande martelo nas mãos, e só. E é assim que nos pegamos desferindo furiosas marteladas sobre flores delicadas, destruindo suas pétalas, anulando seu perfume, eliminando seu legado.

O fato é que não somos obrigados a usar o que temos nas mãos. O que deveríamos fazer é aumentar nossas opções de ferramentas. Martelos são para pregos. Para flores, um bom regador funcionaria muito melhor. Então, que possamos aprender a manejar um regador. Ou alguém já viu um jardineiro martelando seu canteiro de rosas?

Médicos não são meramente prescritores de remédios. Médicos cuidam de pessoas que são, em sua mais íntima essência, totalmente diferentes umas das outras, e portanto precisam de abordagens diferentes. Entre nossas ferramentas mais poderosas está a sensibilidade para identificar suas diferenças, suas necessidades, sua essência. “Quando só o que você tem nas mãos é um martelo, tudo à sua frente lhe parece um prego”, diz a sabedoria popular. Médicos que praticam e exercem essa sensibilidade têm em suas mãos muito mais do que um martelo. É assim que conseguem enxergar as flores, e zelar para que seu perfume não se perca, para sempre, nos corredores dos hospitais.

*nome fictício para proteção da privacidade do paciente

15 thoughts on “A Teoria do Martelo

  1. Nao se trata de buscar culpados pela nossa postura. Ha responsabilidade de todo lado. Tudo é multifatorial. É um absurdo que formemos medicos NAO VOCACIONADOS. Com professores titulados, mas tabem nao vocacionados para o ensino, a formaçao. Assim saimos acreditando que medicina é pura ciencia. A arte de acolher, de partilhar, esta nao nos é ensinada, ate porque nao ha, o mais das vezes, vocacao. Com vocaçao e boa formaçao tudo mudaria. Uma pena que tenhamos de passar por isto

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    • Concordo, Sebastião. Nossa formação médica regrediu nas relações humanas na mesma proporção em que progrediu em tecnologia. Felizmente venho assistindo a mudanças importantes, iniciativas de escolas médicas e de acadêmicos de Medicina, que buscam novas formas de se relacionar com os doentes e de compreender nossos limites. Obrigada!!!

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  2. Só quem passou pelo problema sabe o significado real do martelo sendo usado como ferramenta para flores quando precisaria de ferramentas especiais para lidar com essas flores.

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  3. Dra. Ana, conheci por acaso esse seu trabalho aqui no blog e venho por meio desta simples mensagem agradecê-la por tão lindo exemplo. Também sou estudante de medicina, em vésperas de dá início ao meu período de internato, e a senhora não imagina o quão maravilhoso é ler todos esses relatos e sentir a necessidade de colocar toda essa sensibilidade e empatia em prática. Me chamo também Ana Lúcia, sou também encantada com cuidados paliativos e com a geriatria e espero seguir tendo como inspiração também os seus exemplos. Muito obrigada por tudo. Um grande abraço.

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  4. Que post maravilhoso.

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  5. Um dos mais belos artigos que li nesse blog… Presenciei muitas marteladas em flores 💐 no hospital em que trabalhava como psicóloga hospitalar. As histórias que a Dra conta, são lindas, apesar de triste… Trazem reflexões profundas. Parabéns!

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    • Tem razão, Kesia, é mesmo triste assistir a certas situações, principalmente quando poderiam ter sido evitadas. Mas é entrando em contato com essa realidade que somos impulsionados a buscar alternativas melhores. É a partir da dor (da nossa e da dos outros) que nasce o desejo de mudança, de melhora, de atitude. Obrigada pelos comentários! Um grande e carinhoso abraço!

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  6. Passei por um momento parecido e Deus colocou no meu caminho um anjo chamado Médico! Sim com letra maiúscula! Minha mãe partiu em três meses rodeado de cuidados e sem dor, mas sem prolongar o sofrimento dela nem o meu! Que Deus abençoe esse Médico!

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  7. Sim, é preciso dar voz ao paciente terminal em sua individualidade. Ótimo texto, parabéns! O seu olhar apurado, capaz de ir além da enfermidade, enxergando um ser humano, e não um diagnóstico, dignifica a classe médica.

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  8. Dra. Ana, sou Assistente Social e por muitos anos atuei com programas de saúde de pacientes em Home Care… e após minha caminhada profissional vivenciei a doença de minha mãe no hospital e no Home Care (em minha casa). Foram 11 meses de muita luta… hoje tenho uma fanpage e um blog onde eu falo sobre o Cuidado. Essa foi a forma que eu encontrei para compartilhar minha experiência profissional e pessoal, e poder contribuir para um novo olhar sobre o cuidado do paciente. Te admiro mesmo de longe! Adoro ler seus posts! e saber que existem médicos como você me dar força para continuar minha missão. Um grande abraço,

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    • Muito obrigada pelas palavras, Cynthia! Fico sempre feliz quando encontro pessoas que encaram o cuidado como algo muito maior do que uma atividade profissional (Aliás, sou fã incondicional das assistentes sociais. Vcs não são desse mundo!). Bjs!

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  9. Dra Ana que alento poder acompanhar seu blog. Meu pai tem 85 anos. Há 10 anos luta contra o melanoma e agora contra um tumor muito agressivo de bexiga. Já está com 2 nefrostomias e dores. Eu me sentia culpada por querer que ele partisse mas vejo que seria um alívio para ele. Espero ser forte para poder ajuda-lo nessa jornada final. Obrigada pelas palavras.

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    • Rochele, que bom poder oferecer algum alento pra vc, mesmo sem conhecê-los. É sempre muito difícil passar por isso, mas vc não está sozinha, como pode ver pelas histórias do blog. Espero poder continuar ajudando vcs. Um grande abraço!

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