No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

3 de agosto de 2017
Ana Lucia Coradazzi

5 comments

A Boa Viola

Dona Rita* tem hoje 71 anos. Eu a conheci por causa de um câncer de mama, pequenino como uma ervilha, já operado, desses que o oncologista olha e sorri: “Esse eu resolvo fácil”. Vi todos os seus exames antes de chamá-la, e já estava com a estratégia de tratamento pronta na minha cabeça: radioterapia, alguns anos de tratamento hormonal e em poucos minutos eu já poderia encerrar o ambulatório e ir almoçar (eu estava morrendo de fome). Chamei Dona Rita. Ela apareceu, lá no final do corredor, acompanhada de uma moça de uns 40 anos. Vinha devagar, passo incerto, precisando do braço da moça como guia. A saia azulada puída que só vendo, encontrando as meias grossas de lã na altura dos joelhos. Os cabelos acinzentados, presos num coque, já estavam desgrenhados naquela altura do dia. Alguma coisa em Dona Rita fez meu coração desassossegar.
Logo após meu “Boa tarde” já ficou claro que ela tinha uma limitação mental grave, com grande dificuldade para falar e compreender as palavras. Não conseguia responder perguntas simples e precisava da ajuda da moça – que eu presumi ser sua sobrinha ou vizinha – para me contar sua história. Na verdade, minha impressão era de que a própria Dona Rita mal sabia que história era essa, tanto com relação ao câncer quanto a tudo o que lhe acontecia na vida. A moça me explicou que, ainda criança, Dona Rita tinha caído de uma laje e ficado muito sequelada por uma lesão cerebral grave. Não era capaz de tomar decisões ou desenvolver uma linha de raciocínio (mesmo que simples), não conseguia formar opiniões a respeito de nada e tinha grande dificuldade para se expressar. Mas sabia cozinhar muito bem, cuidava da casa sozinha e executava qualquer tarefa simples que não exigisse raciocínio ou julgamento.
Ela falava da Dona Rita com tanto carinho que me vi obrigada a perguntar qual era sua relação com ela. A moça respondeu, discretamente constrangida, que era sua filha. Acho que não pude esconder meu espanto, porque a moça logo emendou a explicação de que não, Dona Rita não era casada, nem tinha como saber o que era se relacionar com um homem. Os segundos de silêncio que se seguiram foram mais que suficientes para que eu entendesse que a moça provavelmente era fruto de um estupro. Olhei para Dona Rita, que mantinha seu olhar distante, e me enchi de compaixão. Devia ter sido uma vida muito dura, a dela. Centenas de pensamentos me invadiram daquele momento até o final da consulta. Ao examiná-la, eu me sentia inconformada por alguém ter abusado de uma pessoa tão frágil. Ao explicar o tratamento, meus pensamentos vagavam entre a piedade e a indignação. Meu desconforto era quase palpável.
Ao final da consulta, já na porta, nos despedindo, os olhinhos de Dona Rita se encontraram com os meus, e ela sorriu. Cutucou minha mão esquerda e juntou suas duas mãozinhas, formando uma espécie de bola, entregando-a para mim. A filha traduziu: “Ela vai fazer um bolinho para a senhora. É a especialidade dela”. Meu coração subitamente aumentou de tamanho, até expulsar de mim todo aquele desconforto. O gesto de Dona Rita tinha sido como ouvir uma música daquelas que acalentam nossa alma, e nem a fome me incomodava mais.
Rubem Alves, em seu livro “Ostra Feliz Não Faz Pérola”, escreveu o seguinte: “A viola só existe para fazer música. Sem o tocador a viola fica muda. A viola, para ser boa, tem que fazer a música que está na alma do tocador. Pois o corpo é assim mesmo: como uma viola… Há muita gente, viola boa, saúde 100%, que é como viola desafinada, sem tocador. Não faz música. Ninguém é amado por ter saúde boa. Há pessoas de boa saúde cuja companhia ninguém deseja. E, ao contrário, há pessoas de corpo doente que são fontes de beleza. Muita viola velha faz beleza de fazer chorar…” Olhando Dona Rita ali, sorrindo, com seu bolinho imaginário nas mãos, eu pude ouvir a música que sua violinha era capaz de tocar. E que ia muito além da sua capacidade de falar, pensar ou se defender das crueldades do mundo.

*nome fictício para preservar a identidade da paciente

5 thoughts on “A Boa Viola

  1. emocionante! Uma história que só quem escreve com o coração pode deixar assim, tão tocante!
    Dra, vc é como o tocador de viola bem afinada! Parabéns!

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  2. Você realmente nos contagia com seu amor pelo outro!

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  3. É um privilégio trabalhar com você! Tão iluminada… tão especial… você cumpre sua missão na terra com primor!

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  4. Emocionante e carinhoso!
    Obrigada por escrever tão lindamente!

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