No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

23 de janeiro de 2017
Ana Lucia Coradazzi

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Morrendo como objeto, por Eliane Brum

*texto escrito pela escritora, reporter e documentarista Eliane Brum, publicado em 23/01/2017, no www.brasil.elpais.com 

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“Somos seres que morrem, isso não podemos evitar. Somos seres que perdem aqueles que amam, e isso também não podemos evitar. Mas há algo aterrador que persiste, e isso podemos evitar. E, mais do que evitar, combater. É preciso que os mortos por causas não violentas cessem de morrer violentamente dentro dos hospitais.

Aqueles que amamos se tornam vítimas de violência no espaço onde deveria existir cuidado. E nós, que os perdemos, também nos tornamos vítimas. Quando tudo acaba, não somos apenas pessoas que precisam elaborar o luto de algo doloroso, mas natural. O sistema médico-hospitalar faz de nós violentados. Não há apenas luto, mas trauma. E é preciso que comecem a responder por isso – ou a rotina de violências não cessará.

Escrevo sobre o morrer e sobre a necessidade de recusar a “obstinação terapêutica” há quase dez anos. Em 2008, acompanhei o cotidiano de uma enfermaria de cuidados paliativos por quatro meses, para contar da morte com dignidade, a partir da ideia de que quando não se pode curar, ainda se pode cuidar. Neste percurso, testemunhei o morrer de várias pessoas, cada uma à sua maneira, vivendo até o fim a sua singularidade. A morte como parte da vida, não como seu contrário.

Morrer com dignidade é morrer da forma que se escolheu morrer quando o fim se tornou inevitável. É escolher até onde os médicos podem ir na tentativa de prolongar uma vida que já não é vida, é escolher se quer morrer numa cama de hospital ou em casa, é escolher na companhia de quem se quer estar quando chegar a hora de partir.

Como a maioria de nós não sabe o que vai provocar sua morte, nem quando, existe um instrumento chamado de ‘Diretiva Antecipada de Vontade (DAV)’. Particularmente, prefiro outro nome, ‘Testamento Vital’, porque é de vida que se trata. Mas apesar do nome burocrático, hermético para a maioria, este documento pode ser até mesmo escrito a mão. Nele, determinamos previamente nosso desejo, assim como os limites à equipe de saúde que nos atenderá, caso não estejamos em condições de expressar nossas escolhas quando o fim chegar. Caberá a nossos familiares levar esse documento à equipe de saúde e garantir que essa vontade seja cumprida. Ou, se nenhuma vontade foi expressa, escolher o que nos cabe quando já não for possível evitar a morte. Porque são eles que nos conhecem melhor – e porque possivelmente nos amam.

É preciso lembrar que o fim de uma vida é ainda vida – e não morte. Para respeitar a vida, é preciso respeitar aquele que vive. Só há respeito quando há reconhecimento de que ali há um sujeito. No momento em que o corpo se torna objeto, o sujeito é sujeitado. E o que é apresentado como cuidado vira tortura.uti-4

Comprovei da forma mais dura que, com exceção de alguns pequenos enclaves de resistência, morrer com dignidade é uma ficção no sistema médico-hospitalar brasileiro. No momento em que se entra num hospital e a morte se desenha como desfecho, aqueles que amamos deixam de pertencer a si mesmos. É uma espécie de sequestro, mas sem resgate possível.

No início de 2016, perdi um parente querido. Numa noite, logo após um dia particularmente feliz, um aneurisma em sua aorta rompeu-se. Depois de uma longa cirurgia, as possibilidades de recuperação eram escassas. Após mais de uma semana na UTI, em que ele não despertou nenhuma vez, complicações mostraram que não havia chance. Era preciso deixá-lo partir. Mas ainda assim ele seguia entubado, continuava sendo espetado por agulhas e manipulado de várias maneiras. Havia se tornado um objeto de intervenção. Quando manifestávamos nossa preocupação, a resposta era: ‘Não se preocupem, ele não sente nada’.

Receber a notícia da perda de alguém tão estrutural na vida é devastador. Podemos tão pouco neste momento. E o que podemos é cuidar. Para nós, não é um corpo sedado que ali está. É uma pessoa na grandiosidade de seus últimos momentos de vida.

Pedi então para conversar com um dos médicos. Ele me atendeu incomodado por estar sendo chamado. Manifestei, educadamente, a nossa preocupação com a continuidade dos procedimentos invasivos e a nossa necessidade de compreender melhor o que estava acontecendo e quais seriam os próximos passos. Já que não era mais possível desejar que aquele que amávamos vivesse, queríamos assegurar sua dignidade na morte e nos despedir em paz.

Estávamos no corredor da UTI, em pé. O médico não concordara em conversar com os familiares numa sala reservada, apesar de existir um espaço para isso. Ele alterou a voz, quase gritando. Claramente, sentia-se afrontado porque, como ‘doutor’, qualquer pergunta soava como um questionamento a uma autoridade que acreditava incontestável. Disse-me que não havia nada a ser questionado, que eles sabiam o que fazer – e estavam fazendo.

Ao ouvir a voz alterada do médico, o filho do homem que morria se postou ao meu lado. Ele, que perdia tanto, disse ao médico com toda a calma que não era aceitável ser grosseiro quando já sofríamos tanto. E reiterou que precisávamos compreender melhor o momento e os próximos passos para fazer as melhores escolhas. Depois de mais alguns minutos de rispidez, o médico afastou-se sem nos dar qualquer resposta. Estávamos num dos templos do sistema hospitalar brasileiro.

Naquele momento, além da dor da perda, já somava-se uma outra. Havíamos sido agredidos quando estávamos tão frágeis. Em vez de acolhimento, abuso. Nos dirigimos então à recepção da UTI para perguntar se havia um setor de cuidados paliativos. Estávamos confusos, sem informação. Nossa esperança era que alguém com um conceito mais humanizado sobre o morrer pudesse intervir e conseguisse responder a nossos questionamentos, assim como assegurar os direitos de quem morria. O recepcionista da UTI disse que iria pesquisar e, depois de alguns minutos, apareceu com um telefone num pedaço de papel. Era um domingo. Passei a manhã ligando e só encontrava uma gravação de secretária eletrônica. Perguntei se havia outra maneira de contatar o setor, o recepcionista me deu um celular de emergência da suposta equipe. Outra secretária eletrônica. Deixei recado. Nunca recebemos resposta.

Da sala de espera da UTI comecei a buscar orientação com médicos paliativistas que eu conhecia, trocando mensagens privadas nas redes sociais. Estes me escutaram e me orientaram pelo Twitter. Uma médica amiga foi ao hospital e entrou na UTI como visita para poder nos explicar o que estava acontecendo e o que poderíamos exigir que fosse diferente, a partir de nossa escolha de evitar procedimentos invasivos e desnecessários e poder alcançar a melhor despedida possível dentro das circunstâncias.

É importante sublinhar: foi preciso infiltrar uma médica para ter informações e tentar fazer escolhas que respeitassem aquele que morria. Num momento tão limite da vida de todos, foi necessário uma ‘clandestina’ para tentar proteger quem partia. E o que era proteger e cuidar quando já não era possível salvar? Tratá-lo como uma pessoa, um ser com história – e não como um objeto, um invólucro de carne ‘que nada sentia’.

Pouco antes da morte, soubemos por uma enfermeira que há pelo menos uma semana já era claro que este seria o desfecho. Mas nada disso nos foi contado. Possivelmente não era necessário que morresse numa UTI, possivelmente não havia sentido que permanecesse numa UTI. Possivelmente poderíamos ter nos despedido do nosso jeito. Certamente poderíamos ter escolhido bem mais.

Mas no instante em que ele entrou no hospital, numa situação de emergência, perdemos o acesso a quem amávamos. Tínhamos apenas o acesso controlado ao seu corpo ‘que nada sentia’. De repente, ele era um objeto sob vigilância, protegido de nós, que com ele compartilhávamos a vida e a história.

Seis meses depois, em agosto, perdi meu pai. Havíamos combinado de assistir juntos à abertura da Olimpíada. Como morávamos em estados diferentes, eu ainda estava no caminho quando ele passou mal. Foi levado ao hospital de ambulância. E lá sofreu um AVC e entrou em coma. Meu pai tinha 86 anos e já não havia chance para ele.

Quando cheguei com parte da família ao hospital, depois da pior viagem de nossas vidas, ele estava na UTI. As visitas eram permitidas apenas em três horários. Como só conseguimos chegar de madrugada, convenci a enfermeira a me deixar entrar. Ao perceber que ela ficaria ao meu lado, pedi que saísse porque eu queria privacidade. Antes de sair, ela fez um comentário: ‘Fazia muito tempo que você não via o seu pai?’.

Meu entendimento era que meu pai morria de velho. Se não morremos por tiro, acidente ou catástrofe, alguma doença nos mata em nossa progressiva corrosão física. No caso do meu pai, poderia ter sido o coração, que tantos sobressaltos lhe provocou durante a vida. Mas foi um AVC. Assim, apesar da dor sem medida que eu sentia, me era claro que a morte era inevitável. Qualquer tentativa de esticar sua vida, na sua idade e naquelas circunstâncias, seria excessiva. Na melhor das hipóteses, ele teria uma vida sem vida, o que meu pai não gostaria nem merecia. Me era claro – e era para todos nós – que tudo o que podíamos fazer naquele momento era assegurar a ele uma morte digna e garantir a nossa despedida.

Ao contrário dos principais hospitais do país, a UTI do centro de saúde em que meu pai for internado não permitia a permanência dos familiares junto à pessoa doente ou em processo de morte. Segundo o Estatuto do Idoso, ele teria direito a um acompanhante permanente. Mas ali a UTI suspendia a lei. Era preciso esperar pelos horários de visita. Mas como ficar numa sala de espera enquanto alguém que amamos morre sozinho, entubado e cheio de fios a alguns metros dali? E por quê?

uti-2Nós queríamos estar com ele. Queríamos fazer carinho no seu cabelo enrolado e tão branco. Queríamos dar beijo na testa e também nas bochechas. Queríamos afagar a sua mão. Queríamos ter certeza de que ele não estava passando frio. Queríamos contar histórias sobre ele. Queríamos dizer que o amávamos e que ele seguiria vivendo em nós. ‘Ele não sente nada’, ouvi mais uma vez. Ainda que ele não sentisse, nós sentíamos.

Quando horas depois o médico declarou a ‘morte cerebral’, sabíamos que ele tinha partido. Mas o horário de visitas não tinha chegado. A despedida já não importava ao meu pai, mas importava a nós. Ele já não estava lá, mesmo que o coração ainda batesse. Mas nós precisávamos dessa despedida para poder seguir a vida sem ele. O que nos roubaram ao impedir que ficássemos com quem amávamos, ao reduzir meu pai a um corpo passível de visitação em horários determinados, jamais poderá ser devolvido.

Minha mãe queria estar com o homem com quem viveu 63 anos de um casamento de amor, mas o horário de visitas não tinha chegado. Na noite anterior ela tinha dormido aconchegada a ele, horas antes conversavam sobre o que comprariam na feira, e agora ela era impedida de tocá-lo. Me era difícil suportar a indignidade daquela situação, mas ver a minha mãe passar por essa violência me era insuportável. Ela nunca poderia ter sido impedida de ficar ao lado do meu pai, de mão com ele. Não há necessidade de manter uma pessoa numa condição irreversível em uma UTI. E não há sentido em manter alguém na UTI longe dos familiares.

Naquele momento, meu pai já estava morto, e eu sabia disso. Morte encefálica é morte. E ponto. Mas minha mãe ainda seguia aguardando o horário de visitas. Toquei a campainha para falar com a enfermeira. Disse a ela que meu pai estava morrendo e que precisávamos nos despedir. Que não poderíamos esperar o horário de visitas e que também não podia ser um de cada vez, que precisávamos estar com ele juntos.

Ela negou, dizendo que isso era contra as regras – ou contra o estatuto do hospital, não lembro o termo exato. Eu retruquei que nosso direito de estar com o meu pai no seu morrer estava acima das regras do hospital. A enfermeira chamou o médico de plantão. Havíamos nos tornado a família criadora de problemas. Já tínhamos inclusive ouvido mais uma pérola: ‘As famílias sempre têm dificuldades de aceitar mortes repentinas’. Era o que para essa profissional justificava a nossa impertinência de exigir direitos. O médico chegou. Disse a ele o mesmo que havia dito à enfermeira. Ele concordou com os argumentos e permitiu nossa entrada.

Nos reunimos todos em volta do meu pai. Ele já estava morto, mas fingimos que o coração batendo era vida. E nos despedimos. A enfermeira que antes tinha barrado nosso direito de nos despedir talvez não tenha suportado a interdição. Com a justificativa de medir os sinais vitais, arrancava o lençol dele, expondo o seu corpo. Minha mãe, de 81 anos, voltava a puxar o lençol para cobrir o homem que ela amava, o homem com quem criou uma família, o homem com quem dividiu a vida. A enfermeira voltava a tirar o lençol. Minha mãe o recolocava. Dois gestos em disputa, o impasse de uma época. A mão asséptica, pragmática, arrancando o lençol (e a humanidade) transformava meu pai num objeto. A mão trêmula, gasta de anos, voltando a cobri-lo com o lençol, devolvia a ele a humanidade e a história.

O direito de permanecer junto à pessoa querida, assim como o direito de se despedir, seguiu sendo negado às outras famílias que estavam na sala de espera. Parte delas, em vez de se juntarem a nós num movimento que seria mais potente porque coletivo, nos acusaram de ‘privilégio’. Era desesperador ouvir direito ser convertido em privilégio justamente por quem era violado num momento tão limite. Mas não havia tempo para argumentar. Era preciso cuidar agora do corpo do pai.

Por mais que a gente se prepare para perder, e eu me preparo há muitos anos, a morte é um buraco. Não há um dia sequer em que eu não sinta falta do olhar do meu pai. Sei que ele vive em mim, o reconheço na forma como eu escuto o mundo, no formato dos dedos dos meus pés. Meu sorriso é o dele. Na minha carne há palavras que foi ele quem disse, suas histórias correm no meu rio.

Mas há um buraco onde antes havia o olhar dele. Percebo que envelhecer e perder é também aprender a andar por aí com o corpo esburacado pelos olhares que a gente já não tem. Passamos a ser carregadores de ausências. E há que se abrir espaço-tempo para viver o luto, porque só assim a gente descobre como reencontrar a alegria mesmo com o corpo esburacado. E a alegria, a forma mais bonita de amor, é quase tudo.

Meu luto é fundo, mas sereno. A violência vivida, não. Ela me escava. E é com ela que me debato hoje. Perto de mim, aquele que perdeu o pai no início de 2016 nomeou o que ambos vivemos como ‘estresse pré-traumático’. Passamos a ficar em pânico com o que acontece com uma pessoa quando ela entra num hospital e, de imediato, é convertida num objeto. E num objeto sequestrado. Descobrimos que nada do que já deixamos escrito servirá para barrar a onipotência médica se o nosso processo de morrer acontecer dentro de uma instituição hospitalar. Que nosso corpo será virado e revirado por estranhos, espetado e penetrado por objetos, mesmo quando estivermos além da possibilidade de cura. Que só teremos informações pela metade e que estranhos escolherão por nós.

Descobrimos que tudo isso que somos numa vida nos será roubado no final. Não pela morte, mas por um sistema médico-hospitalar que reduz pessoas a objetos. Numa paródia com o inferno de Dante, a inscrição no portão dos hospitais poderia ser: ‘Deixai toda história, ó vós que entrais’. Nem morremos ainda e já somos reduzidos a um não ser.

Me preparei muito para cuidar de quem amava quando morresse. E não pude. Não consegui protegê-los. Não fui capaz de fazer valer nem os meus direitos nem os deles. Aceitar que morremos e que perdemos é duro, mas é preciso. É nossa condição de existir. Mas a impotência diante da violência e da violação de direitos é uma indignidade que não podemos seguir permitindo que aconteça.

É isso o que aquele que perdeu o pai primeiro descreve como estresse pré-traumático. Prometemos um ao outro impedir a redução a objeto, mas sabemos que fracassaremos. Porque fracassamos em proteger o pai dele e o meu de quem deveria cuidá-lo. Se nossa morte não for súbita, não conseguiremos voltar para casa para morrer entre os livros, com a nossa música, no espaço que lembra de nós, entre aqueles que conhecem a nossa história. O último ato da vida será o de virar coisa num hospital. E, assim, o estresse pré-traumático seria a expectativa dessa objetificação, como os prisioneiros que ouvem os gritos nos porões e sabem que sua vez irá chegar. A antecipação da tortura já é tortura.

A imagem do nosso trauma é a descrita pelo historiador Phillipe Ariès em seu livro O homem diante da morte: ‘A morte no hospital, eriçado de tubos, está prestes a se tornar hoje uma imagem popular mais terrífica que o trespassado ou o esqueleto das retóricas macabras’. Pensávamos que podíamos escapar disso e cuidar da morte como parte da vida, mas a lógica do sistema nos esmagou. Lembro de uma mulher que entrevistei para uma das minhas reportagens sobre o morrer. Ao perceber o que fariam com seu marido, além da possibilidade de cura, ela e um filho fugiram com ele do hospital numa cena cinematográfica. Ela conseguiu encontrar um lugar em que ele pôde morrer em paz, mas ter de fugir para fazer isso revela o tamanho da distorção.

Naturalizamos essa lógica perversa em que se morre não como gente, mas como objeto. A assepsia do processo, os jalecos brancos, a linguagem que torna a maioria analfabetos, a informação que não é compartilhada, o poder da medicina sobre os corpos em nossa época histórica encobrem a perversão de um sistema em que bem no fim nossos direitos são suspensos. Se já não há história, não há sujeito. Se não há sujeito, não há direitos.

Não uso a palavra ‘doutor’ para ninguém. Nem para médico, nem para advogado, delegado, procurador, juiz etc. O uso do ‘doutor’, no Brasil, ecoa nossas piores distorções históricas. E, sempre que evocado, volta a reeditá-las. Assim, escolho não usar como ato político. Mas em algum momento destes processos, me vi chamando médicos que violavam direitos de ‘doutor. Percebi que queria agradá-los por duas razões: 1) a expectativa de que me tratassem com gentileza porque me sentia imensamente frágil; 2) o pavor de saber que eles tinham todo o poder sobre alguém que eu amava.

Ao fazer isso, eu assumia a posição de vítima. E esta posição, como é óbvio para qualquer um, tem um custo alto. Como a violência aparece travestida de cuidado, o que talvez seja a maior perversão do sistema, fica ainda mais difícil tratar violência como violência.

Percebo com clareza que a maioria dos profissionais de saúde não compreende que, a partir de um determinado momento, o que é apresentado como cuidado se torna tortura. Assim como o que é apresentado como zelo se torna excesso. Assim como não percebem que os corpos não lhes pertencem apenas porque ingressaram na instituição. E que, ao tomá-los, torna-se sequestro. Somos todos – e os profissionais de saúde também – filhos dessa época histórica. Por isso, quando questionados, os profissionais ofendem-se e sentem-se até mesmo injustiçados. Afinal, acostumaram-se a habitar um lugar idealizado e de enorme potência, o lugar de quem salva.

Esse estado de coisas, o funcionamento da instituição médico-hospitalar como espaço de absolutos, é naturalizado. Afinal, a medicina tem hoje o poder de decidir até mesmo quem é normal e quem não é – ou o que é normalidade. Ou, ainda, que a normalidade existe. O que somos não é mais algo complexo, cheio de camadas, mas um diagnóstico: depressivo, cardíaco, anoréxico, obeso etc. Quando esse poder de dizer o que uma vida humana é se une aos interesses da indústria farmacêutica, as chances de um olhar em que a pessoa não seja reduzida a um objeto se encolhem.

É preciso encontrar uma maneira de dar vários passos para fora e recuperar a capacidade do espanto. E assim poder enxergar o que acontece no espaço do hospital sem os véus encobridores da naturalização. Pegando o mais comum dos procedimentos, por exemplo. Uma simples injeção. Se não há justificativa, ela é não é cuidado. É tortura. Exatamente porque nem sempre é fácil identificar quando o cuidado se transforma em tortura, o questionamento se torna fundamental. E a escolha, ao final, só pode ser de quem morre ou de quem ama aquele que morre quando este já não pode escolher. O que para o profissional de saúde é digno, para aquele que morre pode não ser. Quem decide?

Abrir mão do poder absoluto sobre os corpos, porém, é algo difícil para grande parte dos médicos. Difícil por várias razões e, principalmente, porque significa aceitar a própria condição de impotência diante da morte. Assim, qualquer pergunta que questione esse poder, ainda que ela parta de uma pessoa fragilizada pela perda de alguém, se transforma numa ferida narcísica. Nesta época histórica, se quisermos morrer como sujeitos, teremos que mudar a formação dos médicos nas universidades. E botar limites na falta de limites.

Levei meses para compreender que me confrontava com duas situações inteiramente diversas. Uma natural, a da perda. A outra naturalizada, a da violência perpetrada pelo sistema médico-hospitalar. Uma é lidar com a condição humana de morrer. Com essa, podemos. A outra é lidar com a certeza de morrer como objeto. Com essa, não podemos. Uma é lidar com a dor da perda de quem amamos. Com essa, podemos. Outra é lidar com a violência de não poder assegurar o direito de uma morte digna a quem amamos. Com essa, não podemos. Uma é luto, outra é trauma. O luto se vive, o trauma precisa virar outra coisa para que a vida possa seguir. No meu caso, vira escrita. O luto – e a luta.

Num país em que o SUS está sendo atacado pelas forças do retrocesso, em que doenças como dengue e zika proliferam por falta de saneamento básico, em que a febre amarela ressurge no Sudeste, em que as pessoas morrem por falta de assistência, o debate sobre o direito de morrer com dignidade encontra pouco espaço. Mas é de vida que se trata. Se não sabemos morrer, jamais saberemos viver.”

 

 

105 comentários sobre “Morrendo como objeto, por Eliane Brum

  1. Desde o ano de 1993 tenho feito esse serviço aqui no hospital do câncer aqui em Goiânia. Vencer resistências, tabus, incompreensões de todos os lados é o que tenho feito. Ainda falta muito para isso melhorar. Persistamos, sejamos resilientes…

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  2. Oi Eliane, li todo o seu texto, chorei de soluçar, pois passeipelo mesmo trauma com a minha mãe. UTI, médico que nao me deixou ficar com ela, ameaçando chamar a segurança… tudo no Hospital q fiz residência médica em clínica geral e que depois de uma experiência de violência de uma residente que queria “reanimar” um paciente com metástases osseas e que entrara no hospital pra morrer…desisti da clínica e fui fazer residência em psiquiatria… tudo isso há 33 anos. Concordo com você em cada palavra, somos objetos descartáveis. Agora mora na Itália e aqui é a mesma coisa…parabéns!!!

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  3. FOI A COISA MAIS VERDADEIRA QUE JA LI NA MIN HA VIDA PERDI MEU PAI NA UTI E MINHA MAE ENQUANTO EU FUI PEGAR ROUPAS PARA ELA PASSAR NATAL E ANO NOVO NO HOSPITAL ELA FALECU NAO PUDE NAO TIVE TEMPO DE BEIJAR ENCONTREI ELA NA CAMA SO DE FRALDA E AINDA QUERIA TIRAR A SONDA DO ESTOMAGO EU DISSE NAO DEIXA ELA ASSIM PQ EU PAGUEI PARA ELA RECEBER ISTO E PUDE COMER BEIJEI ELA DOS PES A CABEÇA ALI UM PEDAÇO DE MIM PARTIU, UMA RACHADURA FICOU UMA BREXA QUE NUNCA FECHA ADOREI SUA MENSAGEM PARABENS EU VOU DIVULGAR MUITO ISTO PQ NAO HA RE SPEITO MESMO AOS SERES PRINCIPALMENTE OS IDOSOS , JA DIZEM PARA PREPARAR O FUNERAL SERA QUE OS PARENTES DELES FAZEM ASSIM TAMBÉM , AMAR NÃO É SO OS SEUS AMOR É COMPAIXÃO E ALGO QUE PRECISA SER DISTRIBUIDO POR IGUAL OBRIGADA POR EU TER OPORTUNIDADE DE LER SUA MENSAGEM
    DEUS TE ABENÇOE
    Missionaria Magaly Pessoa

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  4. Parabéns pelo texto! Lindo, chorei de emoção! Foi exatamente isto que senti quando perdi meu pai. Alguém precisa mudar esta realidade. Sofremos com o luto e com a violência das “regras” absurdas dos hospitais. Um abraço carinhoso.

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  5. Nesse contexto devo aqui agradecer a hosputal Ubined de BH que acolheu meu pai em un quarto durante 15 dias nos deixando a traquulidade de poder nos despedir dele aos poucos.
    Foi vital esse tempo que nos foi dado enquanto ele ,ainda lúcido, pode manter um diálogo conosco. E o médico foi claro ao dizer que poderia/deveria ir para UTI mas que ficaria longe da família e apenas lhe daria mais dias de sofrimento É horrível ver a pessoa indefesa e perdendo sua identidade/dignidade, a mercê de tubos enfiados aqui e acolá Entendo muito bem a situação que passou a jornalista.Espero que os hospitais sejam mais humanos.

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  6. Nossa! Eu fico arrepiada cada vez que leio um texto seu! Muito lindo! Nunca alguém descreveu com tanta veracidade um momento de MINHA vida! Também vivi isso!
    Parabéns pela escrita e por tudo mais que causa nas pessoas!

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  7. Eu concordo com tudo que vc disse. Já me vi nessa situação. Dentro de uma UTI, conversando com um médico que me dizia que não havia chance para o meu pai. Solicitei então que ele fosse transferido para um quarto, a fim de podermos ficar ao seu lado, e dar à ele o carinho que ele merecia. Não me deram ouvido. Dias depois meu pai partiu dessa vida sozinho, dez minutos depois de terminar a hora da visita. Fomos avisados ao colocar os pés em casa.

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  8. Excelente texto! Profundo, desconfortável e perturbador. Obrigado por compartilhar. Que esse trauma traduzido em escrita traga frutos alentadores em futuro breve.

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  9. Acho tão instigante, para não dizer engraçado, como que as pessoas gostam de transformar a figura do médico em vilão. E ainda quando vem de uma pseudointelectual/escritora que tenta usar e colocar as palavras como forma de ludibriar e enganar o leitor. Todo mundo sabe muito bem que as UTIs tem normas próprias, como todos os estabelecimentos e isso tem seus motivos. Eu discordo completamente do processo de humanização das UTIs, por achar que isso acarretaria custos enormes para acomodação, funcionários, insumos, maior risco de infecções etc. Fora que um país que não tem educação básica, saneamento, saúde… esse processo de humanização, se alguma vez chegar a ser cogitado, será o maior supérfluo para a nossa sociedade. O Estatuto do Idoso diz (Lei nº 10.741, de 1/10/03), cujo artigo 16 traz: “(…) Ao idoso internado ou em observação é assegurado o direito a acompanhante, devendo o órgão de saúde proporcionar as condições adequadas para a sua permanência em tempo integral, segundo o critério médico. Parágrafo único: Caberá ao profissional de saúde responsável pelo tratamento conceder autorização para o acompanhamento do idoso ou, no caso de impossibilidade, justificá-la por escrito”. Neste caso, a própria lei se reporta, em última análise, ao critério médico para a presença de acompanhante, de forma genérica ao idoso internado, não havendo, também, referência direta à internação. A questão, à luz de todo o processo de busca da humanização da assistência médica, nos levaria ao caminho da garantia, aos pacientes de UTI, de acompanhamento permanente por familiares, o que poderia levar ao enfermo lúcido um maior conforto. Porém, temos que considerar que a humanização, a autonomia do paciente e o desejo da família encontram, neste caso, outros ditames que as limitam. As indicações gerais para internação em UTI estão na incapacidade provisória de órgãos ou sistemas vitais que necessitam de suporte ou vigilância permanente. Os quadros clínicos podem evoluir dentro da instabilidade previsível e a necessidade de atuação da equipe de saúde se dá a todo momento, justificando as restrições à presença de leigos em acompanhamento permanente. Esbarra-se, também, na falta de previsão física de acomodação adequada, nos vários regulamentos das UTIs.
    Acredito que cada um faz aquilo que considera melhor para si e para os seus familiares, se não está de acordo com as regras de uma instituição ou com o médico assistente, tens todo o direito de procurar outro estabelecimento ou profissional para lhe atender. Caso, mesmo assim, não estejas de acordo com a “desumanização” a que te referes, podes tratar teus familiares em casa, da melhor forma que lhe convier…

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  10. Enquanto sujeito necessitado de cuidados médicos, passei a contestar o termo “paciente” e chamei para mim o “sou o impaciente” com dor etc e o sujeito dono do meu ser e desejos e o único médico de mim mesmo assessorado por profissionais. Me dei as altas de hospitais para salvar minha vida algumas vezes.

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  11. Essa é uma experiência que faz parte das coisas vistas e vividas tantas e tantas vezes. E ao ler é ainda tão doloroso

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  12. Olha eu passei essa triste realidade há 17 anos atrás.Minha filha tinhac21 anos e havia se submetido a 3a cirurgia no cérebro. Um tumor raro.Ela ficou 18 dias na Uti.Desse jeito enrugada fazendo exames desnecessários.Eu custei muito a reagir mas um dia chamei o médico e disse::chegou.Ele ainda em um delírio de onipotência me disse literalmente:Eu devolvo a sua filha 90% “curada”.Eu retruquei:Nao,ela viveu uma vida plena e está na hora de deixa_la ir.Foi então que tudo aconteceu e desligaram tudo
    Eu convivo com esse luto e o estresse posctraumatico até hoje e provavelmente até meu último dia de vida. Porque a gente não se perdia de não ter evitado aquele sofrimento.Eu peço a Deus todos os dias para que o movimento dos chamados hospiced cresça no Brasil.Nissis amados merecem dignidade.

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  13. Meus pêsames mas queria saber o nome dos hospitais,para evita-los

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  14. Olá! Me senti no dever em escrever. Passo exatamente por esse “trauma”, essa “Violencia psicológica”. Quando você citou zelo sendo caracterizado como excesso! É simples. Queremos apenas fornecer dignidade, acolhimento, proximidade famíliar ao seu ente querido. No meu caso o meu pai. Estou cansada de ouvir que não há nada a fazer, de questionar, de a distânasia embutida em palavras, procedimentos…eu só quero dignidade ao morrer! Eu quero que ele seja ouvido, mesmo tendo dificuldade na fala pelo avc, que seja acolhido, que seja respeitado. E para que isso seja possível eu preciso estar presente 24h para que esse direito universal e indiscutível não seja rompido! Mas lhe digo uma coisa: me levam ao cansaço ao extremo afim que eu desista, mas não irei desistir enquanto houver vida e enquanto meu pai quiser viver! Parabéns por compartilhar sua angústia e sofrimento! Estamos juntas e disposta a ao menos fazer com que os profissionais reflitam esses paradigmas.

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  15. A Eliane Brum é exímia na arte de escrever. Realmente, emociona. Toca profundo. Ao ler, me lembrei da partida do meu pai, em junho do ano passado, de câncer do reto. Embora tivesse 80 anos era um homem muito ativo, sempre fez atividade física e, se não fosse a doença, acredito que teria chegado aos 100.
    Na “reta final” do câncer, já com bolsa de colostomia, magro e com linfonodos “explodindo”, sobretudo na virilha, ele tinha confusões mentais. Ficou internado, acho que uma semana, pelo SUS. Cada dia era uma vitória lá. Na época, fazia muito frio e havia uma apenas duas técnicas em enfermagem, à noite, para cuidar de vários pacientes . Numa destas ocasiões, a técnica em enfermagem de plantão, com muita boa vontade, deu “banho de leito” nele. Eu tive que ajudar, porque se não ajudasse, ele não tomava banho. Como fazia frio, ele batia o queixo. Aquilo cortava o coração…
    Depois dos sete dias de internação, ele voltou para casa. Mas, eu sentia que a morte dele era questão de tempo e já tentava me acostumar com aquela partida. Cada dia era uma despedida. Ele estava feliz por ter voltado para a casa, mas o quadro só se agravava e cada vez mais ficava difícil de cuidar dele da melhor maneira, mesmo com a ajuda de um cuidador (que não era um exemplo de profissional, não. Deixou a impressão de que fazia tudo por dinheiro).
    Ele voltou a ser internado, mas desta vez deu entrada no particular, com o plano de saúde da minha mãe, que até então, não sabíamos que ele poderia usar naquele hospital. Foi como um presente de Deus, sabe. Ele pôde ter mais conforto nos últimos dias de vida, num quarto só dele.
    Talvez tenha sido uma exceção, sorte ou mesmo um trabalho de conscientização dos profissionais do hospital, mas, tanto os médicos como os enfermeiros e técnicos, tiveram um trato muito humanizado com o meu pai. E também com os familiares. Não senti que ele foi tratado como mero objeto.
    Meu pai já estava tomando morfina, quando dois médicos chamaram a minha mãe e eu para conversar. Eles explicaram que os rins dele estavam parando e que poderiam fazer uma intervenção cirúrgica (parece que era um cano saindo das costas, algo assim, não sei o termo técnico). Expuseram o risco de sofrimento e também de morte iminente durante a cirurgia. Sabíamos que aquilo não iria “ajudar”, mas apenas dar (ou não) uma sobrevida, numa situação extrema.Não aceitamos a intervenção. O médico me explicou sobre a “terminalidade” do meu pai e que os órgãos iriam parar, aos poucos. Falou com clareza e respeitou nossa dor, naquele momento.
    Eu tinha pedido a Deus para estar com meu pai nos minutos finais. Passei a noite de sexta para sábado no hospital. E esta seria a última. Ele fazia um barulho estranho durante a madrugada. Depois fiquei sabendo do que dizem, popularmente, ser a tal “sororoca”, agonia dos momentos finais. Eu tentei mexer nele. Seu corpo parecia um boneco. Comecei a rezar para que ele deixasse de sofrer. Isto durou a madrugada inteira. Eu não conseguia dormir. Já pela manhã, acabei cochilando, talvez porque o ruído tinha acabado. Foi algo em torno de 30 minutos.
    Despertei com a funcionária do hospital, trazendo o café da manhã. Assinei o papel para confirmar o “recebimento”. Ela saiu. Sentei-me no sofazinho e olhei para o meu pai. Não tinha mais barulho. Não tinha mais nada. Ele tinha partido mesmo. Partiu sereno. E nesta “via sacra” de hospital-casa, todos puderam se despedir. Cada qual à sua maneira.
    .

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  16. A autora tem toda razão. Muitas vezes mesmo tendo condições de discutir que rumo daremos ao tratamento e decidir como proporcionar uma morte digna opta-se pelo prolongamento da morte. Estamos longe de uma discussão sobre este assunto. E longe da possibilidade de uma discussão chegando até a definir o uso da eutanásia.

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  17. Cara Eliane Brum,

    Em primeiro lugar, meus sentimentos!

    Seu relato é profundo e emocionante…. necessário e verídico… muito comum, nas UTI’s pelo Brasil afora….

    Como enfermeiro, atuando em UTI há 1 ano e meio, posso dizer que procuro oferecer aos familiares a chance de se despedir e, junto a equipe médica, conduzir as escolhas que a pessoa ali internada e seus familiares escolheram para sua finitude.

    Você não está sozinha. Sua Voz ecoa em muitos profissionais da equipe de saúde…

    No hospital que eu trabalho, temos uma equipe de Cuidados Paliativos… que trabalha apenas em dias úteis… isso é uma pena!

    Muitas vezes, não dá pra esperar até o próximo dia útil… e, a despedida, fica sujeita aos profissionais de plantão….

    Imagino que você esteja engajada nesse movimento… de divulgar e ampliar o debate sobre a finitude e os direitos dos usuários e familiares dos serviços de saúde.

    Pode contar comigo na divulgação e discussão do texto em meu local de trabalho.

    Fico a disposição para contato.
    Atenciosamente,
    Thiago

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    • Obrigada pelas palavras, Thiago! Eu não sou a Eliane, apenas publiquei o texto dela aqui no blog por julgá-lo pertinente e útil. Acho muito louvável sua disposição em divulgar o trabalho das equipes de Cuidados Paliativos. Essa é a principal estratégia para mudarmos a cultura vigente de que a morte é um inimigo a ser vencido. Não é. Ela faz parte da vida, e deve ser tratada com tanto respeito e cuidado quanto o nascimento de alguém. Um abraço!

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  18. Obrigada!
    Vivo com o trauma do que foram 4 dias de uti na perda de meu pai…
    Em face dos 87 anos de minha mãe, seu texto me devolve escolhas e me liberta.

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  19. Você tem toda razão, Eliane. Porém existem médicos que são humanizados e muitas vezes eles também encontram os familiares de pessoas próximas de morrer, que por dificuldades para encarar a dor da separação se tornam terrivelmente egoistas e suplicam para que o sistema é a parafernália de procedimentos prolonguem a tortura e o sofrimento daqueles que já não têm mais vida.

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    • Não sou a Eliane, Esther, apenas publiquei o texto dela por achá-lo pertinente com os assuntos que abordo aqui no blog. A existência de médicos humanizados é uma total realidade. Tanto que os Cuidados Paliativos vêm se expandindo rapidamente pelo Brasil, disseminando a alternativa à morte sofrida que lemos no texto dela. Mas você tem toda razão quando fala da dificuldade da própria família em aceitar a partida de uma pessoa querida, e exigir que seja feito todo o possível para mantêm-la viva, mesmo que isso lhe custe um sofrimento intenso e desnecessário. Um abraço!

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  20. Exatamente eu estou de acordo com o que eu li pois eu passei por esse exato relato a dois meses eu perdi o meu marido na mesma circunstância hoje eu sou uma pessoa de luto e tentando lutar com o trauma que eu não fiz o que eu tinha que ter feito faltou esse contato na hora em que meu marido deixou de existir como pessoa e se tornar hobjeto.Precisamos lutar contra isso!Temos o nosso direito de estarmos junto ao nosso ente querido que passa conosco uma vida inteira conosco!Obrigada pelo alerta!

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  21. Concordo com tudo que vc escreveu. E acho que temos que lutar, antes de mais nada, pela aprovação da morte humanizada no Brasil, um nome mais bonito para Eutanásia. Sem essa lei, os médicos vão fazer de tudo para ressuscitar os mortos, enquanto lá fora uma fila imensa aguarda por internação e UTI.

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    • Obrigada, Márcia (o texto não é meu, é de Eliane Brum). Cabe esclarecer que eutanásia á a morte intencionalmente provocada por um profissional da saúde mediante pedido expresso e reiterado do próprio paciente, por julgar que seu sofrimento é insuportável e irreversível. Não podemos confundi-la com a distanásia, que é o que ocorre mais frequentemente em hospitais, e que diz respeito ao prolongamento sem sentido do processo de morrer quando não há chances de reversão do quadro clínico do paciente, causando sofrimento desnecessário e inútil. São situações bem diferentes. O que chamamos de “morte humanizada” tem o nome técnico de ortotanásia, que é a morte em seu tempo certo, sem medidas desproporcionadas que visam manter o corpo vivo sem qualidade de vida ou dignidade. Um abraço!

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  22. Eliane, sempre que posso, acompanho suas matérias. Seu olhar sobre o mundo contagia o meu. Amplia e aprofunda as minhas experiências pessoais.

    Penso que entrar pela porta do hospital, seja para dar a luz seja para deixar lá a sua luz, é sempre traumatizante. O hospital me lembra um matadouro, embora, nunca tenha estado em um. Mas, em hospitais já estive, quer para dar a luz quer para deixar lá a luz de outros que amamos, por isso posso afirmar que um e outro são parecidos..

    Tive mais felicidade que você. Tive uma cadela que, ao ter sido internada em uma clínica veterinária para melhorar seu nível de saúde, saiu de lá sem vida. Essa experiência tão doída me permitiu escolher que minha mãe morresse em casa, com suas duas filhas presentes, ao seu lado. Permitiu, entrar no estado de delirio de minha mãe, que enxergava minha casa um hospital e eu, sua filha, uma enfermeira. .

    E, por isso mesmo, posso dizer, que viver o luto da minha mãe foi muito mais pacífico do que viver o luto de minha cadela.
    Tenho três filhos e só com o caçula pude escolher que nascesse em casa, entre os seus. Foi preciso viver duas experiências traumatizantes dos nascimentos de minhas filhas em hospitais para aprender e experienciar o dar a luz em casa; não transformar sua placenta em lixo hospitalr, mas em semente, enterrada ao pé de uma árvore frutífera, no sítio de seu avô.

    Nascimento e morte abrem os portais da vida de cá e de lá. Por isso mesmo, é importante, que possamos estar reunidos com os nossos para a chegada e a partida de quem amamos..

    Também tive a felicidade de ver meu neto nascer em casa, em um parto humanitário. Experiências felizes,e de empoderamento do ser só foram possíveis depois de vivencar esse lugar nefasto que se chama hospital.

    Obrigada mais uma vez por partilhar conosco suas experiências pessoais, tão contudentes e vitais às mudanças de paradigmas que queremos no mundo.

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  23. Maravilha!! Disse tudo que sentimos e com certeza, não sabemos expressar ! Muitos deveriam ler este artigo, e passar adiante !

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  24. Revivi a morte de meu pai q tb ocorreu em hospital. Me identifico integralmente c cada palavra do teu texto q é muito forte, bom e profundo. Obrigada. Queria q este texto fizesse parte da formação ética dos medicos e trabalhadores na area de saúde.

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  25. Apesar de estar coberta de razão em inúmeros pontos, você está profundamente equivocada em relação a vários outros.
    Recomendo que continue seus estudos sobre o tema (de preferência se colocando em papéis diferentes) antes de publicar algo assim. Visitar mais instituições e conhecer outros profissionais seria fundamental!
    Julgo que seria importante também para o seu aprofundamento no assunto, refletir sobre as diversas novas facetas que apareceriam se novas condutas que você pensa como corretas fossem implementadas no ambiente médico-hospitalar (como você gosta tanto de repetir).
    Sobre isso tudo que você falou, existe legislação.
    Será que os profissionais podem agir como você gostaria que eles agissem?
    Será que outras famílias gostariam que seus pais fossem tratados desse mesmo jeito?
    A reflexão sobre esse tema é fundamental para nossa sociedade, mas não da forma que a senhora está fazendo…(inclusive apontando os seus “culpados”).
    Boa sorte.

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    • Boa noite, Max! O texto não é meu, é da jornalista Eliane Brum. Eu sou médica e presencio situações como as que ela descreveu muitas vezes em meu dia-a-dia. Sei que muitas das situações que ela descreve têm uma explicação muito clara para quem vive “do lado de cá”, participando da rotina hospitalar. Consigo enxergar a dificuldade dos médicos e enfermeiros em lidar com os cenários que a Eliane descreveu. E me solidarizo com eles. Mas mesmo assim julgo importante que possamos ouvir o lado dos familiares e pacientes, mesmo que suas queixas nos pareçam injustas ou ingratas. É genuíno que pessoas como Eliane publiquem seus sentimentos, suas angústias, mesmo que não consigam compreender os motivos por trás de tudo isso. Cabe a nós, profissionais da saúde, aliviar o sofrimento dos pacientes e das famílias. Se não está havendo compreensão da situação como um todo, cabe a nós trazê-los para mais perto, como parceiros, e tentarmos mitigar as dores juntos. Obrigada pelos comentários!

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  26. O texto é muito profundo , muito bom para uma reflexão positiva. Como profissional da saúde concordo com tudo que está escrito, já passei por algo semelhante e é isso aí Se não sabemos morrer, jamais saberemos viver.

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  27. Parabéns pelo seu texto, senti muito disso na perda da minha avó, onde até o padre foi impedido de entrar fora da hora da visita.

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    • Obrigada pelas palavras, Luciana! O texto não é meu, é da jornalista Eliane Brum. Mas as histórias que ela conta fazem parte da nossa rotina cuidando de pacientes terminais. Infelizmente.

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  28. Todos podemos ser vítimas disso, vamos morrer muitas vezes sem saber do quê. Não pensamos a morte, nem falamos dela, muito menos planejamos a respeito. Como vamos entendê-la como um processo natural da vida? Somos ignorantes, e sem reflexões, estaremos à mercê da “ignorância prepotente médico/hospitalar”. Essa é de doer, e dói muito, porque a gente nunca esquece!
    Parabéns pelo texto!

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  29. Últimamente tenho visto que uma simples consulta a um médico do pronto socorro já provoca uma internação desnecessária e aflitiva. Tenho uma amiga que , corajosamente, tirou sua filha , em estado terminal , do hospital , e tratou-a humanizadamente em casa. A medicina alopátca é um amontoado de procedimentos cegos, sem perspectivas de bem estar. É um laboratório químico rolando escada abaixo. A família deve ser forte para priorizar as ações e dar um bom cuudado ao doente, sem se intimidar com a máquina hospitalar.

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  30. Cara eu li o que você escreveu aqui e lamento absurdamente o que você viveu. Passei por duas UTI’s em 2016 com meu marido em dois estados diferentes por 14 e 28 dias respectivamente, por conta de um linfoma e tive a alegria de encontrar profissionais que entenderam tudo o que você diz e que respeitaram tudo o que você sentiu infelizmente com o seu pai. Você me fez chorar e espero que possa tocar o coração de outros. Meu marido, acordou do coma e hoje está aqui lendo emocionado o que você escreveu. Um beijo no seu coração por dividir um momento tão duro. ❤️

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  31. Sensacional!!!!’

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  32. Gostei muito, e realmente está é a verdade, morremos sem dignidade.

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  33. Eu vivi tudo isso no momento da passagem da minha mae em março de 2013. E ainda ocorreu de eles não a manterem sedada, além de suprimirem a analgesia com frequência, o que fazia com que ela manifestasse dor, mesmo sem poder falar. Ao final, procederam à ortotanasia, sem nós consultar, e sem qualquer sedação ou analgesia. Foram 40 dias de tortura física pra ela e psicológica pra nós. E ainda teve irmão meu que negou essa situação até o final, alegando que não podíamos questionar os médicos. Tudo muito triste. Até hoje estou elaborando esse trauma, como muito bem diz a autora. Esse texto é um verdadeiro balsamo pra alma de quem já passou por isso. Gostaria de poder fazer alguma coisa pra conscientizar as pessoas sobre essa questão tão séria, pois muita gente simplesmente acha normal essa barbaridade que está acontecendo.

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    • Lúcia, sinto muito pela sua experiência traumática. Acho que muitas coisas estão mudando para que situações assim não continuem acontecendo. Entre elas, a melhoria nas formação médica no que diz respeito à morte, a expansão dos Cuidados Paliativos e a maior conscientização de pacientes e familiares sobre seus direitos. Quanto ao que você mencionou sobre ortotanásia, esse é o termo que usamos para a morte em seu tempo certo, com dignidade, sem prolongamento fútil do processo de morrer. É o oposto do que parece ter ocorrido com a sua mãe. A manutenção do corpo vivo a todo custo, sem dignidade e às custas de sofrimento, chama-se distanásia. Só por você compartilhar sua história já está ajudando muita gente. Um grande abraço!

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  34. Meus parabéns pelo texto: extremamente elucidativo. A voz que faltava aos “violentados pelos sistema médico-hospitalar”. Meus sentimentos pelos entes queridos que partiram…

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    • O texto não é meu, Elizete, é da jornalista Eliane Brum. Mas infelizmente presencio realidades como as que ela descreveu muito mais vezes do que eu gostaria. Obrigada pelas palavras! Abs!

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  35. Texto bonito, doloroso, e absolutemante necessàrio. Obrigada por compartilhar sur experência.

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  36. Excelente artigo, ,com experiência pessoal. Deveria ser usado como uma bandeira, para a conscientização hospitalar com os
    doentes terminais.

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  37. Viramos objetos pois enquanto o hospital mantém um paciente,sabendo que não tem mais volta em nome do lucro.Quanto mais tempo no hospital mais diárias a cobrar.

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  38. Esse processo é doloroso, já passei por isso. Estamos carentes de aceitação e compaixão.Desejo que superem toda essa dor. Abraços.

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  39. Tenho um irmão de 75 anos, médico intensivista com várias especializações. Há alguns anos que nos confidencia os mesmos pontos de vista. Seu texto é magnífico pela lucidez poética e realística. Ao me perguntar porque meu irmão habita a tal ilha de resistência a que se refere vejo nele o diferencial de busca espiritual.

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    • Tem razão, Maria. As UTI estão cheias de “resistentes”, tanto que há vários intensivistas com formação em Cuidados Paliativos. A humanização da medicina pode ser vista aí! :-))

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  40. Bom Dia Eliane Brun! Sou enfermeira . Goste muito deste tesxto. Depois de 40 anos de Trabalho ( continuo trabalhando) Estou interessada em Cuidados Paliativos. E como as Pessoas Morrem.

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  41. Um dos melhores textos que ja li sobre esse tema. Parabens pela qualidade do texto, parabens por tamanha sensibilidade sem palavrórios. Parabéns.

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  42. Texto lindo e lúcido! Entretanto, a referência ao SUS no final parece uma tentativa de politizar, seguindo o vem sendo feito nas redes sociais…
    O SUS vem sendo atacado nas últimas décadas e não só agora… investimentos deixaram de ser feitos quando a opção foi investir em empresas de “amigos”, renunciar à impostos de setores específicos, incentivar projetos que não beneficiavam brasileiros… Enfim, decisões pra manter o poder, encobrir corrupção, etc.
    Mas o texto continua sendo lindo é importante!

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  43. Excelente texto! Triste e verdadeiro! Deve ser compartilhado com muitas pessoas. Necessário que seja feito!
    Poderia dizer muito sobre tudo que foi dito, como pessoa e tudo que já vivi, como filha , família, e como profissional de saúde e minha visão crítica e luta contra essa realidade, infelizmente parte de um paradoxal cotidiano.

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  44. Todo o controle nos foge porque não somos donos da situação, falta-nos a informação, e não nos passam a informação, para q não atrapalhemos o trabalho robóticos deles, q realmente não sabem o q fazer, a não ser procedimentos mecânicos. A morte num hospital tá longe de ser uma morte natural. Não vejo nenhuma solução pra esse impasse. Só quando o Amor começar a fazer parte da vida de todo mundo.

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    • Há muitas soluções sim, Luciana, mas nenhuma milagrosa. As soluções passam pela nossa evolução como pessoas, pela modificação da forma como encaramos nossa própria vida. Sugiro um livro incrível chamado “Mortais”, que fala maravilhosamente sobre como não nos preparamos para passar por tudo isso, e acabamos por sofrer desnecessariamente. Obrigada!

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  45. Belíssimo relato de vivência, porem infelizmente erroneo em respeito aos “culpados” pela manutenção da dor. Seu pouco período de proximidade frente ao desencarne de seu familiar, somados a dor e raiva, associado a um ambiente hospitalar cheio de máquinas e mecanismos invasivos, te fecharam os olhos sobre a situação muito mais ampla ao seu redor. Situação essa que remete aos próprios familiares. Únicos que supostamente teriam que amar o ser humano ali em franca dor e sem chance de retornar a vida como antes, não conseguem se desvincular da pessoa. Exigindo, de forma tanto consciente como inconsciente, a permanência do ser, através de qualquer medida necessária, transmitindo essa energia maligna diariamente ao enfermo. O dia que você sentir o puro egoísmo mascarado de amor por uma esposa, pai, filhos, irá entender o que estou tentando passar nessa msg. Antes todos tivessem essa humanidade ao qual vc teve. Mas não tem. Muito menos sensibilidade. E isso não tem nada a ver com a equipe médica, que muitas vezes tem que realizar essas condutas de prolongamento de vida por necessidade. Oque importa para a maioria das pessoas no fim de um ente próximo, é tentar controlar a situação. Confundindo fé com egoísmo escrachado. Seu texto induz a apenas uma coisa correta, de que poderiam existir mais equipes de suporte paliativo para esses tipos de pacientes. Mas isso só será possível e viável se o coração dos familiares se abrirem, e entenderem que a vida carnal nao dura para sempre. Muito difícil, especialmente pq o ser humano avança sem fé e decaindo cada vez mais. Sendo assim, seu texto acabou por mostrar a verdadeira sensibilidade e carinho que temos que ter para o outro, mas infelizmente, fez oque todos os brasileiros vivem por fazer, reclamar, e achar um culpado. Esquecendo que quando apontamos um dedo mais três estão apontados para nós.

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    • A saída, a meu ver, Breno, é sempre a comunicação, tanto entre médicos e familiares, quanto entre pacientes e familiares. Todos somos culpados quando não conversamos sobre a morte com nossos filhos, com nossos pais, com nossos médicos. Tratamos a morte como se ela não fosse acontecer. E quando ela se aproxima, ficamos todos baratinados, sem saber o que fazer. Uma amiga costuma dizer que para morrer em paz é preciso treinar para isso. Obrigada pelos comentários.

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  46. Meu Deus!!! Como eu gostaria de ter escrito esse texto. Estou passando e sentindo tudo isso. Meu irmão foi sequestrado por um sistema médico hospitalar, colocado em um CTI onde só posso “ve-lo e ter notícias” 2 vzs por dia. Quando questiono sobre os procedimentos, sou olhada com indignação por médicos e enfermeiros. Hj desiti de entrar para ve-lo pq me senti aviltada e poderia pular na jugular de um “DOUTOR”. Amanhã talvez eu mude de ideia e chame os doutores para conversar e assim poder assegurar que meu irmão seja tratado com mais dignidade e humanidade dentro do cárcere…vai saber o que acontece lá dentro na 22 horas em que vc não pode estar junto.

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  47. Excelente e tocante tradução de tantos sentimentos!
    Quando os médicos se tornarem humanos, poderão ter o auxílio dos “Deuses”, ou de Deus, ou seja lá qual for a divindade! Mas como ouvir elucidações divinas, quando se pensa que é a própria divindade?

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  48. Que texto maravilhoso, sinto vergonha de permanecer a essa classe, obrigada por colocar em palavras as minhas angustias como medica intensivista e paliativista!

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  49. Um dos textos mais lindos que já li e ao mesmo tempo é de arrepiar.
    O que podemos fazer para mudar essa situação?

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