No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

21 de abril de 2020
Ana Lucia Coradazzi

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Direi que lembro de vocês

Não são tempos fáceis esses de hoje… não é apenas o vírus, e todos os riscos físicos que ele nos traz. Nem tampouco a dificuldade se restringe ao impacto econômico, ou mesmo emocional. O vírus se acomoda nas superfícies, mas o desafio mais complexo é enfrentado do lado de dentro da pele. Mudanças extremas têm esse poder. Elas reviram nossas crenças, colocam à prova nossos valores, atordoam nossos pensamentos, e fazem emergir nossa essência. Do que é, de verdade, que somos feitos? Que tipo de sentimento o sofrimento alheio nos provoca? Quanto de nós sucumbe ao medo, paralisando nossos atos? Até que tamanho nosso coração é capaz de se expandir? Do que é, mesmo, que sentimos falta?

Tem quem diga que sente falta de sair no sol, deitar na grama, lagartear pelo jardim. Só de pensar na cena, já sentimos a saudade do contato próximo com a natureza e, pasmem, quanto menos contato tínhamos com ela antes do vírus, maior a saudade. A mesma coisa acontece com quem fala da falta que sente da mãe, do irmão, do amigo. Quanto menos se falavam antes, maior a saudade agora. É igual à doença: na perda é que entendemos o valor das coisas. Normal. E é nessa normalidade que mora a beleza. Porque não adianta ouvir milhares de pessoas gravemente doentes quando falam sobre valorizar a vida, priorizar a família, curtir cada momento como se fosse o último. Textos, depoimentos, poemas, livros e filmes sobre isso se acumulam aos milhares nas estantes e nos acervos virtuais. Eles nos emocionam, mas raramente nos transformam em caráter definitivo. Precisamos perder.

Mais beleza ainda há nas coisas perdidas em si, aquelas que nos doem o coração. As perdas que doem dizem muito sobre nós. Elas contam ao mundo, timidamente, de que somos feitos. Contam que sentimos um amor infinito pela filha que está crescendo. Que nutrimos um sentimento intenso de fraternidade pelo próximo, ou que o dinheiro tem um papel assustadoramente importante em nossa vida. Contam que somos egoístas, mas não tanto quanto se imaginava. E que nossa criatividade é infinita quando se trata de suprir nossas necessidades. Coisas perdidas que doem expõem nosso lado sombrio e nossos medos, mas os compensam com nossas delicadezas e atos generosos. Elas nos fazem conhecer nosso lado de baixo, e o de cima também. Quando os anjos lhe perguntarem do que você se lembra de sua vida, o que você vai responder?*

Minha cabeça não tem parado de pensar. Pelo menos, não por vontade própria (preciso realmente obrigá-la a descansar de vez em quando). O que me dói? O que me faz falta? E não é difícil encontrar aquele ponto doloroso no meio do peito. Sinto falta da médica que mora em mim. Sinto falta dos olhares, abraços e sorrisos de pessoas que dão significado à minha vida. Em especial, daqueles que me procuram quando a vida está difícil e desesperançosa. Daqueles que compartilham comigo seus momentos de dor, e que me incluem generosamente em suas vitórias, por menores que sejam. Trabalhando assim, meio afastada, por trás do telefone ou de uma chamada de vídeo, não posso tocá-los. Mesmo com aqueles a quem ainda preciso ver pessoalmente, há agora um abismo esquisito, que não permite que nos abracemos, que limita os toques das mãos, que nos restringe a olhares e palavras. Eu me vejo recebendo pacientes na porta do consultório com um menear de cabeça, com cheiro de álcool por todos os cantos, e reduzindo o exame físico ao mínimo necessário antes de inundar o ambiente com álcool outra vez. As consultas se encurtam, o diálogo é mais objetivo (e quase que restrito a assuntos relacionados à pandemia), e sobra muito pouco tempo para sermos apenas duas pessoas partilhando uma experiência única. A incerteza preenche cada canto da sala. Eu sei, estamos ambos ali nos conectando da melhor forma possível, mas há algo de estéril entre nós. É como se parte da vida não pudesse mais ser compartilhada, e isso dói. Fazer parte da vida dos pacientes dá um sentido à minha própria vida que eu não podia dimensionar. Agora, que perdi, eu posso.

Talvez seja difícil (até impensável) vislumbrar a dependência que um médico pode ter em relação aos seus pacientes. Médicos são provedores, não usuários. Ou pelo menos é assim que somos ensinados, e é assim que somos vistos pelos próprios pacientes. Mas o fato é que, em meio ao distanciamento, dá para enxergar o quanto nós precisamos deles. Talvez precisemos uns dos outros na mesma medida, mas desconfio que essa relação é assimétrica: médicos recebem mais de seus pacientes do que podem oferecer a eles. Fornecemos diagnósticos, explicações, propostas de tratamento e ajuda para superar a doença (isso se formos bons médicos, não estou me referindo a profissionais que não honram seu jaleco). Fornecemos algumas receitas, um acompanhamento individualizado e suporte técnico quando as coisas não estão indo bem. E eles nos devolvem gratidão, e nos revelam seus segredos, e nos ensinam a viver diante da dificuldade. Eles nos olham com a mesma confiança dos nossos filhos pequenos, e colocam suas vidas em nossas mãos. Eles rezam por nós. E não dá para retribuir algo dessa magnitude.

Talvez seja pouco, talvez seja o meu egoísmo se revelando nas palavras. Diante de tantas tragédias no mundo, tanta dor, tanto a nos preocupar, sentir falta dessa relação próxima com pacientes pode parecer um grão de poeira em meio ao tornado. Mas é de pequenas coisas que o mundo é feito, e é com pequenos passos que caminhamos por ele. Sem nos darmos conta do que nos faz melhores, do que nos toca o espírito, do que nos motiva e emociona, seguiremos sempre à deriva, sem poder vislumbrar o porto onde atracaremos o barco. Quando a tempestade passar, em que ponto do oceano estaremos? Por isso, quando ouvi de uma paciente, há alguns dias, que se Deus quiser no retorno ela ia poder me dar um abraço tão apertado que ficaríamos as duas sem ar, eu sorri com todos os meus poros e meu coração se desfez ali mesmo, na porta. Se Deus quiser. E quando os anjos me perguntarem do que eu lembro, direi que lembro de vocês.

 

*referência à música I Remember you, de Johnny Mercer e Victor Schertzinger, lançada em 1941 (“When my life is through, and the angels ask me to recall the thrill of them all, then I shall tell them I remember you.”)

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