No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

2 de agosto de 2019
Ana Lucia Coradazzi

2 comments

Sem Fronteiras

Desde antes de entrar para a faculdade eu alimentava o sonho de, um dia, trabalhar com os Médicos Sem Fronteiras. Eu lia notícias sobre as ações deles, assistia aos comerciais, e aquilo tudo me tocava o coração. Ainda hoje, formada médica há tantos anos, me emocionam as cenas das inúmeras vítimas de tragédias, das crianças tão magras que quase só vemos os olhos, das mães desoladas por suas perdas diárias, dos homens tão fracos que mal conseguem se manter em pé. Mas hoje meus olhos se desviam, acabam buscando outro foco: os médicos em si. Nos vídeos, vemos médicos de todas as partes do mundo, encostados em paredes descascadas depois de um dia difícil, ou emocionados ao carregar uma criança que caberia na palma de uma de suas mãos, ou observando orgulhosos um paciente que conseguiu se recuperar. Nós os vemos preocupados ao transportar pacientes graves numa ambulância que luta contra os buracos na estrada de terra, obcecados em conseguir chegar a tempo. Às vezes, conseguimos perceber apenas um ou dois de seus dedos enluvados, agarrados por um bebê que mal tem lágrimas para chorar. E, em todos os momentos, a frase que resume o seu trabalho: “Aguente firme. Você não está sozinho.”

Não estamos falando de super-heróis ou de santos. O que motiva esses médicos nada tem a ver com super-poderes ou com o sobrenatural. Trata-se da característica humana mais bonita de que dispomos: a de se importar. Trata-se de olhar cada pessoa como parte de si mesmo e de compreender que todos precisamos uns dos outros. São médicos que entendem sua profissão como ferramenta para tornar o mundo (de todos) melhor. Às vezes, eles atravessam fronteiras longínquas e áridas para fazer isso. Pode ser necessário abrir mão da sua família, do seu tempo, do seu conforto. Pode ser necessário abrir mão das suas crenças e lidar com a frustração. E, mesmo assim, vemos nos olhos desses médicos uma paz que nos comove. A mesma paz que nos invade quando somos capazes de transformar a vida de alguém num tempo que vale a pena ser vivido.

Penso no quanto somos médicos sem fronteiras no nosso dia-a-dia. As incontáveis horas longe de casa, a disponibilidade contínua às demandas da profissão, os inúmeros desconfortos a que nos submetemos para colocar nosso conhecimento em prol do bem-estar do outro. Penso no quanto emprestamos nossos ouvidos (e nossos ombros, e nossos corações) para promover alívio. No quanto abrimos mão dos nossos valores para acatar os valores do outro, em respeito ao seu sofrimento. As fronteiras que atravessamos todos os dias não são geográficas. Elas são fronteiras humanas. Ao ouvir o outro compassivamente, tentando compreender sua dor, seu motivos, suas prioridades, demolimos as barreiras entre nós. Ao disponibilizarmos nosso tempo e nosso conhecimento para melhorar a vida de alguém, evidenciamos a conexão óbvia que existe entre os seres humanos, e que enche nossas vidas de significado.

Viajar ao Congo ou a Mianmar para dedicar seu tempo e seu trabalho a pessoas que estão sofrendo é incrível, e rompe fronteiras em sua concepção mais poderosa. Mas a viagem em si pouco vale se não formos capazes de transpor as fronteiras entre nós mesmos e nossos pacientes. Podemos escolher ser meramente técnicos, seguir rigorosos protocolos terapêuticos, registrar seus resultados, e terminarmos nosso dia com a sensação de dever cumprido, e talvez sejamos bons médicos.  Podemos nos deixar enfeitiçar pelo poder que nosso conhecimento pode exercer sobre a vida alheia, e nos tornarmos monstros arrogantes de jaleco. Também podemos nos deixar aprisionar na armadilha de reclamar o tempo todo das nossas condições de trabalho, e nos tornarmos médicos medíocres. A escolha do caminho é nossa, mas saibamos que a medicina nos permite muito mais. Exercer a medicina com a reverência, o respeito e a humildade que ela exige não é para todos, mas é um caminho e tanto para nos sentirmos plenos e para construirmos uma versão muito melhor de nós mesmos. Essa medicina independe do local onde estamos, das pessoas a quem atendemos ou do quanto recebemos no final do mês. Ela só depende de nós mesmos, de nos importarmos, de garantirmos que nenhum de nós está sozinho. Só depende das fronteiras que estamos dispostos a atravessar.

2 respostas para ‘Sem Fronteiras

  1. Uau, Ana, que texto bonito e verdadeiro!! E vc tem toda razão, o que de fato importa é SE IMPORTAR, seja aqui, no Congo, em Miamar, ou no SUS da esquina…
    Beijão, que bom que vc se importa!!!
    A.

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