No Final do Corredor

histórias, experiências e lições de vida

10 de janeiro de 2019
Ana Lucia Coradazzi

8 comments

A Reza

Era um final de tarde silencioso. Daqueles em que escutamos o farfalhar das folhas das árvores na janela, enquanto o céu anoitece cheio de preguiça. Nesses dias, mesmo dentro dos corredores do hospital, o mundo parece girar mais devagar. Até os ruídos rotineiros, como carrinhos de medicação atravessando o corredor, o falatório das enfermeiras passando o plantão ou os alarmes de algum aparelho, parecem estar com o volume respeitosamente reduzido. Como se o mundo todo estivesse cochichando para não acordar quem está dormindo.

Apesar da calma aparente que pairava no ar, meu coração não estava tranquilo. Aos 38 anos, Bárbara* estava se despedindo. O câncer de mama, diagnosticado pouco mais de um ano antes, tinha comprometido seus pulmões e seu cérebro, limitando sua vida de forma cruel. Bárbara tomava uma infinidade de medicações para controlar as dores de cabeça, as convulsões, o desconforto no estômago, o inchaço. Há meses não conseguia mais andar sozinha, e há algumas semanas não conseguia nem mesmo engolir os comprimidos adequadamente. Precisava da ajuda do esposo, da mãe e das duas filhas para tudo, da alimentação ao banho, dos remédios à mudança de posição. Há três dias a falta de ar vinha piorando muito, com febre e secreção pulmonar e, apesar dos esforços da família nos cuidados, Bárbara precisou ser internada. Foram iniciados antibióticos e todas as medidas possíveis para aliviar os sintomas, mas seu desconforto era tamanho que ela precisou ser sedada. Era essa Bárbara, dormindo sob efeito dos sedativos e prestes a se despedir de todos, que eu estava indo visitar, com o coração cheio de angústia e compaixão.

A porta do quarto estava encostada, deixando apenas uma fresta, suficiente para que eu visse Bárbara deitada, imóvel, em seu sono profundo, e o esposo Valter sentado ao seu lado. Uma das mãos dele descansava sobre as mãos dela. A outra mão segurava uma Bíblia, com as páginas envelhecidas e o título dourado da capa já descascado. Seus olhos estavam fechados, seus lábios murmuravam uma prece. Sua concentração era tamanha que ele não percebeu minha presença. Continuava rezando, acariciando as mãos da esposa de quando em vez, pendendo a cabeça para frente nos momentos de maior comoção. Fiquei ali observando seu ato de fé por um bom tempo. Não queria entrar no quarto e interromper um momento tão íntimo, mas também não queria sair dali. Era como se a prece dele envolvesse todo o mundo ao seu redor. Como se as palavras que saíam da sua boca anulassem a dor daquela situação. Alguns minutos depois, ele terminou a prece, com um agradecimento a Deus e um beijo nas mãos de Bárbara. Sorriu quando me viu na porta, fazendo sinal para que eu entrasse.

Perguntei se eu estava atrapalhando, ele disse que não, que estava tudo bem. Examinei a Bárbara, tranquila, adormecida. Me sentei então com Valter para saber como ele estava, perguntei pelo que ele estava rezando. Ele sorriu. “Por ela, doutora. Eu só rezo por ela.” Perguntei se ele estava pedindo alguma coisa em especial. “Eu sempre peço pela cura, doutora, mas sei que Deus é quem sabe. Se Ele estiver precisando mais dela lá do que eu preciso dela aqui, não posso mudar isso.” Um silêncio triste tomou conta de nós dois. Olhamos para ela, inconsciente, como se esperássemos que ela própria nos desse essas respostas. Peguei nas mãos dele, e ele novamente sorriu, devagar, meio trêmulo: “Eu preciso muito dela comigo, doutora, a senhora nem imagina o quanto. Minhas filhas também. Mas tenho fé que Deus nunca está errado. Vai dar tudo certo”. Concordei com ele. Tudo sempre dá certo, mesmo quando parece que está tudo errado. Fiquei ali com ele algum tempo, com longos silêncios e algumas lágrimas. Não havia angústia ali dentro. Não havia medo, não havia escuridão. O que eu via era a grande tristeza de um homem se vendo obrigado a se despedir da esposa, e que lutava para aceitar sua própria impotência, confiando seu destino (e o dela) a algo tão maior que não podia ser compreendido, ou sequer questionado. A simplicidade dele, as palavras simples, a atitude humilde diante da imensidão da vida… e da morte.

Quando saí do quarto, a noite já tinha chegado. Continuava lenta, preguiçosa, silenciosa. Meus pensamentos vagavam pela imagem de Valter rezando, sua crença em pertencer a um Reino cuja compreensão lhe fugia, sua resignação, seu amor pela esposa. São poucas as belezas humanas que me comovem tanto quanto a fé. Eu, médica e, portanto, uma mulher da ciência, fui treinada para duvidar, para comprovar teorias e estabelecer o que é certo e o que é errado. Fui capacitada para analisar evidências e buscar os resultados corretos. E aí me deparo, em tantos momentos da minha vida, com a tal da fé. A fé não tem evidências científicas. Não existe, por trás dela, a enormidade de estudos científicos, teorias, análises e discussões que me são tão familiares. A fé simplesmente brota no coração das pessoas e se instala por ali mesmo, envolvendo suas vidas. Faz com que acreditemos no incompreensível e nos dá a sensação de pertencimento que nos acolhe e conforta. A fé alivia o que a medicina não pode aliviar.

Fui andando lentamente pelo corredor em direção à saída. Podia ouvir meus próprios passos, devagar, durante todo o trajeto. A enfermaria, sempre tão ruidosa, hoje estava serena. O mundo estava deixando Bárbara dormir.

*nome fictício para proteger a privacidade da paciente

8 respostas para ‘A Reza

  1. Sensação de Pertencimento – nunca vi melhor definição para a fé.
    É maravilhoso sentir que pertencemos a uma mundo onde temos a certeza que tudo dará certo e que sempre acontecerá o melhor para cada pessoa. Mesmo que esse mundo não seja palpável.
    Espero sinceramente que a Barbara tenha sido recebida com festa em casa e que o Valter nunca perca a fé.
    Obrigada Dra.

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  2. Relatos sempre cheios de amor, compaixão e delicadeza…
    parabéns pela sensibilidade!!!
    Precisamos de médicas como você em todos os lugares do mundo…

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  3. Que lindo! Acalma o coração e nos deixa com a certeza de que, como diz o texto, Deus faz tudo certo mesmo quando tudo está dando errado. Que Deus nos abençoe.

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  4. Muito lindo e sensível!

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  5. Me emocionei com seu relato. Tocante e inspirador…

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  6. Cara colega, sou cirurgião oncológico há 30 anos. Ouso sugerir a você que se deixe contaminar pela” tal da fé “. Desconheço sua orientação religiosa, mas posso lhe afirmar com convicção que para viver pela fé é preciso coragem. Tenho tido muitas experiências de fé, inclusive algumas muito pessoais, e queria lhe encorajar a crer além da ciência médica. Deus está sempre no controle e creio que Ele quer lhe dar novas aventuras de você acreditar. Lhe desejo A Paz. Cordialmente. Carlos Calasans.

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    • Muito obrigada pelas palavras amorosas, Carlos. Certamente a fé é um aprendizado que tenho inserido cada vez mais em minha vida, tanto pessoal quanto profissional. Muita paz. Abs

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