No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

25 de maio de 2020
Ana Lucia Coradazzi

11 comments

(Ir)racionalidades

Setenta e oito anos. Essa era a idade do Seu Oscar* quando seus dias, finalmente, se encerraram por aqui. Infelizmente, não foi o final que ele tinha imaginado para si, ou mesmo para sua família. Há dois anos Seu Oscar tinha recebido o diagnóstico de câncer de pulmão, bem avançado. Nesse tempo, entre um tratamento e outro, entre melhoras e pioras, muitos pensamentos lhe tinham passado pela cabeça, já coroada de cabelos brancos. Seu Oscar era um homem prático. Mesmo sem muita instrução, montou seu próprio negócio (ele vendia peças para carros) e com ele ofereceu uma vida confortável para a esposa e os dois filhos. Enérgico e exigente, participou de cada momento decisivo desde o diagnóstico da doença, e dizia que o adoecer o tinha deixado com o coração mole. Seu Oscar sabia que não havia perspectiva de cura. Sabia que o tratamento tinha a intenção de melhorar sua qualidade de vida e, com alguma sorte, lhe daria um tempo a mais com os netos. Mais de uma vez, tinha me perguntado como seria no final. Se teria dor. Se teria falta de ar. Se o sofrimento seria muito intenso. Falava sobre não ver sentido em receber suporte ventilatório nos seus momentos finais, e sobre o horror que lhe parecia a morte cercada de monitores, tubos e barulhos numa UTI. E foi com alívio que me ouviu dizer que, caso sua falta de ar estivesse causando muito sofrimento e não pudéssemos controlá-la, ele poderia ser sedado até que sua hora de ir chegasse. Falava (muito) sobre seu desejo de estar com a família até esse último suspiro. E, ao mesmo tempo em que pensava no que viria pela frente para si mesmo, organizava o que viria pela frente para sua família. Pragmático que era, organizou seus bens, suas senhas de banco, o seguro de vida. Conversou com os dois filhos sobre como gostaria que cuidassem de sua esposa, também já idosa e com problemas de saúde. Quando a doença mostrou estar tomando o controle da situação, Seu Oscar estava pronto.

Mas, nos dias incertos (e insanos) de hoje, “estar pronto” já não basta. Foi no meio da irracionalidade provocada pela pandemia de coronavírus que o câncer de Seu Oscar decidiu derrotá-lo. Começou com a piora da fadiga e com a falta completa de apetite. A perda de peso. Um pouco mais de dor nas costas. Por fim, a piora da falta de ar. Foram três semanas assim, controlando a dor num dia, ajustando medicamentos para a falta de ar no outro, providenciando suporte de oxigênio em casa, adaptando a posição da cama. Mas, numa manhã de sol, a sensação de sufocação era grande demais, e todos entenderam que Seu Oscar estava perto de ir embora. Ele foi levado ao hospital pelo filho mais velho, com a intenção de ser sedado para que seus últimos momentos fossem dignos e tranquilos, com os filhos por perto e a esposa ao seu lado. O documento que tínhamos feito juntos, onde constavam suas decisões sobre recusar o suporte ventilatório, UTI ou outras medidas invasivas, foi levado com ele para que o médico de plantão pudesse compreender a situação e respeitar sua vontade. Mas, em tempos de pandemia, as coisas funcionam diferente. Em vez de ser avaliado pelo médico, Seu Oscar foi direto à triagem para pacientes em insuficiência respiratória. Uma enfermeira, devidamente paramentada e de quem só se podiam ver os olhos, explicou que o filho de Seu Oscar precisaria ir para casa, pois o risco de infecção por coronavírus era muito alto, e os protocolos eram rigorosos. O filho tentou (inutilmente) argumentar que a falta de ar do pai nada tinha a ver com o vírus, e que seus pulmões já vinham parando de funcionar há tempos por causa do câncer de pulmão. Estendeu para ela o documento com as diretivas de vontade de seu pai. Mas, antes que ele conseguisse terminar de falar, Seu Oscar já tinha sido levado ao isolamento. Pouco menos de meia hora depois, antes mesmo do filho me ligar, ele já tinha sido intubado e estava na UTI-coronavírus, isolado do mundo, onde permaneceu até seus últimos minutos, três dias depois. Sem abraços. Sem mãos dadas. Sem adeus. Sem nada.

Ouvir a história de Seu Oscar quebrou meu coração em centenas de pedaços. A violência de que ele foi vítima não cabe na minha alma. Justificativas como “qualquer quadro respiratório deve ser tratado como covid-19 devido ao risco” ou “a intubação não pode esperar porque aumenta a chance de disseminação do vírus” me parecem muito mais fruto do medo do que da razão. A medicina precisa, claro, ser baseada em dados científicos e protocolos de segurança, mas esses dados e esses protocolos precisam ser ajustados a cada situação. É nesse ajuste que está a arte médica. É ele que diferencia médicos e pacientes de máquinas e números. Em que momento nós, médicos, nos esquecemos de que um câncer de pulmão avançado quase que invariavelmente termina em insuficiência respiratória, e que isso nada tem a ver com estarmos ou não em meio a uma pandemia? Quando é que desaprendemos que pacientes com doenças terminais irreversíveis não têm indicação de suporte ventilatório e UTI, sob nenhum pretexto técnico, simplesmente porque sua situação não poderá ser revertida com esse tipo de suporte? Pior: quando é que passamos a ignorar os desejos expressos dos nossos pacientes, atropelando sua autonomia e seus valores mais sagrados? Quando é, afinal, que reduzimos a medicina a esse pouco que ela é hoje?

Essas perguntas martelavam meu cérebro enquanto eu ouvia o relato dos filhos do Seu Oscar. Eles falavam da sensação de impotência, e de se sentirem fracassados por não terem cumprido o desejo do pai. Falavam da dor pela ausência de despedidas dignas, de abraços, de estar perto nos últimos momentos. Do arrependimento de terem levado o pai ao hospital, e da ingenuidade de acharem que um papel assinado seria suficiente para que sua vontade fosse respeitada. “Papéis não valem nada por aqui”, disse o mais novo, os olhos no chão. Eu só conseguia pensar que papéis não deveriam valer nada mesmo. Não deveríamos nem mesmo precisar deles. Papéis só fazem sentido quando não podemos confiar plenamente uns nos outros. Servem para garantir que o combinado ali, nas nossas conversas do dia-a-dia, seja cumprido. Conversas que deveriam valer mais do que dois quilômetros de documentos registrados em cartório, e que deveriam prevalecer sobre protocolos genéricos (e, muitas vezes, incrivelmente mal desenhados). A pandemia (e o medo atrelado a ela) só trouxe à tona o que já vínhamos vivendo há muito tempo: a falta de confiança mútua. Pacientes com medo do sistema de saúde em que estão inseridos, familiares com medo de interpelar os médicos, médicos com medo de serem processados, e todos com medo de estarem totalmente sozinhos. E o medo, sempre ele, nos faz irracionais.

A pandemia vai passar. Pode demorar. As vítimas podem ser muitas, os medos certamente ainda serão enormes, e as irracionalidades que ainda assistiremos são imprevisíveis. Mas a história nos mostra que os momentos de maior irracionalidade da saga humana, como grandes guerras ou doenças que dizimam populações inteiras, são (quase) sempre seguidas de um salto de qualidade em nossa condição humana. Quando a lógica e a sensatez voltam à cena, nos vemos mais próximos e reflexivos, e nos tornamos capazes de efetivar as mudanças de que precisamos para seguir evoluindo em direção a uma espécie melhor do que somos hoje. Poderemos talvez entender, de uma vez por todas, que a medicina não é só técnica e também não é só arte: ela é a mistura indivisível e equilibrada das duas coisas. Caberá a nós sermos médicos melhores do que somos. Infelizmente, Seu Oscar não estará aqui para assistir. Muitos não estarão. E é por esses muitos que perdemos (e principalmente pelos que ainda perderemos) que nossa responsabilidade aumenta, a cada dia, a cada decisão que tomamos. Um passo de cada vez.

 

*nome fictício para preservar o paciente e sua família

 

11 comentários sobre “(Ir)racionalidades

  1. Excelente! Já presenciei situações semelhantes e a sensação de impotência é muito grande…vc faz o planejamento de cuidados, deixa uma carta escrita com a família e paciente sobre preferências de cuidados e o final de vida não sai como o planejado por todos por falta de sensibilidade, conhecimento e empatia…

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    • Exatamente… muito difícil. No Brasil, precisamos ir muito além de construir as diretivas. Precisamos montar todo um esquema (de guerra) para que o paciente não seja engolido pelo sistema em seus momentos finais…

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  2. A medicina é compreender o paciente como um todo

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  3. Esse texto me tocou muito, porque tal como o sr Oscar, meu pai também tinha um cancer metastático, e também era um senhor muito prático… e similar a ele escolheu passar o final da vida em casa.E também semelhante à ele o final dele chegou em meio à pandemia. Graças a Deus conseguiu morrer exatamente como tinha planejado… A saudade é muito grande, mas o fato de ele ter partido como quis nos traz um imenso conforto.

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    • Meus sentimentos pelo seu pai, Grazi. Mas que bom ter o consolo da partida em paz, de acordo com a vontade dele. Isso faz uma diferença imensurável. Um abraço cheio de carinho. 🙂

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  4. Dra.Ana Lucia: Quero destacar a suas frase marcantes prá mim:” Pior: quando é que passamos a ignorar os desejos expressos dos nossos pacientes, atropelando sua autonomia e seus valores mais sagrados?” Estendeu para ela o documento com as diretivas de vontade de seu pai. Mas, antes que ele conseguisse terminar de falar, Seu Oscar já tinha sido levado…” Porque, Porque, o mesmo acontece com o paciente recusa transfusão sanguínea, pois sua fé, seu temor a Deus, e a equipe e todos tentam, mudar isso, mesmo com as diretivas antecipadas de não aceitar transfusão, alguns hospitais e médicos levam aos tribunais para obrigar o paciente aceitar a transfusão, atropelam como a Doutora disse a vontade expressa do paciente.
    Respeitem a vontade do paciente…

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    • Você tem toda razão. A postura de passar por cima da vontade do paciente justificando “que ele corre risco de vida” não cabe mais hoje, nem do ponto de vista ético e nem do jurídico. A autonomia do paciente é sagrada.

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  5. Sempre me emociono com os artigos da Dra.
    Bela e profunda reflexão para os dias conturbados que vivenciamos hoje.
    Recomendo a leitura.

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  6. Fantástica reflexão! Gratidão por você existir!

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