Lucimara* tinha 35 anos quando recebeu o diagnóstico de câncer de colo uterino, já com metástases à distância, e sem possibilidade de cura. Com um filho de apenas 14 anos, e no meio de uma fase brilhante da sua carreira, algo assim definitivamente não estava em seus planos. Justamente por não enxergar a doença como algo que coubesse em sua vida, as conversas com ela eram sempre muito difíceis. Muitas vezes deixei claro que nossa melhor chance de sucesso era o controle da doença, e que a cura era um objetivo irreal. Lucimara sempre respondia com um olhar que misturava desconfiança e inconformismo. Mas acabava seguindo as minhas orientações e tratamentos, esperando o desfecho daquilo tudo.
Os meses se passaram e ela começou a piorar bastante. Emagreceu, quase não conseguia andar sozinha e tinha grande dificuldade para controlar a dor, porque não tolerava as medicações (nenhuma delas). Ela começou a ficar mais impaciente e às vezes até agressiva com a família. Não permitia que as conversas sobre o futuro se estendessem, fazendo questão de por o foco exclusivamente nos sintomas. Falava longamente de como estava sua alimentação, mas interrompia imediatamente a conversa se eu dissesse algo como “a perda do apetite faz parte da doença, Lu”. A atitude dela me preocupava. Era difícil saber o que estava se passando ali dentro. Ela não dava pistas. Às vezes parecia que a Lu negava completamente a existência de uma doença que lhe ameaçava a vida. Em outros momentos, parecia que sua compreensão era tão profunda que ela não precisava mais falar sobre isso.
Um dia ela estava tão debilitada que precisamos interná-la. Não conseguia comer nem beber nada há vários dias, e tinha começado a vomitar. Logo ficou claro que ela estava evoluindo com obstrução intestinal e insuficiência renal severa e não teríamos muito mais tempo a partir dali. Após explicar a ela o que estava acontecendo, tentei mais uma vez: “Lu, estou preocupada, acho que não vamos conseguir resolver isso. O que você imagina que vai acontecer?”. E, mais uma vez, ela mudou de assunto, falando apenas sobre o inchaço nas pernas e na preocupação com uma minúscula ferida na mão. Conversamos mais um pouco e, quando eu já estava de saída, ela me chamou de volta: “Doutora, sonda não. Só isso.”
Essa foi toda a orientação que tive sobre o que ela desejava para seus últimos dias. E foi o suficiente. Quando ela começou a vomitar e nenhum medicamento ou conduta foi capaz de trazer alívio, tanto eu quanto a família já sabíamos o que fazer. Iniciamos lentamente a sedação paliativa e passamos os dias seguintes conversando sobre a pessoa que ela era. A mãe, a irmã, o filho e o namorado permaneciam com ela o tempo todo, entre boas lembranças e momentos de saudade. Foi num desses momentos que a Lu parou de respirar, e se foi. Sem sonda. Sem drama. E sem ter precisado de mais do que cinco palavras.
*nome fictício




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