No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

7 de julho de 2016
Ana Lucia Coradazzi

2 comments

Quando as palavras se tornam dispensáveis

BorboletasLucimara* tinha 35 anos quando recebeu o diagnóstico de câncer de colo uterino, já com metástases à distância, e sem possibilidade de cura. Com um filho de apenas 14 anos, e no meio de uma fase brilhante da sua carreira, algo assim definitivamente não estava em seus planos. Justamente por não enxergar a doença como algo que coubesse em sua vida, as conversas com ela eram sempre muito difíceis. Muitas vezes deixei claro que nossa melhor chance de sucesso era o controle da doença, e que a cura era um objetivo irreal. Lucimara sempre respondia com um olhar que misturava desconfiança e inconformismo. Mas acabava seguindo as minhas orientações e tratamentos, esperando o desfecho daquilo tudo.

Os meses se passaram e ela começou a piorar bastante. Emagreceu, quase não conseguia andar sozinha e tinha grande dificuldade para controlar a dor, porque não tolerava as medicações (nenhuma delas). Ela começou a ficar mais impaciente e às vezes até agressiva com a família. Não permitia que as conversas sobre o futuro se estendessem, fazendo questão de por o foco exclusivamente nos sintomas. Falava longamente de como estava sua alimentação, mas interrompia imediatamente a conversa se eu dissesse algo como “a perda do apetite faz parte da doença, Lu”. A atitude dela me preocupava. Era difícil saber o que estava se passando ali dentro. Ela não dava pistas. Às vezes parecia que a Lu negava completamente a existência de uma doença que lhe ameaçava a vida. Em outros momentos, parecia que sua compreensão era tão profunda que ela não precisava mais falar sobre isso.

Um dia ela estava tão debilitada que precisamos interná-la. Não conseguia comer nem beber nada há vários dias, e tinha começado a vomitar. Logo ficou claro que ela estava evoluindo com obstrução intestinal e insuficiência renal severa e não teríamos muito mais tempo a partir dali. Após explicar a ela o que estava acontecendo, tentei mais uma vez: “Lu, estou preocupada, acho que não vamos conseguir resolver isso. O que você imagina que vai acontecer?”. E, mais uma vez, ela mudou de assunto, falando apenas sobre o inchaço nas pernas e na preocupação com uma minúscula ferida na mão. Conversamos mais um pouco e, quando eu já estava de saída, ela me chamou de volta: “Doutora, sonda não. Só isso.”

Essa foi toda a orientação que tive sobre o que ela desejava para seus últimos dias. E foi o suficiente. Quando ela começou a vomitar e nenhum medicamento ou conduta foi capaz de trazer alívio, tanto eu quanto a família já sabíamos o que fazer. Iniciamos lentamente a sedação paliativa e passamos os dias seguintes conversando sobre a pessoa que ela era. A mãe, a irmã, o filho e o namorado permaneciam com ela o tempo todo, entre boas lembranças e momentos de saudade. Foi num desses momentos que a Lu parou de respirar, e se foi. Sem sonda. Sem drama. E sem ter precisado de mais do que cinco palavras.

 

*nome fictício

 

2 thoughts on “Quando as palavras se tornam dispensáveis

  1. como é difícil conviver com esta doença, meu marido está com câncer muito avançado, como falar que ele está morrendo aos poucos?

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    • Sem dúvida, Nice, falar sobre isso é uma das atitudes mais difíceis que conheço. Nenhum treinamento nos prepara suficientemente para isso. Mas a grande dica é o respeito incondicional pela pessoa que está partindo. Respeito pelo tempo dela, pela compreensão que ela tem da sua realidade, pela forma como ela decide viver. Já tive muitos pacientes com os quais não foi necessária uma conversa explícita sobre isso. Às vezes, estar perto basta. As pessoas, em geral, têm consciência do que está se passando com elas, principalmente com um diagnóstico de câncer. Elas sabem que algo está muito errado, mesmo quando dizem que está tudo bem e que pretendem correr a São Silvestre no final do ano. É nessa hora que entra o tal do respeito: “OK, se você estiver em condições, corro a São Silvestre com você. Mas, e se as coisas não correrem tão bem assim? O que você gostaria que fizéssemos?”. Nada substitui o amor.

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