No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

3 de fevereiro de 2020
Ana Lucia Coradazzi

3 comments

Empatia, por Audrey Hepburn

Hepburn’, Paris, 1951. Crédito: © Condé Nast

“Nada é mais importante que a empatia para o sofrimento de outro ser humano. Nada. Nem uma carreira, nem riquezas, nem inteligência, e certamente nem status. Precisamos nos sentir como o outro se quisermos sobreviver com dignidade.”

Quem se lembra de Audrey Hepburn apenas como ícone do cinema, mundialmente conhecida por sua carinha de anjo e sua atuação em filmes marcantes como Bonequinha de Luxo e Sabrina, talvez se espante em saber que a frase acima, tão lúcida e altruísta, foi uma das muitas ditas por ela durante sua vida. O fato é que Audrey conheceu o sofrimento e a miséria humana muito de perto: ela viveu na Holanda durante o período da ocupação alemã, na Segunda Guerra Mundial. Passou fome, adoeceu gravemente, viu parentes sendo encaminhados a campos de concentração, e tantas outras formas de sofrimento. Audrey sentiu na pele a importância da empatia no alívio da dor, seja física, espiritual, moral ou psicológica. Conforme os anos se passaram e sua vida passou a ser permeada pelo sucesso e carinho do público, ela foi se tornando ainda mais sensível à dor do outro, recusando-se a se deixar seduzir pela fama e pela riqueza. É também dela a frase “À medida que você envelhecer, vai descobrir que tem duas mãos: uma para ajudar a si mesmo e outra para ajudar os outros.”

A postura adotada por ela durante a vida não é nada desprezível. É da natureza humana se deixar deslumbrar pelo conforto, pela riqueza, pelo poder. É fácil para nós esquecer as obscuridades do mundo, em especial do mundo dos outros, e o único antídoto eficaz contra essa amnésia é a prática da empatia. É preciso treino. Treino diário e constante. Praticar a empatia é pensar de forma empática antes de todas as atitudes. É se lembrar de descartar adequadamente o vidro antes de jogá-lo no lixo para que o lixeiro não se machuque ao recolhê-lo. É sorrir para a pessoa de cara amarrada à sua frente no ônibus, imaginando que ela pode estar sofrendo terrivelmente em sua vida pessoal. É não julgar. Em cada momento do nosso dia, floresce uma oportunidade valiosa de praticar a empatia.

Mas a empatia é ainda mais poderosa diante de pessoas que sofrem, em especial aquelas tão doentes e fragilizadas que já se esqueceram de seu direito à dignidade. Certa vez uma senhora bem idosa, já na fase final de sua vida, estava internada recebendo medicamentos para dor e para falta de ar. Ela era cega há muitos anos, ouvia muito pouco e praticamente não conseguia se mover sozinha. Estava há semanas no mesmo leito, comunicando-se minimamente com a equipe de saúde, e sem receber visitas. Depois de um tempo, os profissionais praticamente se esqueceram de sua condição humana. Sem interação, ela passou a ser pouco mais que uma planta a ser nutrida, limpa e hidratada. Num sábado de manhã, uma técnica em enfermagem que nunca a tinha visto se compadeceu da situação dela, e decidiu fazer algo diferente. preparou um banho especial, com alguns óleos perfumados, e depois massageou todo o corpo da senhora com cremes agradáveis. Durante todo o tempo em que esteve com ela, ficou conversando sobre coisas que acreditava que a senhora conhecia, mesmo sem saber se ela a estava ouvindo. Ao término da sua tarefa, e moça se inclinou para beijar a testa da senhora. Foi quando as duas mãozinhas enrugadas e enfraquecidas, surpreendentemente, se elevaram em direção ao seu rosto, acariciando suas bochechas, enquanto algumas poucas lágrimas escorriam dos olhos opacos da senhora. A mágica da empatia tinha se materializado, trazendo alívio e contaminando as vidas de ambas com o amor em sua forma mais sublime.

Médicos, enfermeiros, psicólogos e tantos outros profissionais deixam para trás oportunidades significativas de crescimento pessoal quando não se permitem ouvir, tocar, compreender. Quanto maior o sofrimento, maior o impacto da empatia em seu alívio. Maior o significado de estar presente, de tentar entender outro ponto de vista, de oferecer ajuda efetiva. É essa postura que transforma nosso olhar, nos transformando em pessoas melhores. Esse caminho não tem volta.

 

3 comentários sobre “Empatia, por Audrey Hepburn

  1. Obrigada por mais uma vez me fazer refletir e sentir o desejo de ser melhor. Um abraço afetuoso.

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  2. Republicou isso em Cuidando.

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